terça-feira, março 29, 2005

Carriça e chapim


Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois o dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Vinicius de Moraes e Chico Buarque)

segunda-feira, março 28, 2005

Lição de leitura


(Jean-François Millet)

Discursos célebres

Tenho uma sugestão de leitura sobre um tema caro a esta pastora: discursos célebres. Aqui. Por exemplo, está lá o discurso de Antero de Quental sobre as "Causas da decadência dos povos peninsulares".

Como seria diferente o discurso político, se não fosse pensado para os dois minutos dos telejornais, e se tivesse ideias e argumentos, sonhos a realizar e formas de os atingir...

Controlo esquizofrénico e mal explicado

Num dia, a constituição diz que não é permitido atribuir a cada cidadão um número único. No dia seguinte, vai haver o número único. No outro a seguir, já vai haver uma base de dados genéticos de toda a população portuguesa.

Entretanto, a pergunta sobre se estas decisões foram pensadas. Se se ponderou a razão de ser das restrições anteriores. Se foi feito o balanço dos prós e dos contras.

Num dia, o terrorismo desculpa tudo. No outro, já é a evasão fiscal. A seguir, o problema a resolver são as identificações em casos de catástrofes naturais e, eventualmente, a identificação de criminosos.

Mas como são as coisas em outros países com tradição na defesa dos direitos individuais? E como é que no nosso país se tem aplicado os meios que já estão disponíveis? Tem sido na sua máxima extensão? E quais serão as consequências dos abusos desses novos meios propostos? São os especialistas que não pensam, ou os jornalistas que não sabem perguntar e investigar?

Saudades de sombras de árvores frondosas

Será impressão minha, ou há uma moda na arquitectura actual de linhas muito puras, paredes brancas, pátios espaçosos, mas muito parca em árvores, sombras e espaços para as pessoas se sentarem? Alguém avise esses arquitectos de que a beleza não é incompatível com o bem-estar!

domingo, março 27, 2005

Meu Deus

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

(Clarice Lispector)

Mulher a coser ao lado do seu filho adormecido


(Jean-François Millet)

Agradecimento

Ao blog Sob a Estrela do Norte pelo destaque dado ao AdP: obrigada!

sábado, março 26, 2005

Os Imortais (III)

"Entre os corolários da doutrina de que não existe coisa que não esteja compensada por outra, há um de muito pouca importância teórica, mas que nos induziu, em fins ou no princípio do século X, a dispersar-nos pela face da terra. Cabe nestas palavras: Existe um rio cujas águas dão imortalidade; nalguma região haverá outro rio cujas águas a apaguem. O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos. Propusemo-nos descobrir esse rio. A morte (ou a sua alusão) torna os homens preciosos e patéticos. Estes comovem pela sua condição de fantasmas; cada acto que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por apagar-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o calor do irrecuperável e do fortuito. Entre os Imortais, ao contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até à vertigem. Não há coisa que esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais. Homero e eu separámo-nos às portas de Tânger; creio que não nos dissemos adeus."

(do conto "O Imortal", parte IV, in "O Aleph", Jorge Luis Borges, Editorial Estampa)

Mulheres a coser à luz de uma candeia


(Jean-François Millet)

Os Imortais (II)

"Ser imortal é insignificante; com excepção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se mortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos crêem na imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam a todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo. Mais razoável me parece a roda de certas religiões do Indostão; nessa roda, que não tem princípio nem fim, cada vida é efeito da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada num exercício de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito todas as coisas ocorrem a todos os homens. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo o homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição, pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar os números pares e os números ímpares tendem ao equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e é possível que o rústico poema do Cid seja o contrapeso exigido por um só epíteto das Éclogas ou por uma sentença de Heraclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desejo invisível e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos séculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos já passados... Encarados assim, todos os nossos actos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. Homero escreveu a Odisseia; dado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias ou mudanças, o impossível seria não escrever, sequer uma vez, a Odisseia. Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou.

"O conceito do mundo como sistema de precisas compensações influi enormemente nos Imortais. Em primeiro lugar, tornou-os invulneráveis à piedade. Mencionei já as velhas pedreiras que sulcavam os campos da outra margem; um homem despenhou-se na mais funda; não podia lastimar-se nem morrer, mas a sede abrasava-o; antes que lhe atirassem uma corda, passaram setenta anos. Nem sequer interessava o próprio destino. O corpo era um submisso animal doméstico e bastava-lhe, cada mês, a esmola de umas horas de sono, de um pouco de água e de uma migalha de carne. Que ninguém nos queira rebaixar a ascetas. Não há prazer mais complexo que o pensamento e a ele nos entregávamos. Às vezes, um estímulo extraordinário restituía-nos ao mundo físico. Por exemplo, naquela manhã, o velho gozo elementar da chuva. Esses momentos eram raríssimos; todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que nunca vi de pé: um pássaro fizera ninho no seu peito."

(do conto "O Imortal", parte IV, in "O Aleph", Jorge Luis Borges, Editorial Estampa)

Registo

Será preciso registar? Será que me vou esquecer? Ontem, na transmissão da cerimónia da Via Sacra, mostraram um papa de costas, sentado de forma estranha, virado para uma televisão que transmitia imagens do Coliseu de Roma. Terei visto mal?