domingo, março 13, 2005

A ilha

Chegava-se à ilha, pousava-se os pés no cais e caminhava-se para dentro da pequena floresta até encontrar o lugar para pernoitar. Depois, durante dias e dias, ia-se à praia, de uma areia branca e fina. Entre as ondas de areia, quase junto ao mar, corpos nus rendiam-se ao sol. Uma costa longa, tão longa que parecia não ter fim. A ilha parecia o mundo inteiro.

Blogs com banda sonora

Já não se pode pôr música a tocar no computador e ler blogs ao mesmo tempo. Os blogs com banda sonora não original multiplicam-se. Tem graça, porque quando aprendi a pôr música em páginas web, também fui alertada para não dar música sem expresso consentimento do interlocutor. Para não "dar barraca" nos empregos, dizia-se... O meu argumento é outro: para não interromper Beethoven, SFF.

sábado, março 12, 2005

Trabalho

O que é o "direito ao trabalho"? Uma ficção? O trabalho "dignifica"? Ou será que o homem não nasceu para trabalhar, como dizia o Prof. Agostinho da Silva?

Mulher a ler


Conde Yanno

Chorava a infanta, chorava,
Chorava e razão havia,
Vivendo tão descontente;
Seu pai por casar a tinha.
Acordou el-rei da cama
Com o pranto que fazia:
- «Que tens tu, querida Infanta,
Que tens tu, ó filha minha?»
- «Senhor pai, o que hei-de eu ter
Senão que me pesa a vida?
De três irmãs que nós éramos,
Solteira eu só ficaria.»
- «Que queres tu que eu te faça?
Mas a culpa não é minha.
Cá vieram embaixadas
De Guitaina e Normandia;
Nem ouvi-las não quiseste,
Nem fazer-lhes cortesia...
Na minha corte não vejo
Marido que te daria...
Só se fosse o conde Yanno,
E esse já mulher havia.»
- «Ai! rico pai da minha alma,
Pois esse é que eu queria.
Se ele tem mulher e filhos,
A mim muito mais devia.
Que me não soube guardar
A fé que me prometia.»

Manda el-rei chamar o conde,
Sem saber o que faria:
Que lhe viesse falar...
Sem saber que lhe diria.
- «Inda agora vim do paço,
Já el-rei lá me queria!
Ai! será para meu bem?
Ai! para meu mal seria?»

Conde Yanno que chegava,
El-rei que a buscar o vinha:
- «Beijo a mão a Vossa Alteza;
Que quer Vossa Senhoria?»
Responde-lhe agora o rei
Com grande merencoria:
- «Beijai, que mercê vos faço;
Casareis com minha filha.»
Cuidou de cair por morto
O conde que tal ouvia:
- «Senhor rei, que sou casado
Já passa mais de ano e dia!»
- «Matareis vossa mulher,
Casareis com minha filha.»
- «Senhor, como hei-de matá-la
Se a morte me não mer'cia?»
- «Calai-vos, conde, calai-vos,
Não vos quero demasia;
Filhas de reis não se enganam
Como uma mulher cativa.»
- «Senhor, que é muita razão,
Mais razão que ser devia,
Para me matar a mim
Que tanto vos ofendia;
Mas matar uma inocente
Com tamanha aleivosia!
Nesta vida nem na outra
Deus mo não perdoaria.»
- «A condessa há-de morrer
Pelo mal que cá fazia.
Quero ver sua cabeça
Nesta doirada bacia.»

Foi-se embora o conde Yanno,
Muito triste que ele ia.
Adiante um pajem de el-rei
Levava a negra bacia.
O pajem ia de luto,
De luto o conde vestia:
Mais dó levava no peito
Cos apertos da agonia.
A condessa, que o esperava,
De muito longe que o via,
Com o filhinho nos braços
Para abraçá-lo corria.
- «Bem-vindo sejais, meu conde,
Bem-vinda minha alegria!»
Ele sem dizer palavra
Pelas escadas subia.
Mandou fechar seu palácio,
Coisa que nunca fazia;
Mandou logo pôr a ceia
Como quem lhe apetecia.

