segunda-feira, fevereiro 28, 2005


(Auguste Rodin)

(will you teach a... (12)

(will you teach a
wretch to live
straighter than a needle)

ask
     her
         ask
             when
                 (ask and
                 ask
                 and ask
again and)ask a
brittle little
person fiddling
in
the
rain

(did you kiss
a girl with nipples
like pink thimbles)

ask
     him
         ask
             who
                (ask and
                ask
                and ask
ago and)ask a
simple
crazy
thing
singing
in the snow

(e. e. cummings)

Peter Benenson



Morreu na sexta-feira passada Peter Benenson, o criador de uma das melhores ideias do século XX. Infelizmente, ainda actual. Ainda não é possível brindar à liberdade em muitos lugares do mundo. Ainda há corredores da morte, desaparecimentos, julgamentos extra-judiciais, tortura, tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Ainda há muito a fazer.

domingo, fevereiro 27, 2005

Angelus


(Jean-François Millet)

*

Angelus: orações ditas de manhã (6h00), a meio do dia (12h00) e ao fim da tarde (18h00) na Igreja Católica Romana, durante todo o ano excepto no Tempo Pascal, em que se recita a Regina Caeli em sua substituição. É por vezes acompanhado com o tocar do sino.


"Angelus" ou "O Anjo do Senhor" ou "Ave Marias" ou "Trindades"

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria:
R. E Ela concebeu do Espirito Santo. Ave Maria...

V. Eis a escrava do Senhor:
R. Faça-se em mim segundo a vossa palavra. Ave Maria...

V. E o Verbo Divino se fez homem:
R. E Habitou entre nós. Ave Maria...

V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Ave Maria...

Oremos. Infundi, Senhor, nós Vos pedimos, a Vossa graça nas nossas almas, para que nós, que pela anunciação do anjo, conhecemos a Encarnação de Vosso Filho, assim pela Sua Paixão e morte na Cruz, e com a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, alcancemos a glória da ressurreição. Pelo mesmo Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amen.

Glória ao Pai... (três vezes)



"Regina caeli" ou "Rainha do céu"
(no Tempo Pascal, do domingo de Páscoa até o domingo de Pentecostes)

V. Rainha do Céu, alegrai-Vos, Aleluia!
R. Porque Aquele que merecestes trazer em Vosso ventre, Aleluia!

V. Ressuscitou como disse, Aleluia!
R. Rogai por nós a Deus, Aleluia!

V. Alegrai-Vos e exultai, ó Virgem Maria, Aleluia!
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!

Oremos. Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, concedei-nos, Vos suplicamos, a graça de alcançarmos pela protecção da Virgem Maria, Sua Mãe, a glória da vida eterna. Pelo mesmo Cristo Nosso Senhor. Amen.


*

"Até alguns anos atrás era normal entre nós, tocarem-se as “ave-marias”. Em alguns lugares, como na Sé de Angra, ainda se mantém esse costume. Trata-se de tocar os sinos três vezes por dia: ao amanhecer, ao meio-dia e ao anoitecer. Em certos lugares chamava-se “Trindades”. À noite havia uma “norma”: Trindades batidas, meninas recolhidas.

Os toques variavam de três a cinco badaladas. Nalguns lugares havia mais. Eram costumes significativos de ambiente de oração. Estivessem onde estivessem, as pessoas rezavam, ao menos três “ave-marias”. Daí o nome de “ave-marias”.

Oficialmente chama-se-lhe o “ANGELUS”. Este nome veio-lhe do primeiro de três versículos que se intercalam às ave-marias. São versículos muito profundos que lembram, honram e “anunciam” o mistério da Encarnação: o Filho de Deus fez-se Homem. Os dois primeiros são tirados do Evangelho de S. Lucas e o terceiro do de S. João.

- O anjo do Senhor anunciou a Maria; e ela concebeu pelo Espírito Santo (ave-maria).
- Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (ave-maria).
- E o verbo fez-se Carne. E habitou entre nós (ave-maria).

São expressões que vêm dos Evangelhos e que nos recordam o início dos mistérios da Salvação. Elas tornam o mistério de Cristo presente nas almas.

Hoje ainda se reza o “Angelus”. Os últimos Papas lançaram o costume de o rezar em conjunto com os peregrinos em Roma. Nas ordens religiosas ele reza-se três vezes ao dia. E há cristãos que o fazem também. Alguns rezam-no quando se levantam e quando se deitam.

