terça-feira, maio 31, 2005


(Vincent van Gogh)

Subterrâneo

Às vezes perguntava-se se viveria num mundo subterrâneo como o encontrado no futuro pela personagem de H. G. Wells em "A Máquina do Tempo". Parecia-lhe haver um sol de que conhecia a existência mas que, lamentavelmente, não podia desfrutar. Então, lembrava-se do globo terrestre da Mafaldinha, de Quino, e de como havia gente (pelo menos, uma menina rabina...) que vivia, aparentemente, "de pernas para o ar". Talvez houvesse, portanto, algum valor comparável ao do mundo solar e fácil e simples do outro lado, aí, desse lado mais escuro do mundo.

segunda-feira, maio 30, 2005

La Marseillaise

1er COUPLET
Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Contre nous de la tyrannie,
L'étendard sanglant est levé, (bis)
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats?
Ils viennent jusque dans vos bras
Egorger vos fils et vos compagnes!

REFRAIN
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchons, marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons!

2er COUPLET
Que veut cette horde d'esclaves,
De traîtres, de rois conjurés?
Pour qui ces ignobles entraves,
Ces fers dès longtemps préparés? (bis)
Français, pour nous, ah! quel outrage
Quels transports il doit exciter!
C'est nous qu'on ose méditer
De rendre à l'antique esclavage!

REFRAIN

3er COUPLET
Quoi! des cohortes étrangères
Feraient la loi dans nos foyers!
Quoi! ces phalanges mercenaires
Terrasseraient nos fiers guerriers! (bis)
Grand Dieu! par des mains enchaînées
Nos fronts sous le joug se ploieraient
De vils despotes deviendraient
Les maîtres de nos destinées!

REFRAIN

4er COUPLET
Tremblez, tyrans et vous perfides
L'opprobre de tous les partis,
Tremblez! vos projets parricides
Vont enfin recevoir leurs prix! (bis)
Tout est soldat pour vous combattre,
S'ils tombent, nos jeunes héros,
La terre en produit de nouveaux,
Contre vous tout prêts à se battre!

REFRAIN

5er COUPLET
Français, en guerriers magnanimes,
Portez ou retenez vos coups!
Epargnez ces tristes victimes,
A regret s'armant contre nous. (bis)
Mais ces despotes sanguinaires,
Mais ces complices de Bouillé,
Tous ces tigres qui, sans pitié,
Déchirent le sein de leur mère!

REFRAIN

6er COUPLET
Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs.
Liberté, Liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs! (bis)
Sous nos drapeaux que la victoire
Accoure à tes mâles accents,
Que tes ennemis expirants
Voient ton triomphe et notre gloire!

REFRAIN

7er COUPLET
Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n'y seront plus,
Nous y trouverons leur poussière
Et la trace de leurs vertus. (bis)
Bien moins jaloux de leur survivre
Que de partager leur cercueil,
Nous aurons le sublime orgueil
De les venger ou de les suivre.

(Claude Joseph Rouget de Lisle, 1792 )

domingo, maio 29, 2005

Choosing to Think of It

Today, ten thousand people will die
and their small replacements will bring joy
and this will make sense to someone
removed from any sense of loss.
I, too, will die a little and carry on,
doing some paperwork, driving myself
home. The sky is simply overcast,
nothing is any less than it was
yesterday or the day before. In short,
there's no reason or every reason
why I'm choosing to think of this now.
The short-lived holiness
true lovers know, making them unaccountable
except to spirit and themselves--suddenly
I want to be that insufferable and selfish,
that sharpened and tuned.
I'm going to think of what it means
to be an animal crossing a highway,
to be a human without a useful prayer
setting off on one of those journeys
we humans take. I don't expect anything
to change. I just want to be filled up
a little more with what exists,
tipped toward the laughter which understands
I'm nothing and all there is.
By evening, the promised storm
will arrive. A few in small boats
will be taken by surprise.
There will be survivors, and even they will die.


(Stephen Dunn)

sexta-feira, maio 27, 2005

Melro


(World Wild Web - Aves)

Pedido de ajuda

Há por aí alguém que tenha gravações de cantos de aves portuguesas em formato digital, ou conheça algum sítio da rede onde as possa encontrar, ou saiba de algum CD com gravações do género? Agradecem-se quaisquer informações.

Versões

Nos poemas como nos quadros, encontram-se várias versões de reproduções a partir de um original. Como decidir quais as cores correctas, se mesmo o original é diferente a uma luz diferente? Como saber qual a versão que um autor preferiria se escrevesse hoje?

Falta de qualidade de vida

É, por exemplo, não ter tempo para ler. Ler aquilo de que se gosta, bem entendido.

À reguada*

A memória de um professor da escola primário mais severo pode atravessar gerações numa família... Pergunto-me muitas vezes o que pensaria essa personagem que trago comigo ao ver a proliferação da palavra inexistente na língua portuguesa "á"...

* Nota: Claro que esta pastora não defende as reguadas! (E acha que deve haver explicações psicanalítica para a sua defesa...)

terça-feira, maio 24, 2005

Registo

Sentou-se ao meu lado uma cega. Depois, uma aleijada. Mais tarde, vi um condutor de uma mota estirado no asfalto de uma via rápida.

Canção

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.

(Eugénio de Andrade)

(Jean-François Millet)

segunda-feira, maio 23, 2005

Ave-Marias

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E alguns, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

(Cesário Verde)