No Relatório da ONU sobre o Desenvolvimento Humano, divulgado ontem, aparecem, nas páginas 219 e 220, os 57 estados considerados como tendo um elevado desenvolvimento humano. A última coluna da tabela dá a diferença entre as posições no ranking do PIB per capita e no ranking do índice de desenvolvimento humano. Uma questão de políticas.
Com diferenças com módulo igual ou superior a 10, surgem:
- com políticas mais eficazes no que ao desenvolvimento humano diz respeito:
Suécia (14)
Argentina (12)
Polónia (12)
Chile (17)
Uruguai (16)
Costa Rica (10)
Cuba (40)
Tonga (17)
Bulgária (10)
Panamá (17)
- com políticas menos eficazes no que ao desenvolvimento humano diz respeito:
Qatar (-13)
Emirados Árabes Unidos (-18)
Kuwait (-11)
Bahamas (-13)
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quinta-feira, setembro 08, 2005
Concursos de televisão
Mais misteriosa do que a razão pela qual alguém se sujeita a ver as suas limitações exploradas num concurso de televisão, só mesmo aquela que leva as pessoas a expor a sua imensa ignorância frente a milhões de pessoas.
quarta-feira, setembro 07, 2005
True colors?
Remédios
Apesar de o coronel Aureliano Buendía continuar a acreditar e a repetir que Remédios, a bela, era, de facto, o ser mais lúcido que jamais conhecera e que o demonstrava a todo o momento com a sua assombrosa habilidade para fazer pouco de toda a gente, abandonaram-na ao deus-dará. Remédios, a bela, ficou a vaguear pelo deserto da solidão, sem cruzes às costas, amadurecendo nos seus sonhos sem pesadelos, nos seus banhos intermináveis, nas suas refeições sem horários, nos seus profundos e prolongados silêncios sem recordações, até uma tarde de Março em que Fernanda quis dobrar no jardim os seus lençóis de barbante e pediu a ajuda das mulheres da casa. Mal tinham começado quando Amaranta reparou que Remédios, a bela, estava transparente, com uma palidez intensa.
—Sentes-te mal?—perguntou-lhe.
Remédios, a bela, que segurava o lençol pela outra ponta, fez um sorriso magoado.
—Pelo contrário—disse—, nunca me senti tão bem.
Palavras não eram ditas e Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancou os lençóis das mãos e desdobrou-os em toda a sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas dos seus saiotes e tentou agarrar-se ao lençol para não cair, no momento em que Remédios, a bela, começava a elevar-se. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve a serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável e deixou os lençóis à mercê da luz ao ver Remédios, a bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante adejo dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dálias, e passavam com ela através do ar onde acabavam as quatro da tarde e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcançá-la nem os mais altos pássaros da memória.
(Gabriel García Márquez, in «Cem Anos de Solidão», traduzido por Margarida Santiago)
—Sentes-te mal?—perguntou-lhe.
Remédios, a bela, que segurava o lençol pela outra ponta, fez um sorriso magoado.
—Pelo contrário—disse—, nunca me senti tão bem.
Palavras não eram ditas e Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancou os lençóis das mãos e desdobrou-os em toda a sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas dos seus saiotes e tentou agarrar-se ao lençol para não cair, no momento em que Remédios, a bela, começava a elevar-se. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve a serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável e deixou os lençóis à mercê da luz ao ver Remédios, a bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante adejo dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dálias, e passavam com ela através do ar onde acabavam as quatro da tarde e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcançá-la nem os mais altos pássaros da memória.
(Gabriel García Márquez, in «Cem Anos de Solidão», traduzido por Margarida Santiago)
domingo, setembro 04, 2005
As Vinhas da Ira
O pequeno regressou ao seu canto; trouxe um cobertor sujo e estendeu-o à mãe.
—Muito obrigada—disse ela.—O que é que aquele senhor tem?
O pequeno respondeu na mesma voz rouca e monótona:
—Primeiro, esteve doente; agora, está a morrer de fome.
—O quê?!
—Está a morrer de fome. Adoeceu na colheita do algodão e há seis dias que não come nada.
A mãe foi até ao canto e debruçou-se sobre o homem, a olhá-lo. Devia ter uns cinquenta anos. Possuia um rosto barbudo e descarnado, e os olhos, muito abertos, fixavam o nada. O rapaz veio postar-se ao lado da mãe.
—Ele é teu pai?—perguntou ela.
