quarta-feira, novembro 02, 2005

Apelo

1. Uma área em que Portugal é rico: poesia.

2. Há quem divulgue a poesia portuguesa, traduzida na língua franca internacional: aqui.

3. Há coisas que se perdem nas traduções... E há coisas quase impossíveis de reencontrar, quer em lojas, quer via p2p. Como Eugénio de Andrade a dizer a sua própria poesia ou Carlos do Carmo a cantar o genérico da série "Retalhos da Vida de um Médico" - algumas das melhores coisas que se podem ouvir em português.

E se houvesse um leitor do Abrigo de Pastora que tivesse os ficheiros audio e os que quisesse partilhar?...

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

(Álvaro de Campos)

terça-feira, novembro 01, 2005

Feed-back

Feed-back de realimentação positiva
Dos ácidos, aminoácidos, proteínas
Fechados em células, ou à deriva
A regularem para que não cresça a mais
A regularem para que não cresça a menos
A regularem para que seja assim.

E eu, assisto impotente a este frenesim...

He lá açúcares, compostos de carbono, adrenalina
Guiados por algoritmo incorpóreo, cego, oculto
Deixem de regular a minha sorte
Em tropel, falsa desordem, tumulto...
E de gerir minhas dores, meus amores, meus ais

Se isto é a vida, eu quero a morte!

Ao menos, os ácidos neutralizam as bases; dão sais... ha ha ha ...


(Manolo, leitor do Abrigo de Pastora, numa janela de comentários)

domingo, outubro 30, 2005


© Abrigo de Pastora 2005

A Cavafy, nos dias distantes de 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando
acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
como este grego que nos versos se atrevia
a falar do que tanto se calava
ou só obliquamente referia -
nenhum tão solitário e tão atento
ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

1964

(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, outubro 26, 2005

N.

Nastassja Kinski

Espantoso

Tornou-se ritual. Os grevistas dizem que a adesão à greve foi de 90%. As entidades patronais, que foi de 10%. Depois, vem o comentador e diz que a verdade deve ser a média. E todos acham normal.

Elementos

Marte cada vez mais próximo. Os plátanos, obedientes, vestiram troncos e folhas de camuflados bicolores.

domingo, outubro 23, 2005

Igualdade de oportunidades, onde está?

A escola com melhor posição no último ranking publicado é um colégio que cobra 400 euros por mês e tem turmas de 8 alunas.