quarta-feira, agosto 31, 2005

O poder do pânico

«O medo vai ter tudo»
(Alexandre O'Neill)

Pergunto-me como terá começado o boato assassino que hoje matou quase seis centenas de pessoas, em Bagdade. Terá sido intencional? (Em vez de um bombista, terá havido um efabulador suicida? Ou haveria realmente um bombista?) Ou terá sido um crescendo de equívocos que se foi propagando? O mais provável é nunca se vir a saber.

É terrível pensar que somos mais vulneráveis quando estamos juntos, em grande número. Até porque as multidões que se formam para grandes celebrações religiosas são constituídas, muitas vezes, por pessoas desesperadas, que têm na religião não só o seu bálsamo, mas também a sua tábua de salvação.

Este horrível acidente provocado por homens poderia ter acontecido em qualquer parte do mundo onde já se tivesse ouvido a palavra "terrorismo", embora fosse mais provável num lugar diariamente martirizado por atentados. Um lugar em que duas seitas de uma mesma região partilham um território e uma riqueza comum e tentam agora encontrar regras para essa convivência. E há ainda tendências dentro de cada seita... Os xiitas sabem que, nas suas grandes celebrações religiosas, são vulneráveis a ataques. (Celebram datas de mortes e de martírios de líderes religiosos, coisa que não é comum noutras religiões.) Agora têm mais um martírio para o calendário, de seis centenas de seres humanos que morreram de forma estúpida. Poderia tudo isto, ao menos, unir os iraquianos enquanto grande família?

Também estou de luto, hoje.

Respondendo a uma vaga de fundo da sociedade portuguesa, aqui a apresento (v.3):

ÍTACA

Quando começares a tua viagem para Ítaca
anseia por que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de conhecimento.
Dos Lestrígones e dos Ciclopes,
do irado Posídon não tenhas medo,
nunca encontrarás coisas dessas no teu caminho,
se o teu pensamento se mantiver elevado, se um distinto
sentimento o teu espírito e o teu corpo tocar.

Os Lestrígones e os Ciclopes,
o feroz Posídon não encontrarás,
se não os carregares na tua alma,
se a tua alma não tos apresentar.

Anseia por que o caminho seja longo.
Que sejam muitas as manhãs de Verão
que com tal satisfação, com tal alegria,
entrarás em portos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios,
para adquirires as boas mercadorias,
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos,
e perfumes inebriantes de todos os tipos,
a maior quantidade de perfumes inebriantes;
visita muitas cidades do Egipto,
para aprenderes e aprenderes dos sábios.

Mantém Ítaca sempre no teu pensamento.
A chegada aí é o teu propósito.
Mas não apresses de maneira nenhuma a viagem.
Melhor que dure muitos anos;
e que chegues velho à ilha,
rico com tudo o que ganhaste no caminho,
não esperando que Ítaca te dê riqueza.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela nunca terias começado.
Mas não tem mais nada para te dar.

E se a encontrares pobre, Ítaca não te enganou.
Assim que te tornaste sábio, com tanta experiência,
terás já percebido o que as Ítacas significam.

Konstandinos Kavafis, 1910
Tradução de Carla Hilário Quevedo (com vénia)


Nota 1: Encontrei na rede várias traduções deste poema. Não sabendo eu nada de grego, escolhi pelo português.

Nota 2: Pelo caminho, além de um sítio onde encontrei uma das traduções, o Galaaz Literatura Portuguesa, descobri outro também interessante: o BookCrossing. Não sabia que a ideia já estava tão difundida.

terça-feira, agosto 30, 2005

Ítaca rodeada pelas ondas

Ítaca

Não vale a pena suportar tanto castigo.
Procuras Ítaca. Mas só há esse procurar.
Onde quer que te encontres está contigo
dentro de ti em casa na distância
onde quer que procures há outro mar
Ítaca é a tua própria errância.


(Manuel Alegre)

segunda-feira, agosto 29, 2005

domingo, agosto 28, 2005

Dádiva de Atena em Lisboa


© Laurindinha 2005

«Estudo afirma que homens têm QI médio superior às mulheres» (Lusa, 25/8/05)

1. «Os investigadores frisam no entanto "que quando os níveis de QI são iguais (entre homens e mulheres), as mulheres são mais eficazes do que os homens pois elas são mais conscienciosas e capazes de suportar longos períodos de trabalho".» (id.)

Poderemos concluir daqui que o QI não mede directamente a "capacidade para fazer coisas" e que, para uma mesma capacidade de realizar testes de QI, as mulheres são mais... inteligentes?

2. Usa-se o resultado para "ajudar a explicar" o desequilíbrio na distribuição por sexos dos prémios Nobel. Por que é que terão achado que é preciso uma "explicação" para lá dos factores culturais? Aparentemente, nem tentaram quantificá-los.

3. Em vez de prémios Nobel, por que não falaram de pornografia e de futebol?

quarta-feira, agosto 24, 2005

Eu falo das casas e dos homens

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

(Adolfo Casais Monteiro)

terça-feira, agosto 23, 2005

Rescaldo

Por onde o fogo passou, cheira ao que parece ser carne de bichos queimados. Os pássaros, que costumavam andar pela ribeira, andam agora, cheios de fome, pelas hortas, a comer couves. Já nem têm medo dos homens, quando estes os tentam afugentar.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Milho vermelho


Imagem: USDA

Mais bonita em noites de luar, a tarefa de descamisar o milho era um trabalho comunitário entre familiares e vizinhos. Nas eiras, que então pareciam espelhos a reflectir a luz da lua, sentavam-se os convivas em pequenos bancos de madeira, em redor do grande monte de espigas apanhadas uns dias antes, à torreira do sol. Era trabalho para um, dois, ou mesmo três serões, dependendo da extensão das terras do dono e da generosidade do ano agrícola.

Pegava-se numa espiga, que se punha ao alto no colo, com o caule seguro entre as pernas, para permitir o trabalho seguinte. Começando então do lado da barba, tiravam-se as "folhas" exteriores, mais secas e ásperas. Depois, as camadas interiores, já mais suaves e, por vezes, húmidas, que pareciam uma roupa interior da cor de algodão natural.

A seguir, o passo mais difícil para os garotos, que era separar a espiga das suas roupagens exteriores e do caule da planta, com um movimento firme da mão e do pulso na planta, apoiada num joelho. Finalmente, tirava-se a barba à espiga descamisada, que se atirava para o cesto de vime onde já estavam outras como ela. Por detrás dos descamisadores iam-se formando montinhos de "camisas" em que as crianças brincavam.

Quando, em vez de uma espiga amarela, aparecia uma espiga vermelha, havia palmas e votos de boa sorte, e a recordação de uma atlântida perdida em que se cantava e dançavam bailaricos no fim dos serões da descamisada.

O trabalho, em si, era cansativo e monótono e, por isso, tentava-se despachá-lo o mais depressa possível, competindo com os companheiros para ver quem fazia atrás de si um monte maior, prova do trabalho realizado.

Na minha memória, estes serões eram sempre tépidos. E essa alegria simples que já não há é também recordação de uma espécie de atlântida perdida. Como se elas, essas atlântidas, se fossem sucedendo ao longo do tempo, para gerações sucessivas. Será a juventude, que nos foge por entre os dedos? As mortes que se sucedem, e que nos recordam a nossa própria condição de mortais? Não sei. Talvez seja só a matriz portuguesa a impor-me a saudade. A saudade do milho vermelho.

Águia real


(SDGFP)


(BirdForum)