—É, sim. Ele dizia que não tinha fome, ou que já tinha comido. Dava-me a comida toda. Agora, está tão fraco que nem se pode mexer.
A chuva amainara outra vez e tamborilava brandamente no tecto do celeiro. O homem escanzelado moveu os lábios. A mãe ajoelhou-se ao lado dele e encostou o ouvido à boca do homem, cujos lábios se tornaram a mover.
—Bem—disse a mãe.—Esteja sossegado. Tudo se arranja. É só esperar que eu tire a roupa molhada à minha filha.
A mãe voltou para junto de de Rosa de Sharon.
—Trata de te despir, anda!
Estendeu o cobertor, fazendo dele uma cortina, para a esconder dos olhos dos outros. E, quando Rosasharn ficou nua, a mãe enrolou-a no cobertor.
O pequeno estava agora de novo ao lado da mãe, explicando:
—Eu não sabia de nada. Ele dizia sempre que já tinha comido ou então que não tinha fome. A noite passada, quebrei a vidraça de uma janela e roubei um pão. Obriguei-o a comer, mas vomitou tudo e ficou ainda mais fraco. Devia comer sopa ou tomar leite. A senhora tem algum dinheiro para comprar leite?
A mãe respondeu, suavemente:
—Chiu! Não te apoquentes. Tudo se há-de arranjar.
De repente, o pequeno deu um grito:
—Está a morrer! Está a morrer, sério! Ele vai morrer de fome. Vai, vai!
—Chiu!—fez a mãe.
Lançou um olhar ao pai e ao tio John, que estavam parados, diante do doente, sem saber o que haviam de fazer. Olhou para Rosa de Sharon, bem enrolada no cobertor. Os seus olhos fugiram dos da filha e tornaram a encontrá-los. E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A respiração da rapariga tornara-se curta e agitada.
—Sim—disse.
A mãe sorriu.
—Eu sabia. Eu sabia que tu eras capaz de o fazer.—Olhou para as mãos apertadas uma na outra, descansando no regaço.
Rosa de Sharon disse baixinho:
—Vocês são capazes de sair todos?
A chuva batia ao de leve no telhado.
A mãe inclinou-se para a filha e, com a palma da mão, afastou as madeixas revoltas que lhe caíam para a testa e deu-lhe um beijo na fronte. A mãe ergueu-se rapidamente:
—Vamos, minha gente, vão para o alpendre das ferramentas.—gritou ela. Vão-se embora, andem!
Pô-los fora da porta. Por fim, levando o rapazito pela mão, saiu também, fechando a porta, que chiou atrás de si.
Por um momento, Rosa de Sharon permaneceu imóvel no celeiro ressoante de murmúrios. Depois, ergueu-se pesadamente, enrolando-se mais no cobertor. Lentamente, dirigiu-se ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto devastado do desconhecido, de olhos arregalados e cheios de temor. Então, vagarosamente, deitou-se ao lado dele. O homem abanou debilmente a cabeça de um lado para o outro. Rosa de Sharon afastou um dos lados do cobertor, deixando o seio a descoberto.
—Tem de ser—disse, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça para si.—Ora vá! Então!
Apoiou-lhe a cabeça com a mão, e os seus dedos afagaram-lhe suavemente os cabelos. Ergueu os olhos, e deixou-os errar pelo barracão, enquanto os lábios se lhe arqueavam num misterioso sorriso.
(John Steinbeck, in «As Vinhas da Ira», traduzido por Virgínia Motta, Livros do Brasil)
—Muito obrigada—disse ela.—O que é que aquele senhor tem?
O pequeno respondeu na mesma voz rouca e monótona:
—Primeiro, esteve doente; agora, está a morrer de fome.
—O quê?!
—Está a morrer de fome. Adoeceu na colheita do algodão e há seis dias que não come nada.
A mãe foi até ao canto e debruçou-se sobre o homem, a olhá-lo. Devia ter uns cinquenta anos. Possuia um rosto barbudo e descarnado, e os olhos, muito abertos, fixavam o nada. O rapaz veio postar-se ao lado da mãe.
—Ele é teu pai?—perguntou ela.
—É, sim. Ele dizia que não tinha fome, ou que já tinha comido. Dava-me a comida toda. Agora, está tão fraco que nem se pode mexer.
