segunda-feira, janeiro 31, 2005

Curioso

É curioso que, para muita gente, seja mais natural a abstenção numa qualquer assembleia do que o voto em branco numas eleições nacionais.

Do ponto de vista desta pastora, a abstenção em eleições nacionais é o mesmo que a saída da sala numa assembleia para evitar votar: lastimável.

O azul dos olhos de Salgueiro Maia

Não sei se foi mister de quem coloriu fotogramas mas vi uma vez, na televisão, uma entrevista de Salgueiro Maia em que brilhavam olhos azuis-claros e uma lucidez rara. Se fosse especialmente sensível a olhos azuis ou a heróis, sê-lo-ia, em primeiro lugar, com Salgueiro Maia e com aqueles olhos.

É também a pensar nele e nos que se arriscaram naquela madrugada que transformou uma longa noite num imenso dia (e em todos os que tiveram que morrer e penar para que essa madrugada se tornasse imperiosa) que, quando me sentir indecisa sobre uma escolha eleitoral, não deixarei de, humildemente, "dar o corpo ao manifesto", e irei votar. Mesmo que vote em branco. Ainda acredito na democracia que me foi oferecida tão generosamente. Mesmo que continuemos a ser o tal povo que não se governa nem se deixa governar...

Borboleta branca


(Miriam A.Kilmer)

Antigamente, dizia-se que, quando aparecia a alguém uma borboleta branca, isso significava que essa pessoa ia receber uma carta com boas notícias.

No Inverno não se vêem borboletas, porque migraram para paragens mais quentes ou porque são lagartas ou crisálidas. Mas novas borboletas brancas hão-de vir, quando for o seu tempo.

On voit mourir toute chose animée

On voit mourir toute chose animée,
Lors que du corps l'âme subtile part.
Je suis le corps, toi la meilleure part:
Où es-tu donc, ô âme bien-aimée?

Ne me laissez par si long temps pâmée,
Pour me sauver après viendrais trop tard.
Las! ne mets point ton corps en ce hasard:
Rends-lui sa part et moitié estimée.

Mais fais, Ami, que ne soit dangereuse
Cette rencontre et revue amoureuse,
L'accompagnant, non de sévérité,

Non de rigueur, mais de grâce amiable,
Qui doucement me rende ta beauté,
Jadis cruelle, à présent favorable.


Louise Labé (1524-1566)

domingo, janeiro 30, 2005

Registo

Na televisão, dizia um iraquiano, no dia das primeiras eleições livres do seu país (cito de memória): "Era só isto que queríamos, poder mudar de governantes de quatro em quatro anos".

sábado, janeiro 29, 2005

Interessante



"Democracia", de Robert A. Dahl, editado pela "Memórias do Mundo". Para os dias de hoje.

Silêncio (II)

- Senhor, doía-me que estivesses sempre em silêncio...

- Não estava em silêncio. Sofria a teu lado.

- Mas tu mandaste embora Judas: «O que tens a fazer, fá-lo depressa!» O que foi feito de Judas, Senhor?

- Eu não lhe disse isso. Disse, sim, que fizesse quanto antes aquilo que ia fazer, do mesmo modo que te disse a ti: «Pisa!» Porque Judas tinha dorido o coração, como tu agora.

Foi nesse momento que ele assentou o pé no fumie, sujo de sangue e de pó. Os cinco dedos do pé tinham calcado o rosto do homem que ele amava. Ainda agora não conseguia compreender o terrível acesso de alegria que sentira naquele momento.

- Não há fortes nem fracos... Quem pode garantir que os fracos sofram menos que os fortes? - O padre falava agora apressadamente, voltado para a porta. - Se já não há padres neste país que te confessem, eu te ouvirei. Dirás depois o acto de contrição... e irás em paz...