Em algumas catequeses ensinam as crianças a rezá-lo."

(Caetano Tomás)

No silêncio

Onde estaria agora a sua adolescência? Onde estaria a alma que se afastara outrora do seu destino para examinar, sozinha, a vergonha das suas chagas e para, no seu asilo de sordidez e de subterfúgios, se revestir realmente com velhas colgaduras desbotadas, com grinaldas que murchavam ao menor contacto? Ou, onde estava ele?

Estava só. Estava esquecido de todos, feliz, rente ao coração selvagem da vida. Estava só e jovem, cheio de vontade, e selvagem, só num deserto de ar livre, de águas salgadas, entre a colheita marinha de conchas e de algas, entre a claridade opaca do sol velado, entre as silhuetas alegres e claras de crianças e de raparigas, entre as vozes infantis e virginais que enchiam o ar.

Uma rapariga apareceu diante dele, de pé no meio da corrente - sozinha e tranquila, contemplando o largo. Era como se magicamente tivesse sido transformada numa ave marinha, estranha e bela. As suas pernas nuas, longas e esguias, eram delicadas como as de uma grua, e imaculadas, excepto no lugar onde uma fita de alga cor de esmeralda se incrustara como se fosse um sinal sobre a carne. As suas coxas, mais cheias, de uma coloração suave como a do marfim, estavam cobertas quase até às ancas, onde as alvas franjas das calças eram como a penugem de uma plumagem alva e macia. A sua saia azul-ardósia, arrojadamente arregaçada até à cintura, caía atrás como cauda de pombo; o peito era semelhante ao de um pássaro, macio e leve, leve e macio como o pescoço de uma rola de plumagem escura; mas os seus longos cabelos loiros eram de menina, e virginal, tocada pelo deslumbramento de uma beleza mortal, era a sua face.

Estava sozinha e tranquila, contemplando o mar; e, quando lhe sentiu a presença e o olhar maravilhado, volveu até ele os olhos numa calma aceitação, sem pejo nem luxúria. Muito, muito tempo sustentou ela aquela contemplação e depois, calma, virou-os para a corrente, enrugando a água para cá e para lá, graciosamente, com a ponta do pé. O primeiro rumor leve da água assim agitada rompeu o silêncio, suave e leve, e sussurrante, leve como os sinos do sono; para cá e para lá, para lá e para cá; um leve rubor tremulava na face da rapariga.

- Deus do Céu! - exclamou a alma de Stephen numa explosão de alegria profana.

Afastou-se bruscamente e começou a correr através da praia. O seu rosto estava afogueado; o seu corpo era um braseiro, tremiam-lhe os membros. Caminhou, caminhou, a passos largos, para lá das dunas, cantando um hino selvagem ao mar, gritando para saudar o advento da vida cujo apelo acabara de o atingir.

A imagem da rapariga entrara na sua alma para sempre, e contudo palavra alguma quebrara o silêncio sagrado do seu arroubo. Os olhos dela tinham-no chamado e a sua alma saltara a tal apelo. Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida com a vida! Um anjo selvagem lhe aparecera, anjo da mocidade e da beleza mortal, mensageiro das cortes esplêndidas da vida, escancarando diante dele, num instante de êxtase, os portões de todos os caminhos do erro e da glória. Seguir, seguir, sempre para diante! Para diante!

Parou de repente e ouviu o coração bater no silêncio. Até onde se aventurara? Que horas seriam?

(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)

sábado, fevereiro 26, 2005

Maioria absoluta

Um governo com maioria absoluta tem oportunidades únicas e responsabilidade acrescida. Temos agora uma maioria inédita.

Interessa-me, para os tempos que se avizinham, saber o que pode fazer esta oposição e esta sociedade civil. Não me esqueço da frase de John F. Kennedy: "ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country".

O desterrado


(António Soares dos Reis)

E agora?

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

(Carlos Drummond de Andrade)

Agradecimento

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado à entrada "Voto electrónico?" do AdP: obrigada!

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Jovem pastora


(Jean-François Millet)

Nos 150 anos do nascimento de Cesário Verde

Manhãs brumosas

Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época de banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.

E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

(Cesário Verde)

Telescópios e tangências

Quão longe estamos quando estamos perto? Quão perto estamos quando estamos longe?