domingo, abril 03, 2005

Amarilis


Língua portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

(Olavo Bilac)

Brasil e Portugal

Dois irmãos. Um enorme e exuberante, o outro tímido e antigo. Em comum, uma língua suave e cristalina. Vivem de costas voltadas, mesmo na "era da comunicação". Porquê?

Limbo

Onde é o limbo para onde vão os afectos não partilhados e os sonhos não concretizados?

sábado, abril 02, 2005

Mulher a ler


(Lost and Found - Old Photos)

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


(Florbela Espanca)

Tangência

Um computador público. Um browser aberto com o dashboard do Blogger. Ainda sem querer, leio o título do blog. Não conheço. Esforço-me para o memorizar, para ler mais tarde. Olho para o blogger. Nunca o conhecerei.
Ou, quem sabe, talvez um pouco...?

terça-feira, março 29, 2005

Carriça e chapim


Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois o dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Vinicius de Moraes e Chico Buarque)

segunda-feira, março 28, 2005

Lição de leitura


(Jean-François Millet)

Discursos célebres

Tenho uma sugestão de leitura sobre um tema caro a esta pastora: discursos célebres. Aqui. Por exemplo, está lá o discurso de Antero de Quental sobre as "Causas da decadência dos povos peninsulares".

Como seria diferente o discurso político, se não fosse pensado para os dois minutos dos telejornais, e se tivesse ideias e argumentos, sonhos a realizar e formas de os atingir...

Controlo esquizofrénico e mal explicado

Num dia, a constituição diz que não é permitido atribuir a cada cidadão um número único. No dia seguinte, vai haver o número único. No outro a seguir, já vai haver uma base de dados genéticos de toda a população portuguesa.

Entretanto, a pergunta sobre se estas decisões foram pensadas. Se se ponderou a razão de ser das restrições anteriores. Se foi feito o balanço dos prós e dos contras.

Num dia, o terrorismo desculpa tudo. No outro, já é a evasão fiscal. A seguir, o problema a resolver são as identificações em casos de catástrofes naturais e, eventualmente, a identificação de criminosos.

Mas como são as coisas em outros países com tradição na defesa dos direitos individuais? E como é que no nosso país se tem aplicado os meios que já estão disponíveis? Tem sido na sua máxima extensão? E quais serão as consequências dos abusos desses novos meios propostos? São os especialistas que não pensam, ou os jornalistas que não sabem perguntar e investigar?

Saudades de sombras de árvores frondosas

Será impressão minha, ou há uma moda na arquitectura actual de linhas muito puras, paredes brancas, pátios espaçosos, mas muito parca em árvores, sombras e espaços para as pessoas se sentarem? Alguém avise esses arquitectos de que a beleza não é incompatível com o bem-estar!