quarta-feira, junho 22, 2005

Sentir a noite

Noite tépida, sem brisa, com lua cheia e halo, a menos de vinte e quatro horas do solstício. Um perfume forte de todas as árvores e arbustos, as tílias em floração afirmativa. "Se a luz é tanta, como se pode morrer?"

sábado, junho 18, 2005



(encontrado algures na rede)


Eros

Nunca o Verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

(Eugénio de Andrade, "Mar de Setembro")

(Joseph Mallord William Turner)

sexta-feira, junho 17, 2005

Aumento da idade de reforma

1. Primeiro, venderam-se os anéis. Agora, atacam-se os dedos. Se o défice continuar descontrolado, aumentará a idade de reforma sucessivamente até aos 70, 80, 90, 100? Seremos condenados a trabalho perpétuo?

2. O aumento da idade de reforma é um bom método para aumentar a produtividade?

3. O aumento da idade de reforma é um bom método para diminuir o desemprego dos jovens? E o desemprego de longa duração? E o valor global dos subsídios de desemprego?

4. Talvez faça falta um partido que defenda especificamente os interesses dos mais velhos que já trabalharam bastante. O bastante.

(Vincent van Gogh)

O pobre e o rico

«O pobre é tão homem como o rico. Como ele sente, como ele tem aspirações, como ele sonha a felicidade, assim como é igual com ele em todos os males e em todas as fraquezas do organismo e do espírito. Pensais vós porventura que a pobreza mata no homem o instinto da grandeza, da felicidade e da importância social? Enganais-vos, se pensais assim. O pobre possui-o muito mais sensível do que vós, muito mais exigente, muito mais torturante, porque o tem acrilosado na miséria, e aquilatado na equiparação que faz entre ela e as felicidades que a riqueza vos prodigaliza. Pensais porventura que, vendo-vos enroupado num dia gelado de Inverno, ocioso nos cafés, divertido nos bailes e nos teatros, e espreguiçado comodamente nos cochins de um caleche forrado de cetins e de veludos, - o indigente que vai passando, a tiritar de frio, extenuado pelo trabalho, reduzido à única distracção da taberna, e obrigado a caminhar a pé léguas e léguas, para ganhar um bocado de pão, não sente medonhamente a diferença que há entre vós e ele, não sofre muito mais ainda do que vós mesmo gozais, porque a consciência da sua miséria irrita nele a imaginação dos vossos gozos?»

Arnaldo Gama (1828-1869), in "O Génio do Mal"

terça-feira, junho 14, 2005

segunda-feira, junho 13, 2005

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Quase epitáfio

O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

(Eugénio de Andrade, "Epitáfios")

*

XXXV

Em cada fruto a morte amadurece,
Deixando inteira, por legado,
uma semente virgem
que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.

(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")

*

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")

*

Frente a frente

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")

*

Matinal

Que seja fogo e suba ao cume
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.

(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")