quarta-feira, janeiro 26, 2005
Do not go gentle into that good night
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
(Dylan Thomas)
terça-feira, janeiro 25, 2005
Solilóquio sobre campanhas eleitorais
(inspirado nos "Dilemas de voto" dos monólogos da Isabel)
1. Ouvi alguém dizer que as pessoas tendem a votar no partido tradicional dos progenitores.
2. Percebe-se que as pessoas que se dispõem a responder a sondagens não dão necessariamente uma boa amostra do universo dos eleitores.
3. Li que a divulgação de resultados de sondagens pode influenciar os indecisos.
4. Li que os partidos encomendam as suas próprias sondagens.
5. Parece-me que os candidatos adaptam a sua campanha aos resultados das sondagens a meio das campanhas eleitoral. O que até seria aceitável, se as campanhas não fossem orquestradas por especialistas em marketing.
6. Lembro-me de, noutras campanhas, ler que as sondagens encomendadas por cada partido costumavam apresentar bons resultados para o respectivo partido cliente.
7. Reparo que as margens de erro são conhecidas, mas as diferentes sondagens dão resultados discrepantes.
8. Sei que a estatística não é uma ciência exacta, e que os resultados podem ser manipulados.
9. Pergunto-me se os resultados eleitorais não dependem demasiado de centros de sondagens e de marketeers.
10. Não me interessa a vida privada dos candidatos. Mas gostaria de saber de que massa são feitos.
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar,
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.
(Alberto Caeiro)
Paolo e Francesca
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(Dante Gabriel Rossetti)
E ela a mim: «Nenhuma maior dor
do que a de recordar tempo feliz
já na miséria; e o sabe o teu doutor.
Mas tu, se em conhecer qual a raiz
primeira deste amor, pões tal afeito,
di-lo-ei como quem chora em quanto diz.
Um dia a ler com ele me deleito,
de Lançarote, o amor como o prendeu:
Éramos sós e nada a nós suspeito.
Várias vezes o olhar nos suspendeu
essa leitura e deu pálido aviso;
mas foi um ponto só que nos venceu.
Quando lemos do desejado riso
a ser beijado por tão grande amante,
e este, que de mim seja indiviso,
a boca me beijou todo anelante.
Galeoto foi o livro e quem o disse:
nesse dia não lemos adiante.»
Como um espírito isto referisse,
chorava o outro, e em mim tal pena vi
que foi qual se a morrer eu me sentisse;
e como um corpo morto assim caí.
(in "A Divina Comédia", Dante, tradução de Vasco Graça Moura, Círculo de Leitores)
O Universo não é uma ideia minha
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
(Alberto Caeiro)
segunda-feira, janeiro 24, 2005
A cavalo dado...
E quem me manda perder a paciência com tanta lentidão? (Será a limitação das linhas onde estou? Será o servidor do blogger?) E porque não guardo todas as alterações do template, para os casos em que o Blogger o faz desaparecer, como aconteceu? (Aos blogs que detectaram o seu desaparecimento na coluna da direita, agradeço que avisem!)
Fora estes detalhes, viva o Blogger e a sua interface simples (sistema de comentários à parte)! (E vivam os blogs, que ainda hão-de incubar prémios Nobel da literatura...) E o Hello, com a sua capacidade de diminuar por nós as imagens para tamanhos decentes! (Porque "uma imagem vale por mil palavras".)
Quem sabe os programadores do Blogger e do Hello não passam por aqui e lêem uma tradução desta entrada...
domingo, janeiro 23, 2005
E se...?
2. E se houvesse prémios anuais, com visibilidade, para diferentes profissões? Por que é que só sabemos dos prémios Pessoa, Camões, do Prémio Gulbenkian de Ciência e... dos Globos de Ouro?
O melhor dos mundos possíveis
- O senhor é decerto o proprietário duma vasta e magnífica fazenda - disse Cândido ao turco.
- Tenho apenas vinte jeiras - respondeu o turco - cultivo-as com os meus filhos. O trabalho afasta de nós três calamidades: o aborrecimento, o vício e a pobreza.
Cândido, ao voltar para a granja, ruminou profundamente a frase do turco. Disse a Pangloss e a Martin:
- Este bom velhote parece-me estar na posse duma sorte preferível à dos seis reis com quem nós tivemos a honra de cear.
- As grandezas - disse Pangloss, são muito perigosas, segundo dizem todos os filósofos. Senão vejamos: Eglon, rei dos moabitas, foi assassinado por Aod; Absalão foi pendurado pelos cabelos e foi atravessado por três dardos; o rei Madab, filho de Jeroboão, foi morto por Baza; o rei Ela por Zambri; Ochosias por Jehu; Atalia por Joïada; os reis Joaquim, Jechonias, Sedecias, foram escravizados. Toda a gente sabe como morreram Creso, Astiago, Dario, Denis de Siracusa, Pirro, Perseu, Aníbal, Jugura, Ariovisto, César, Pompeu, Nero, Otão, Vitelius, Domiciano, Ricardo II de Inglaterra, Eduardo II, Henrique II, Ricardo III, Maria Stuart, Carlos I, os três Henriques de França, o imperador Henrique IV. Toda a gente sabe...
- Também sei - interrompeu Cândido - que é preciso cultivar a nossa horta.
- Tens razão - respondeu Pangloss - porque quando o homem foi posto no Paraíso mandaram-no trabalhar; o que prova não ser o homem um ente criado para o repouso.
- Trabalhemos sem discorrer - disse Martin - porque é o único meio de tornar a vida sofrível.
Todo o grupo concordou com a proposta e cada qual tratou de mostrar os seus talentos. A granja rendeu muito dinheiro. Cunegundes estava feia, para falar verdade, como um mostrengo, mas soube ostentar habilidades de doceira; Paquette bordava; a velha cuidava das roupas. Até o frade Giroflée se tornou útil, fazendo perfeitamente trabalhos de carpintaria; chegou mesmo a ser um homem honesto. Pangloss dizia algumas vezes a Cândido:
- Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; porque enfim, se tu não fosses expulso dum formoso castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se tu não tivesses passado pela Inquisição, se tu não corresses a América a pé, se tu não espadeirasses o barão, se tu não perdesses todos os carneiros do maravilhoso Eldorado, tu não comerias aqui os frutos da terra.
- Tudo isso é muito bonito - respondeu Cândido - mas é preciso cultivar a nossa horta.
(in "Cândido", Voltaire, Guimarães Editores)
Chocolate e cochonilha
- Qual história! - replicou o grande homem, isso é até uma coisa indispensável no melhor dos mundos; é mesmo nele um ingrediente necessário. Porque se Colombo não tivesse apanhado numa ilha da América a doença terrível que envenena a fonte geradora, que chega mesmo a impedir a geração, e que evidentemente se opõe à grande finalidade da Natureza, nós não teríamos nem o chocolate, nem a cochonilha. (...)
(in "Cândido", Voltaire, Guimarães Editores)



