sexta-feira, janeiro 20, 2006


(Philippe Jolyet, A Lição Pouco Interessante)

Campanha

Recebi um panfleto com fotografia e mensagem do Dr. Soares e da esposa, pela caixa do correio. Pergunto-me se os marketeers responsáveis pela coisa são do mesmo planeta que eu.

Romance de Avalor

Pela ribeira dum rio
que leva as águas ao mar
vai o triste de Avalor,
não sabe se há-de tornar.
As águas levam seu bem;
ele leva o seu pesar.
Só vai e sem companhia,
que os seus fora deixar:
que quem não leva descanso,
descansa em só caminhar.
Descontra onde ia a barca
se ia o sol abaixar;
indo-se abaixando o sol
escurecia-se o ar;
tudo se fazia triste
quanto havia de ficar
Da barca levantam remos
e ao som do remar
começaram os remeiros
do barco este cantar:
"Que frias eram as águas!
Quem as haverá de passar?"
Dos outros bancos respondem:
"Quem as haverá de passar
senão quem a vontade pôs
onde a não pode tirar."
Trás a barca o levam olhos
quanto o dia dá lugar.
Não durou muito, que o bem
não pode muito durar.
Vendo o sol posto, contra ele,
soltou os olhos ao chorar;
soltou rédea a seu cavalo,
da beira do rio a andar:
e a noite era calada
pera mais o magoar,
que o compasso dos remos
era o do seu suspirar:
querer contar suas mágoas
seria areias contar.
Quanto mais se ia alongando,
se ia alongando o soar:
de seus ouvidos aos olhos
a tristeza foi igualar.
Assi como ia a cavalo
foi pela água dentro entrar;
e dando um longo suspiro
ouvira longe falar:
"Onde mágoas levam alma,
vão também corpo levar":
mas indo assi por acerto
foi c'um barco n'água dar,
que estava amarrado à terra
e seu dono era a folgar.
Salta assi como ia dentro
e foi a amarra cortar:
a corrente e a maré
acertaram-no ajudar.
Não sabem mais que foi dele
nem novas se podem achar,
suspeitou-se que era morto,
mas não é para afirmar,
que não no embarcou ventura
para isso o foi guardar.
Mas são as águas do mar
de quem se pode fiar.


(Bernardim Ribeiro)

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Mulher a ler


(Anthony Murphy, 1999)

Esta disposição de cadeira, leitora e sapatos é comum a um outro quadro muito apreciado neste blog. Alguém sabe dizer qual é?

Protecção de dados

Julgava que só um certo perfil de pessoas fazia isto inocentemente. Mas enganei-me. O Ministério da Educação enviou hoje um email (entre umas dezenas idênticos, presume-se), com mais de um milhar de destinatários. À vista de todos os restantes destinatários. Como é bem sabido, estas listas de endereços de email são um regalo para quem quer fazer publicidade gratuita (e cartas da Nigéria, e propagação de vírus, etc, etc) através do correio electrónico.

Noutro dia foram os sms da Carris, noutro a factura detalhada da PT do cliente Estado.

Sempre gostava de saber onde anda a tal comissão de protecção de dados e o que acontece aos responsáveis por esta violação da privacidade dos cidadãos.

Agradecimento

Ao blog Novíssimo Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, pela referência a um romance tradicional publicado no Abrigo, obrigada!

Caminante

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.


(António Machado)

terça-feira, janeiro 17, 2006

Mineiros na neve


(Vincent van Gogh)

Dúvida

Por que é que o futebol não é popular nos Estados Unidos?

Republicana

Tenho orgulho (relativo) dos nossos seis candidatos presidenciais. E ainda mais por o nosso herdeiro real não se atrever a concorrer a estas eleições nem a ser republicano.

Alquimia

Arrefece.
A fogueira do sol vai-se apagando
Na casca das maçãs que amadurece.
Vai a vida passando.

Mas havendo uma Eva
Que no inverno, depois, venha tentar
O homem,
O sol e a vida podem-se encontrar
Nas maçãs que se comem.


São Martinho de Anta, 21 de Setembro de 1947

Miguel Torga