sexta-feira, janeiro 27, 2006



Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!


(Bocage)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Mulher a ler

Fascinação

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor


(F. D. Marchetti e M. de Feraudy, versão Armando Louzada)

Pessoa delicodoce

Há uns tempos apareceu por tudo quanto é caixa de comentários de blog um poema atribuído a Fernando Pessoa com "bons conselhos" sobre "saber viver". Ora, ou é de um heterónimo que desconheço, com capacidade de previsão sobre gostos light da pós-modernidade... ou então...

sábado, janeiro 21, 2006

O homem do Rossio

Quem passou pelo Rossio e viu aquela cara não se esqueceu, seguramente. Eu vi-o, pela primeira vez, de repente, a menos de um metro de distância, num dia em que a rua estava bastante movimentada. A reacção instintiva é desviar o olhar, tal é a surpresa e a estranheza perante o que se vê.

Na noite passada, foi transmitida na televisão a história de um menino indonésio de dois anos com um tumor gigantesco na cara, que fazia lembrar o homem do Rossio. Uma fundação pagou as despesas para que pudesse ir com o pai ser operado em Taiwan. Em quatro operações sofisticadas, recuperou a visão dos dois olhos, que estavam escondidos no meio do tumor, e foi-lhe moldada uma cara que assentou numa ossatura muito alterada e que o fez parecer um menino quase normal. Quando for adulto e tiver os ossos completamente formados, vai precisar de mais cirurgias estéticas.

Pergunto-me se foi tentado tudo para tratar o nosso homem do Rossio. Se alguém sabe a sua história. A tragédia desse homem é também um pouco partilhada por quem passa por aquele local. Não bastando a deformidade, teve ainda necessidade de mendigar. Para mim, a sua presença e a exposição da sua cara é uma lição, uma oportunidade para pensar. Mas gostava mesmo era de saber que o senhor tinha sido tratado e estava bem. Se alguém souber alguma coisa, pode deixar informações na caixa de comentários. Obrigada.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Mulher a ler


(John Everett Millais, Rosalind na floresta)

*
[Adenda]

Act 3, SCENE II. The forest.

Enter ORLANDO, with a paper

ORLANDO
Hang there, my verse, in witness of my love:
And thou, thrice-crowned queen of night, survey
With thy chaste eye, from thy pale sphere above,
Thy huntress' name that my full life doth sway.
O Rosalind! these trees shall be my books
And in their barks my thoughts I'll character;
That every eye which in this forest looks
Shall see thy virtue witness'd every where.
Run, run, Orlando; carve on every tree
The fair, the chaste and unexpressive she.


Exit

(...)

Enter ROSALIND, with a paper, reading

ROSALIND
From the east to western Ind,
No jewel is like Rosalind.
Her worth, being mounted on the wind,
Through all the world bears Rosalind.
All the pictures fairest lined
Are but black to Rosalind.
Let no fair be kept in mind
But the fair of Rosalind.


(...)

Enter CELIA, with a writing

ROSALIND
Peace! Here comes my sister, reading: stand aside.

CELIA
[Reads]
Why should this a desert be?
For it is unpeopled? No:
Tongues I'll hang on every tree,
That shall civil sayings show:
Some, how brief the life of man
Runs his erring pilgrimage,
That the stretching of a span
Buckles in his sum of age;
Some, of violated vows
'Twixt the souls of friend and friend:
But upon the fairest boughs,
Or at every sentence end,
Will I Rosalinda write,
Teaching all that read to know
The quintessence of every sprite
Heaven would in little show.
Therefore Heaven Nature charged
That one body should be fill'd
With all graces wide-enlarged:
Nature presently distill'd
Helen's cheek, but not her heart,
Cleopatra's majesty,
Atalanta's better part,
Sad Lucretia's modesty.
Thus Rosalind of many parts
By heavenly synod was devised,
Of many faces, eyes and hearts,
To have the touches dearest prized.
Heaven would that she these gifts should have,
And I to live and die her slave.


("As You Like It", William Shakespeare)

Labiologia 

Sextina

Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade
para não tornar co tempo!

Tôdalas coisas, per tempo,
passam, como dia e noute;
üa só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido enquanto há sol,
nela em quanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sobre a terra,
debaxo minha vontade.

Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor, pon-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pon-se-me üa escura noute
sobre a lembrança de um dia...
Inda mal porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaxo de sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes deste dia
há-de passar tanta noute!


(Bernardim Ribeiro)

(Philippe Jolyet, A Lição Pouco Interessante)

Campanha

Recebi um panfleto com fotografia e mensagem do Dr. Soares e da esposa, pela caixa do correio. Pergunto-me se os marketeers responsáveis pela coisa são do mesmo planeta que eu.

Romance de Avalor

Pela ribeira dum rio
que leva as águas ao mar
vai o triste de Avalor,
não sabe se há-de tornar.
As águas levam seu bem;
ele leva o seu pesar.
Só vai e sem companhia,
que os seus fora deixar:
que quem não leva descanso,
descansa em só caminhar.
Descontra onde ia a barca
se ia o sol abaixar;
indo-se abaixando o sol
escurecia-se o ar;
tudo se fazia triste
quanto havia de ficar
Da barca levantam remos
e ao som do remar
começaram os remeiros
do barco este cantar:
"Que frias eram as águas!
Quem as haverá de passar?"
Dos outros bancos respondem:
"Quem as haverá de passar
senão quem a vontade pôs
onde a não pode tirar."
Trás a barca o levam olhos
quanto o dia dá lugar.
Não durou muito, que o bem
não pode muito durar.
Vendo o sol posto, contra ele,
soltou os olhos ao chorar;
soltou rédea a seu cavalo,
da beira do rio a andar:
e a noite era calada
pera mais o magoar,
que o compasso dos remos
era o do seu suspirar:
querer contar suas mágoas
seria areias contar.
Quanto mais se ia alongando,
se ia alongando o soar:
de seus ouvidos aos olhos
a tristeza foi igualar.
Assi como ia a cavalo
foi pela água dentro entrar;
e dando um longo suspiro
ouvira longe falar:
"Onde mágoas levam alma,
vão também corpo levar":
mas indo assi por acerto
foi c'um barco n'água dar,
que estava amarrado à terra
e seu dono era a folgar.
Salta assi como ia dentro
e foi a amarra cortar:
a corrente e a maré
acertaram-no ajudar.
Não sabem mais que foi dele
nem novas se podem achar,
suspeitou-se que era morto,
mas não é para afirmar,
que não no embarcou ventura
para isso o foi guardar.
Mas são as águas do mar
de quem se pode fiar.


(Bernardim Ribeiro)

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Mulher a ler


(Anthony Murphy, 1999)

Esta disposição de cadeira, leitora e sapatos é comum a um outro quadro muito apreciado neste blog. Alguém sabe dizer qual é?

Protecção de dados

Julgava que só um certo perfil de pessoas fazia isto inocentemente. Mas enganei-me. O Ministério da Educação enviou hoje um email (entre umas dezenas idênticos, presume-se), com mais de um milhar de destinatários. À vista de todos os restantes destinatários. Como é bem sabido, estas listas de endereços de email são um regalo para quem quer fazer publicidade gratuita (e cartas da Nigéria, e propagação de vírus, etc, etc) através do correio electrónico.

Noutro dia foram os sms da Carris, noutro a factura detalhada da PT do cliente Estado.

Sempre gostava de saber onde anda a tal comissão de protecção de dados e o que acontece aos responsáveis por esta violação da privacidade dos cidadãos.

Agradecimento

Ao blog Novíssimo Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, pela referência a um romance tradicional publicado no Abrigo, obrigada!