Kichijiro chorava tentando sufocar os soluços. Até que, por fim, largou a porta. Sebastião Rodrigues tinha tido a ousadia de administrar a esse homem um sacramento que só um sacerdote no legítimo exercício do seu munus lhe podia dispensar. Os seus companheiros iriam atacá-lo violentamente; dir-lhe-iam que era um sacrilégio, mas, traindo-os a eles, sabia muito bem que não traíra o Senhor. Continuava a amá-lo, embora de uma maneira muito diferente. Tudo o que acontecera até esse momento fora necessário para chegar a esse amor.

«Sou agora o último sacerdote neste país. O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida, até hoje, falará dele para todo o sempre.»

(in "Silêncio", Shusaku Endo, Círculo de Leitores)

Silêncio (I)

- Eu vendi o padre. E também pisei o fumie. - A voz plangente de Kichijiro continuava a mortificar-lhe os ouvidos. - Sabe, padre, neste mundo há fortes e fracos. Os fortes não se rendem ao sofrimento e poderão ir para o céu, mas que será dos cobardes como eu, que apenas os torturam e lhes mandam pisar a imagem sagrada...

«Também eu pisei o fumie. Também o meu pé esteve por instantes sobre o rosto dessa imagem, o rosto com que sonhei centenas de vezes. O rosto com que nunca deixei de sonhar, errante pelos montes e, depois, metido na prisão. O rosto do homem que eu quis amar toda a vida. Esse rosto voltou-se para mim na placa do fumie. Era um rosto exausto, encovado, de olhos tristes. E esses olhos tristes disseram-me: «Pisa-me! Sim, pisa-me! Tens os pés doridos, não é? Como tantos outros que me pisaram até ao dia de hoje... A mim basta-me que os pés vos doam. Eu partilho da vossa dor, vivo o vosso sofrimento. Para isso é que estou aqui.»

(in "Silêncio", Shusaku Endo, Círculo de Leitores)


["Silêncio", de 1967, é a história, baseada em factos reais, da viajem do missionário jesuíta Sebastião Rodrigues ao Japão, no séc. XVII, numa altura em que este país tinha as suas fronteiras encerradas. Sebastião Rodrigues lutou contra a agonia do catolicismo no Japão, cujas autoridades perseguiam, torturavam e crucificavam os católicos, que a dado momento passaram a considerar indesejáveis. Os padres missionários reagiram passando à clandestinidade. Capturados, muitos foram forçados a apostatar, pisando a imagem de Cristo. Shusaku Endo (1923-1996) era católico.]

Oxigénio

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Claro futuro para o equilibrista em cima do muro

Tá combinado

Então tá combinado, é quase nada
É tudo somente sexo e amizade
Não tem nenhum engano nem mistério
É tudo só brincadeira e verdade

Podemos ver o mundo juntos
Sermos dois e sermos muitos
Nos sabermos sós sem estarmos sós
Abrirmos a cabeça para que afinal
Floresça o mais que humano em nós

Então tá tudo dito
E é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro

Mas e se o amor pra nós chegar
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?
Mas e se o amor já está
Se há muito tempo que chegou e só nos enganou?

Então não fale nada
Apague a estrada
Que seu caminhar já desenhou
Porque toda razão, toda palavra
Vale nada quando chega o amor


(Caetano Veloso)

quinta-feira, janeiro 27, 2005

60 anos depois da libertação do campo de concentração de Auschwitz

Exploração, violência, humilhação, assassinatos científicos em massa. Tanto ódio. Terrível ódio. Poderemos alguma vez compreender o que passou pela cabeça de tantos alemães?

(E poderemos alguma vez compreender os neo-nazis? E os deputados alemães que, ainda há dias, recusaram prestar homenagem às vítimas dos nazis?)

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Dúvida

Como podem os "resistentes" iraquianos designar como seu principal inimigo o processo democrático? Quererão perder os hearts and minds dos iraquianos restantes? Ou acreditarão mesmo que o terror é mais forte do que o amor à liberdade?

Mulher a ler


(Henri Matisse)