Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.
(Adolfo Casais Monteiro)
segunda-feira, outubro 17, 2005
sábado, outubro 15, 2005
A escrita, a liberdade e a vida
"Vivir para contarla" (de Gabriel García Márquez) é um título que muito aprecio. Para lá da óbvia causalidade que uma biografia implica, ele remete para o amadurecimento em que a boa escrita se apoia. A História dá-nos exemplos abundantes de seres humanos que compraram a sua liberdade (alguns, a imortalidade) através da escrita. Um homem senta-se, está consigo na sua solidão e, escrevendo, muda o mundo, porque agita as mentes. Mas para escrever e deixar marca não basta querer. Não bastam copiosos exercícios académicos. É preciso viver. Uma vida feita da sujeição aos agentes da natureza que provocam as rugas e as cãs, de sofrimentos vários, da paciência da observação dos acasos e do exercitar do livre-arbítrio possível, a cada dia que passa. Só depois o escritor pode transmitir o que tem de único, o seu testemunho insubstituível, a sua herança para o futuro. E, então, felizes os que o lêem.
sexta-feira, outubro 14, 2005
Será que, será que, será?
Podres poderes
enquanto os homens exercem seus podres poderes
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
e perdem os verdes somos uns boçais
queria querer gritar setecentas mil vezes
como são lindos, como são lindos os burgueses
e os japoneses mas tudo é muito mais
será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?
será, será que , que será , que será, que será
será que essa minha estúpida retórica
terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios, padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval
queria querer cantar afinado com eles
silenciar em respeito ao seu transe , num êxtase
ser indecente mais tudo é muito mau
ou então cada paisano e cada capataz
com sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades , caatingas e nos gerais
será que apenas os hermetismos pascoais
e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
morrer e matar de fome, de raiva e de sede
são tantas vezes gestos naturais
eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
daqueles que velam pela alegria do mundo
indo e mais fundo tins e bens e tais
será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?
será, será que, que será, que será, que será,
será que essa minha estúpida retórica
terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
ou então cada paisano e cada capataz
com sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
será que apenas os hermetismos pascoais
e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
morrer e matar de fome de raiva e de sede
são tantas vezes gestos naturais
eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
daqueles que velam pela alegria do mundo
indo mais fundo
tins e bens e tais
tudo mais fundo
tins e bens e tais
tudo mais fundo
tins e bens e tais
(Caetano Veloso)
enquanto os homens exercem seus podres poderes
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
e perdem os verdes somos uns boçais
queria querer gritar setecentas mil vezes
como são lindos, como são lindos os burgueses
e os japoneses mas tudo é muito mais
será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?
será, será que , que será , que será, que será
será que essa minha estúpida retórica
terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios, padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval
queria querer cantar afinado com eles
silenciar em respeito ao seu transe , num êxtase
ser indecente mais tudo é muito mau
ou então cada paisano e cada capataz
com sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades , caatingas e nos gerais
será que apenas os hermetismos pascoais
e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
morrer e matar de fome, de raiva e de sede
são tantas vezes gestos naturais
eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
daqueles que velam pela alegria do mundo
indo e mais fundo tins e bens e tais
será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?
será, será que, que será, que será, que será,
será que essa minha estúpida retórica
terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
ou então cada paisano e cada capataz
com sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
será que apenas os hermetismos pascoais
e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
morrer e matar de fome de raiva e de sede
são tantas vezes gestos naturais
eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
daqueles que velam pela alegria do mundo
indo mais fundo
tins e bens e tais
tudo mais fundo
tins e bens e tais
tudo mais fundo
tins e bens e tais
(Caetano Veloso)
Coisas estranhas que se ouvem sem querer
Na rua, uma mulher ao telemóvel:
- Ó, pá, passei a tarde no cabeleireiro.
Num transporte público, um brasileiro ao telemóvel:
- Esse que eu lhe ia arranjar também é sem contrato. Mas se você está bem nesse, é melhor ficar.
- Ó, pá, passei a tarde no cabeleireiro.
Num transporte público, um brasileiro ao telemóvel:
- Esse que eu lhe ia arranjar também é sem contrato. Mas se você está bem nesse, é melhor ficar.
sábado, outubro 08, 2005
De uma wish list para uma cidade melhor

(UW)
Árvores. Muitas árvores. Dez vezes mais árvores. Não só acantonadas em jardins, mas em todos os passeios, com sombras que se vejam!
sexta-feira, outubro 07, 2005
quinta-feira, outubro 06, 2005
Se perguntarem: das artes do mundo?
Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.
(Herberto Helder)
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.
(Herberto Helder)
sexta-feira, setembro 30, 2005
Rimas
Por viver numa castigada Babel, quantas belas rimas, quanta música escrita em palavras, nunca chegarei a conhecer...
The tiger
Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
(William Blake)
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
(William Blake)
terça-feira, setembro 27, 2005
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