há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
(Al Berto)
domingo, novembro 20, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
Um blog e quê...?

Muito obrigada, estimados leitores, pelas vossas visitas, comentários e mimo imerecido!
A imagem é de um catálogo norte-americano, da pêra Pillsbury, que, em 1894, era produzida em New Hampshire. (Bem parecida com a nossa pêra rocha, não?)
quarta-feira, novembro 16, 2005
Na senda das pequenas histórias
Uma rapariga pergunta a um rapaz:
- Queres casar comigo?
O rapaz vira-se para o lado e pergunta:
- Jarbas, pode trazer o meu coração?
- Está num cofre de abertura retardada, Senhor.
E morreram enquanto esperavam.
- Queres casar comigo?
O rapaz vira-se para o lado e pergunta:
- Jarbas, pode trazer o meu coração?
- Está num cofre de abertura retardada, Senhor.
E morreram enquanto esperavam.
Galo
Pode sentir-se saudades de um galo a cantar pela manhã? Depois de muito tempo na cidade, e se ainda há alguma ligação com a natureza... sente-se mesmo.
domingo, novembro 13, 2005
Mulher a ler

Marilyn Monroe
Adenda/pin-up service: para os apreciadores de Marilyn, uma sugestão de fundo para o ambiente de trabalho. (Aposto que conseguem esquecer o pequeno-almoço indegesto...)
Crucificada
Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
- Hei-de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei-de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém,
E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
(Florbela Espanca)
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
- Hei-de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei-de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém,
E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
(Florbela Espanca)
A Divina Pastora
Em lugar da Imaculada Conceição, venera-se, no Estado de Lara, na Venezuela, uma "Divina Pastora":«El comienzo de la veneración por la Divina Pastora se remonta al año de 1736, fecha en que el párroco de Santa Rosa encargó a un famoso escultor que le hiciera una estatua de la Inmaculada Concepción. No obstante, por una extraña equivocación, en lugar de la Inmaculada, llegó al pueblo la imagen de la Divina Pastora. De inmediato el párroco quiso devolverla, pero por mucho que lo intentaron, no pudieron levantar el cajón donde habían colocado la imagen. A partir de este momento la población interpretó este raro acontecimiento como señal de que la Divina Pastora quería quedarse entre ellos. Posteriormente, durante los sucesos del terremoto de 1812, el templo donde se veneraba la Divina Pastora fue destruido, pero su imagen quedó milagrosamente intacta, hecho que reforzó la creencia de los fieles de Santa Rosa de que la Virgen quería quedarse siempre entre ellos para protegerlos.» (Mais aqui.)
Adenda: a figura da Divina Pastora, propriamente dita, foi sonhada, com pormenores da indumentária, por um padre capuchinho de nome Frei Isidoro de Sevilha, em 1705. (Ler mais.)
sábado, novembro 12, 2005
Leve arrepio
Na televisão, em directo, uma procissão de velas com uma Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. A mesma religião e a mesma cidade dos autos-de-fé.
Médicos
"Quanto às esperas por consultas. Como quer que não as haja? O que seria da medicina privada se não houvesse espera? Já tinha pensado nisso? Acha que este problema alguma vez vai ter solução? É o mesmo das operações. Como sobreviveriam as clínicas?"
(Cecília Costa, numa caixa de comentários do Abrigo de Pastora)
A minha solução é esta: dez vezes mais médicos. Ou o necessário para existirem em excesso no mercado. A dúvida é: estarão o Estado ou as universidades privadas dispostos a fazer esse investimento, contra o poderoso lóbi dos médicos?
Para um primeiro-ministro, a educação já foi uma paixão; para este agora, a formação é um desígnio... mas talvez sejam mesmo as universidades espanholas a alterarem o nosso estado de coisas.
(Cecília Costa, numa caixa de comentários do Abrigo de Pastora)
A minha solução é esta: dez vezes mais médicos. Ou o necessário para existirem em excesso no mercado. A dúvida é: estarão o Estado ou as universidades privadas dispostos a fazer esse investimento, contra o poderoso lóbi dos médicos?
Para um primeiro-ministro, a educação já foi uma paixão; para este agora, a formação é um desígnio... mas talvez sejam mesmo as universidades espanholas a alterarem o nosso estado de coisas.
sexta-feira, novembro 11, 2005
A flor da solidão
Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
(Ruy Belo)
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
(Ruy Belo)
quinta-feira, novembro 10, 2005
Subscrever:
Mensagens (Atom)

