terça-feira, julho 26, 2005

Oh! como se me alonga, de ano em ano

Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.

(Luís de Camões)

segunda-feira, julho 25, 2005

No melhor dos mundos...

«À República de Genebra

(...) Meus caros concidadãos, ou, antes, meus irmãos, uma vez que os laços do sangue, do mesmo modo que as leis, nos unem a quase todos (...). Para vós, a felicidade está realizada, nada mais é preciso do que aproveitá-la, e não tendes necessidade, para vos tornardes perfeitamente felizes, senão saberdes contentar-vos com sê-lo. A vossa soberania, adquirida ou reconquistada na ponta das espadas e conservada durante dois séculos à força de valor e de sabedoria, é enfim plenamente e universalmente reconhecida. Tratados honrosos fixam as vossas fronteiras, asseguram-vos os direitos e tornam firme o vosso repouso. A vossa constituição é excelente, ditada pela razão mais sublime e garantida por potências amigas e respeitáveis; o vosso Estado é tranquilo, não tendes nem guerras nem conquistadores a temer; não tendes outros mestres que leis sábias que vós próprios fizestes, administradas por magistrados íntegros por vós também escolhidos; não sois demasiado ricos para vos debilitardes pela preguiça e perderdes em vãs delícias o gosto da verdadeira felicidade e das sólidas virtudes, nem demasiado pobres para terdes necessidade de mais ajuda estrangeira que aquela que vos provém da vossa indústria; e esta preciosa liberdade que nas grandes nações só se consegue manter à custa de impostos exorbitantes, a vós quase nada vos custa a conservar


(Jean-Jacques Rousseau, in "Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre os homens")

sexta-feira, julho 22, 2005

Leitura/escrita

- Aprende-se a escrever, lendo?
- Não. Aprende-se a reconhecer que não se escreve bem.

Alice

- Que sensação estranha! - disse Alice. - Devo estar a fechar-me como se fosse um telescópio.

E, na verdade, assim era: não tinha agora mais do que vinte e cinco centímetros de altura, e o rosto iluminou-se-lhe ao pensar que estava do tamanho adequado para transpor a pequena porta e encaminhar-se para aquele jardim encantador. No entanto, em primeiro lugar, esperou um pouco para ver se iria encolher ainda mais. Este pensamento deixou-a um tanto nervosa, «pois posso acabar por desaparecer completamente, como se fosse uma vela», pensou Alice, «e como ficaria eu depois?». E tentou imaginar o que acontece à chama de uma vela quando esta se apaga, pois não se lembrava de alguma vez ter reparado nisso.


(Lewis Carroll, "Alice no país das maravilhas")

Aguardente de Abrunho

A atmosfera clara do zimbro
escureceu e ficou hibernal.
Ela deu aguardente a beber
aos abrunhos, e selou o frasco.

Quando o desarrolhei
cheirei a quietude acre
e perturbada de um arbusto
insinuando-se na copa.

Quando a deitei no copo
tinha um travo cortante
e resplandecia
como a Betelgeuse.

Faço-te um brinde
com abrunhos lustruosos,
roxos, mosqueados, ácidos
e fiáveis.


(Seamus Heaney, traduzido por Rui Carvalho Homem)

quarta-feira, julho 20, 2005

Procurar ser melhor

Aceitar a expressão "pretos" como se fosse neutra ou não resistir a sorrir quando se fala de um tique homossexual não será também ser um pouco cúmplice dos campos de extermínio nazis?

domingo, julho 17, 2005

Livros

«Já na montra da livraria detectaste a capa com o título que procuravas. Seguindo esta pista visual introduziste-te na loja através do cerrado obstáculo dos Livros Que Não Leste que te olhavam carrancudos das bancas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar sugestionar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Deixar De Ler, os Livros Feitos Para Usos Diferentes Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Sequer Ser Preciso Abri-los Enquanto Pertencentes À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha dos baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tu Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Também Os Lerias De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Aqueles Que São. Movendo-te com rapidez ultrapássa-los e diriges-te para o meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Devias Ler Outros, Livros Demasiado Caros Que Podes Esperar Poder Comprar Quando Forem Revendidos Por Metade Do Preço, Livros Idem Como Os Supra Quando Forem Reimpressos Em Edições De Bolso, Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Tos Empreste, Livros Que Todos Leram Portanto É Como Se Os Tivesses Lido Também Tu. Escapando a estes assaltos, diriges-te para debaixo das torres do reduto, onde resistem
    os Livros Que Há Tanto Tempo Programas Ler,
    os Livros Que Há Tantos Anos Procuravas Sem Os Encontrares,
    os Livros Que Tratam De Algo De Que Te Ocupas Neste Momento,
    os Livros Que Queres Possuir Para Os Teres À Mão Em Todas As Circunstâncias,
    os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Talvez Este Verão,
    os Livros Que Te Faltam Para Pores Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,
    os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificável.
Vê que te foi possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto que embora muito grande se pode estimar num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atraiçoado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Seria Hora De Os Releres e dos Livros Que Fazes Sempre De Conta Que Leste E Que Seria Hora De Te Decidires A Lê-los De Facto.

Libertas-te com rápidos ziguezagues e penetras com um pulo na cidadela das Novidades Cujo Autor Ou Assunto Te Atrai. Mesmo no interior desta fortaleza podes abrir brechas entre as fileiras dos defensores dividindo-as em Novidades D'Autores Ou Assuntos Não Novos (para ti ou em absoluto) e Novidades D'Autores Ou Assuntos Completamente Desconhecidos (pelo menos por ti) e definir a acção que eles exercem sobre ti com base nos teus desejos e carências de novo e de não novo (do novo que procuras no não novo e do não novo que procuras no novo).

Tudo isto para dizer que, percorridos rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, dirigiste os teus passos para uma pilha de Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de tinta ainda fresca, pegaste num exemplar e levaste-o à caixa a fim de que fosse constituído sobre ele o teu direito de propriedade.»

(in "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante", Italo Calvino, Círculo de Leitores, 1995)

sexta-feira, julho 15, 2005

Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

(Fernando Pessoa)