Sentaram-se ambos à mesa,
Nem um nem outro comia;
As lágrimas eram um rio
Que pela mesa corria.
Foi a beijar o filhinho
Que a mãe aos peitos trazia,
Largou o seio o inocente,
Como um anjo lhe sorria.
Quando tal viu a condessa,
O coração lhe partia;
Desata em tamanho choro
Que em toda a casa se ouvia;
- «Que tens tu, querido conde,
Que tens tu, ó vida minha?
Tira-me já destas ânsias,
El-rei o que te queria?»
Ele afogava em soluços,
Responder-lhe não podia;
Ela, apertando-o nos braços,
Com muito amor lhe dizia:
- «Abre-me o teu coração,
Desafoga essa agonia,
Dá-me da tua tristeza,
Dar-te-ei da minha alegria.»
Levantou-se o conde Yanno,
A condessa que o seguia.
Deitaram-se ambos no leito;
Nem um nem outro dormia.
Ouvireis a desgraçada,
Ouvide ora o que dizia:
- «Peço-te por Deus do Céu
E pela Virgem Maria,
Antes me mates, meu conde,
Que eu ver-te nessa agonia.»
- «Morto seja quem tal manda,
Mais a sua tirania!»
- «Ai! não te entendo, meu conde,
Dize-me, por tua vida,
Que negra ventura é esta,
Que entre nós está metida?»
- «Ventura da sem-ventura,
Grande foi a tua mofina!
Manda-me el-rei que te mate,
Que case com sua filha.»
Palavras não eram ditas,
Inda mal lhas ouviria,
A desgraçada condessa
Por morta no chão caía.
Não quis Deus que ali morresse...
Triste que ali não morria!
Maior dor do que a da morte
A torna a chamar à vida.
- «Cala, cala, conde Yanno,
Que inda remédio haveria;
Ai! não me mates, meu conde,
E um alvitre te daria:
A meu pai me mandarás,
Pai que tanto me queria!
Ter-me-ão por filha donzela
E eu a fé te guardaria.
Criarei este inocente
Que a outra não criaria;
Manter-te-ei castidade
Como sempre ta mantia.»
- «Ai como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se el-rei quer tua cabeça
Nesta doirada bacia?»
- «Cala, cala, conde Yanno,
Que inda remédio teria,
Meter-me-ás num convento
Da ordem da freiraria;
Dar-me-ão o pão por onça
E a água por medida:
Eu lá morrerei de pena,
E a infanta o não saberia.»
- «Ai! como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se quer ver tua cabeça
Nesta maldita bacia?»
- «Fecharas-me numa torre,
Nem Sol, nem Lua veria,
As horas da minha vida
Por meus ais as contaria.»
- «Ai! como pode isso ser,
Condessa minha querida,
Se el-rei quer tua cabeça
Nesta doirada bacia?»
Palavras não eram ditas,
El-rei que à porta batia:
Se a condessa não é morta,
Que então ele a mataria.
- «A condessa não é morta
Mas está na agonia.»
- «Deixa-me dizer, meu conde,
Uma oração que eu sabia.»
- «Dizei depressa, condessa,
Antes que amanheça o dia.»
- «Ai! quem poderá rezar,
Ó virgem Santa Maria!
Que eu não me pesa da morte,
Pesa-me da aleivosia:
Mais me pesa de ti, conde,
E da tua cobardia.
Matas-me por tuas mãos.
Só porque el-rei o queria!
Ai! Deus te perdoe, conde,
Lá na hora da contia.
Deixar-me dizer adeus
A tudo o que eu mais queria;
Às flores deste jardim,
Às águas da fonte fria.
Adeus cravos, adeus rosas,
Adeus flor da Alexandria!
Guardai-me vós meus amores
Que outrem me não guardaria.
Dêem-me cá esse menino,
Entranhas da minha vida;
Deste sangue de meu peito
Mamará por despedida.
Mama, meu filhinho, mama
Desse leite da agonia;
Que até'gora tinhas mãe,
Mãe que tanto te queria,
Amanhã terás madrasta
De mais alta senhoria...»
Tocam nos sinos na Sé...
Ai Jesus! quem morreria?
Responde o filhinho ao peito,
Respondeu - que maravilha!
- «Morreu, foi a nossa Infanta
Pelos males que fazia;
Descasar os bem casados:
Coisa que Deus não queria.»


