quarta-feira, junho 22, 2005
Sentir a noite
Noite tépida, sem brisa, com lua cheia e halo, a menos de vinte e quatro horas do solstício. Um perfume forte de todas as árvores e arbustos, as tílias em floração afirmativa. "Se a luz é tanta, como se pode morrer?"
terça-feira, junho 21, 2005
sábado, junho 18, 2005
sexta-feira, junho 17, 2005
Aumento da idade de reforma
1. Primeiro, venderam-se os anéis. Agora, atacam-se os dedos. Se o défice continuar descontrolado, aumentará a idade de reforma sucessivamente até aos 70, 80, 90, 100? Seremos condenados a trabalho perpétuo?
2. O aumento da idade de reforma é um bom método para aumentar a produtividade?
3. O aumento da idade de reforma é um bom método para diminuir o desemprego dos jovens? E o desemprego de longa duração? E o valor global dos subsídios de desemprego?
4. Talvez faça falta um partido que defenda especificamente os interesses dos mais velhos que já trabalharam bastante. O bastante.
2. O aumento da idade de reforma é um bom método para aumentar a produtividade?
3. O aumento da idade de reforma é um bom método para diminuir o desemprego dos jovens? E o desemprego de longa duração? E o valor global dos subsídios de desemprego?
4. Talvez faça falta um partido que defenda especificamente os interesses dos mais velhos que já trabalharam bastante. O bastante.
O pobre e o rico
«O pobre é tão homem como o rico. Como ele sente, como ele tem aspirações, como ele sonha a felicidade, assim como é igual com ele em todos os males e em todas as fraquezas do organismo e do espírito. Pensais vós porventura que a pobreza mata no homem o instinto da grandeza, da felicidade e da importância social? Enganais-vos, se pensais assim. O pobre possui-o muito mais sensível do que vós, muito mais exigente, muito mais torturante, porque o tem acrilosado na miséria, e aquilatado na equiparação que faz entre ela e as felicidades que a riqueza vos prodigaliza. Pensais porventura que, vendo-vos enroupado num dia gelado de Inverno, ocioso nos cafés, divertido nos bailes e nos teatros, e espreguiçado comodamente nos cochins de um caleche forrado de cetins e de veludos, - o indigente que vai passando, a tiritar de frio, extenuado pelo trabalho, reduzido à única distracção da taberna, e obrigado a caminhar a pé léguas e léguas, para ganhar um bocado de pão, não sente medonhamente a diferença que há entre vós e ele, não sofre muito mais ainda do que vós mesmo gozais, porque a consciência da sua miséria irrita nele a imaginação dos vossos gozos?»
Arnaldo Gama (1828-1869), in "O Génio do Mal"
Arnaldo Gama (1828-1869), in "O Génio do Mal"
quarta-feira, junho 15, 2005
Vaguíssimo retrato
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
(Eugénio de Andrade, "Obscuro Domínio")
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
(Eugénio de Andrade, "Obscuro Domínio")
terça-feira, junho 14, 2005
Sem ti
E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.
(Eugénio de Andrade, "Coração do dia")
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.
(Eugénio de Andrade, "Coração do dia")
segunda-feira, junho 13, 2005
Eugénio de Andrade (1923-2005)
Quase epitáfio
O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.
(Eugénio de Andrade, "Epitáfios")
*
XXXV
Em cada fruto a morte amadurece,
Deixando inteira, por legado,
uma semente virgem
que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.
(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")
*
XXIII. A uma cerejeira em flor
Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.
(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")
*
Frente a frente
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")
*
Matinal
Que seja fogo e suba ao cume
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.
(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")
O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.
(Eugénio de Andrade, "Epitáfios")
*
XXXV
Em cada fruto a morte amadurece,
Deixando inteira, por legado,
uma semente virgem
que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.
(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")
*
XXIII. A uma cerejeira em flor
Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.
(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")
*
Frente a frente
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")
*
Matinal
Que seja fogo e suba ao cume
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.
(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")
domingo, junho 12, 2005
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