A chuva amainara outra vez e tamborilava brandamente no tecto do celeiro. O homem escanzelado moveu os lábios. A mãe ajoelhou-se ao lado dele e encostou o ouvido à boca do homem, cujos lábios se tornaram a mover.
—Bem—disse a mãe.—Esteja sossegado. Tudo se arranja. É só esperar que eu tire a roupa molhada à minha filha.
A mãe voltou para junto de de Rosa de Sharon.
—Trata de te despir, anda!
Estendeu o cobertor, fazendo dele uma cortina, para a esconder dos olhos dos outros. E, quando Rosasharn ficou nua, a mãe enrolou-a no cobertor.
O pequeno estava agora de novo ao lado da mãe, explicando:
—Eu não sabia de nada. Ele dizia sempre que já tinha comido ou então que não tinha fome. A noite passada, quebrei a vidraça de uma janela e roubei um pão. Obriguei-o a comer, mas vomitou tudo e ficou ainda mais fraco. Devia comer sopa ou tomar leite. A senhora tem algum dinheiro para comprar leite?
A mãe respondeu, suavemente:
—Chiu! Não te apoquentes. Tudo se há-de arranjar.
De repente, o pequeno deu um grito:
—Está a morrer! Está a morrer, sério! Ele vai morrer de fome. Vai, vai!
—Chiu!—fez a mãe.
Lançou um olhar ao pai e ao tio John, que estavam parados, diante do doente, sem saber o que haviam de fazer. Olhou para Rosa de Sharon, bem enrolada no cobertor. Os seus olhos fugiram dos da filha e tornaram a encontrá-los. E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A respiração da rapariga tornara-se curta e agitada.
—Sim—disse.
A mãe sorriu.
—Eu sabia. Eu sabia que tu eras capaz de o fazer.—Olhou para as mãos apertadas uma na outra, descansando no regaço.
Rosa de Sharon disse baixinho:
—Vocês são capazes de sair todos?
A chuva batia ao de leve no telhado.
A mãe inclinou-se para a filha e, com a palma da mão, afastou as madeixas revoltas que lhe caíam para a testa e deu-lhe um beijo na fronte. A mãe ergueu-se rapidamente:
—Vamos, minha gente, vão para o alpendre das ferramentas.—gritou ela. Vão-se embora, andem!
Pô-los fora da porta. Por fim, levando o rapazito pela mão, saiu também, fechando a porta, que chiou atrás de si.
Por um momento, Rosa de Sharon permaneceu imóvel no celeiro ressoante de murmúrios. Depois, ergueu-se pesadamente, enrolando-se mais no cobertor. Lentamente, dirigiu-se ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto devastado do desconhecido, de olhos arregalados e cheios de temor. Então, vagarosamente, deitou-se ao lado dele. O homem abanou debilmente a cabeça de um lado para o outro. Rosa de Sharon afastou um dos lados do cobertor, deixando o seio a descoberto.
—Tem de ser—disse, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça para si.—Ora vá! Então!
Apoiou-lhe a cabeça com a mão, e os seus dedos afagaram-lhe suavemente os cabelos. Ergueu os olhos, e deixou-os errar pelo barracão, enquanto os lábios se lhe arqueavam num misterioso sorriso.
(John Steinbeck, in «As Vinhas da Ira», traduzido por Virgínia Motta, Livros do Brasil)
Nova Orleães
Imagino-me ali, sentada no passeio de uma rua coberta de escombros, com a cor de pele "errada" (embora a dos meus antepassados), sem poupança no banco, sem casa, sem carro para sair dali, sem comida, sem água, com a roupa de há seis dias sem tomar banho, uma multidão à volta, mortos encontrados pelos cantos. Não, não me apetece rezar.
sábado, setembro 03, 2005
Outro
Summer night—
even the stars
are whispering to each other.
(Kobayashi Issa, traduzido por Robert Hass)
even the stars
are whispering to each other.
(Kobayashi Issa, traduzido por Robert Hass)
Kobayashi Issa
Kinu-ginu ya Till your clothes can barely
Kasumu made miru be seen in the distance, my love,
Imo ga ie. I keep looking back at your house.
(tradução de Robert Hass)
Kasumu made miru be seen in the distance, my love,
Imo ga ie. I keep looking back at your house.
(tradução de Robert Hass)
sexta-feira, setembro 02, 2005
Sinais
Numa situação de catástrofe, a primeira preocupação das autoridades norte-americanas é com a propriedade, não com a sobrevivência dos seus concidadãos.
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