(in "Romanceiro", Almeida Garrett, Círculo de Leitores, 1997)

quinta-feira, março 10, 2005

Souvenir


(Jean-Honoré Fragonard)

A escrita

Para quê o esforço de aperfeiçoar as técnicas difíceis da escrita? Houve tempos em que a escrita produzia obras primas e mudava o curso da História. Hoje, quase tudo é pastiche de ideias já pensadas e já escritas, e perde-se na imensidade da produção literária.

E, no entanto, há coisas intemporais. Como, por exemplo, a rebeldia dos adolescentes. Que pode ser expressa em palavras escritas. Como a necessidade de dar sentido ao mundo em que vivemos. Que pode usar as regras formais da escrita para se apoiar. Como a necessidade de comunicar, tão própria destes seres sociais que são os seres humanos. Que pode escrever-se de uma forma sempre pessoal...

Bela Infanta

Estava a bela Infanta
No seu jardim assentada
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.
- «Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.»
- «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Diz-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava.»
- «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.
- «Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava.»
Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...»
- Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.»
- «Nâo quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei para si.»
- «Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?»
- «As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.»
- «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «De três filhas que tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.»
- «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui.»
- «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.»
- «Tudo, não, senhora minha,
Que inda não te deste a ti.»
- «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!»
- «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!»
- «Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.»


(in "Romanceiro", Almeida Garrett, Círculo de Leitores, 1997)

quarta-feira, março 09, 2005

Rabirruivo-de-testa-branca


(Frances Le Marchant)

Since I emerged that day from the labyrinth

Since I emerged that day from the labyrinth,
Dazed with the tall and echoing passages,
The swift recoils, so many I almost feared
I’d meet myself returning at some smooth corner,
Myself or my ghost, for all there was unreal
After the straw ceased rustling and the bull
Lay dead upon the straw and I remained…

I could not live if this were not illusion.
It is a world, perhaps; but there’s another.
For once in a dream or trance I saw the gods
Each sitting on the top of his mountain-isle,
While down below the little ships sailed by…

That was the real world; I have touched it once,
And now shall know it always. But the lie,
The maze, the wild-wood waste of falsehood, roads
That run and run and never reach an end,
Embowered in error – I’d be prisoned there
But that my soul has birdwings to fly free.

Oh these deceits are strong almost as life.
Last night I dreamt I was in the labyrinth,
And woke far on. I did not know the place.


(Edwin Muir)

A esmagadora realidade dos aflitos

"Já não há esperança. Não sei para que me levanto de manhã. Não sei para que me esforço até ao limite das minhas forças, se não há terra nem céu que paguem este esforço. Não é por auto-realização. Os sonhos de sempre ficaram irremediavelmente vedados. Viveremos nos ramos das árvores, de migalhas e sementes, como os pássaros. De sementes..."

terça-feira, março 08, 2005

Rosa meditativa


(Salvador Dali)

Dia da mulher

Vivemos num tempo de uma grande explosão tecnológica e de enormes avanços na compreensão do funcionamento dos genes, dos cérebros e das hormonas femininas e masculinas. Ou seja, existe hoje uma base inédita para a compreensão e comunicação entre sexos. Por isso, espanta-me que ainda haja homens e mulheres que escolham deliberadamente a "guetização" dos sexos, em vez da comunicação. Homens que não abdicam do clube dos machos latinos e mulheres que não prescindem do comércio "cor-de-rosa" estupidificante. Ainda há revoluções de mentalidades por fazer.