segunda-feira, janeiro 10, 2005

Vénus ao espelho


(Diego Velázquez)

«O amor torna-se maior e mais nobre na adversidade»

- Se temos que fazer disparates - disse -, façamo-los mas como gente crescida.

Levou-a para o quarto e começou a despir-se sem falsos pudores, de luz acesa. Florentino Ariza deitou-se de costas tentando recuperar o autodomínio, novamente sem saber o que fazer com a pele de tigre que tinha vestido. Ela disse-lhe: «Não olhes.» Ele perguntou porquê sem tirar os olhos do tecto baixo.

- Porque não vais gostar - disse ela.

Então ele olhou para ela. Viu-a nua até à cintura, tal como ele a imaginara. Tinha os ombros enrugados, os seios caídos e as costelas forradas por uma pele pálida e fria como a de uma rã. Ela cobriu o peito com a blusa que acabava de despir e apagou a luz. Então ele endireitou-se e começou a despir-se na escuridão, atirando para cima dela cada peça que ia despindo e ela devolvia-lhas a rir à gargalhada.

Permaneceram deitados de costas um longo momento, ele cada vez mais aturdido à medida que a embriaguez o abandonava, e ela tranquila, quase abúlica, mas suplicando a Deus que não lhe desse para começar a rir sem razão como lhe acontecia sempre que se descuidava com o anis. Conversaram para enganar o tempo. Falaram de si, das suas vidas diferentes, do acaso inverosímil de se encontrarem nus no camarote às escuras de um navio encalhado, quando seria justo que pensassem que já não lhes restava mais nada senão esperar a morte. Ela nunca tinha ouvido dizer que ele tivesse uma mulher, nem uma sequer, numa cidade onde se sabia tudo mesmo antes de acontecer. Disse-lho de uma maneira casual, e ele replicou-lhe imediatamente sem uma vacilação na voz:

- É que me conservei virgem para ti.

Ela não teria acreditado de todos os modos, mesmo que fosse verdade, porque as suas cartas de amor estavam cheias de frases como essa que não tinham valor pelo seu sentido mas pela sua capacidade de deslumbrarem. Mas agradou-lhe a coragem com que o disse. Florentino Ariza, pelo seu lado, perguntou-se então o que nunca se tinha atrevido a perguntar-se: que tipo de vida oculta tinha levado ela à margem do casamento. Nada o teria surpreendido porque ele sabia que as mulheres são iguais aos homens nas suas aventuras secretas: os mesmos estratagemas, as mesmas inspirações súbitas, as mesmas traições sem remorsos. Mas fez bem em não lho perguntar. Numa época em que as suas relações com a Igreja estavam já bastante deterioradas, o confessor perguntou-lhe, sem que viesse a propósito, se alguma vez tinha sido infiel ao seu esposo e ela levantou-se sem responder, sem terminar, sem se despedir, e nunca mais voltou a confessar-se com esse confessor nem com nenhum outro. Em troca, a prudência de Florentino Ariza teve uma recompensa inesperada: ela estendeu a mão na escuridão, acariciou-lhe o ventre, os flancos, o púbis quase imberbe. Disse: «Tens uma pele de bébe.» Depois deu o passo final: procurou-o onde não estava, voltou-o a procurar sem ilusões e encontrou-o inerme.

- Está morto - disse ele.

Acontecia-lhe sempre quando era a primeira vez, de modo que tinha aprendido a conviver com aquele fantasma: cada vez tinha que aprender de novo como se fosse a primeira. Pegou na mão dela e pô-la sobre o seu peito: Fermina Daza sentiu, quase à flor da pele, o velho coração incansável a latejar com a força, a pressa e a desordem dum adolescente. Ele disse: «Para isto é tão mau amar de mais como amar de menos.» Mas disse-o sem convicção: estava envergonhado, desejando uma razão para a culpar a ela do fracasso. Ela sabia-o e começou a provocar o corpo indefeso com carícias brincalhonas, como uma gata meiga que se rejubila na crueldade, até que ele não conseguiu resistir por mais tempo ao martírio e foi para o seu camarote. Ela ficou a pensar nele até ser manhã, convencida finalmente do seu amor e à medida que o anis a abandonava em ondas lentas ia-a invadindo a angústia de que ele se tivesse desgostado e não voltasse nunca mais.

Mas voltou no mesmo dia, à hora insólita das onze da manhã, fresco e restaurado, e despiu-se diante dela com uma certa ostentação. Ela gostou de o ver à luz do dia tal como o tinha imaginado às escuras: um homem sem idade, de pele escura, lúcida e tensa como um guarda-chuva aberto, sem mais pêlos do que os muito escassos e lassos das axilas e do púbis. Estava de arma em riste e ela apercebeu-se de que não se mostrava por acaso, mas exibia-a como um troféu de guerra para se dar coragem. Nem sequer lhe deu tempo para tirar a camisa de noite que tinha vestido quando começou a brisa do amanhecer e a sua pressa de principiante provocou-lhe um estremecimento de compaixão. Mas não a incomodou porque em casos como aquele não era fácil distinguir entre a compaixão e o amor. No fim, porém, sentiu-se vazia.

Era a primeira vez que fazia amor em mais de vinte anos e tinha-o feito embargada pela curiosidade de sentir como podia ser na sua idade após um retiro tão prolongado. Mas ele não lhe dera tempo para saber se o seu corpo também o queria. Tinha sido rápido e triste e ela pensou: «Agora é que está tudo fodido.» Mas enganou-se: apesar do desencanto de ambos, apesar do arrependimento dele pela sua torpeza e dos remorsos dela pela loucura do anis, não se separaram por um momento nos dias seguintes.


("O amor nos tempos de cólera", Gabriel García Marquez, Dom Quixote)

Muito fogo



Para muito frio.

domingo, janeiro 09, 2005

We never know how high we are

We never know how high we are
Till we are called to rise;
And then, if we are true to plan,
Our statures touch the skies.

The heroism we recite
Would be a daily thing,
Did not ourselves the cubits warp
For fear to be king.


(Emily Dickinson)

Contra o preconceito

sábado, janeiro 08, 2005

Blog: por que é que tinha que se aportuguesar?

Não usamos internet, e gulag, e líquen, e...?

(Já o "post" pode muito bem ser substituído por "entrada".)

O exemplo da educação para lá da cortina de ferro

Talvez merecesse ser mais bem conhecido.

Triste

Um país que investe o que não tem em televisores de topo de gama (e em telemóveis de topo de gama, e em automóveis de topo de gama).

Livros... de culto?

Bem, estava só a pensar naquela quantidade indecente de livros que li de um único autor e que alguém, que conheci por acaso, também leu.

Filmes e séries de culto

Já não há filmes nem sequer séries de culto, daqueles de que se viam como um ritual, que se viram repetidas vezes, e dos quais gerações conhecem frases de cor. Há sucedâneos desse fenómeno, mas associados a nichos de espectadores. E quando comparo o que agora entusiasma mentes ilustres com o que acontecia em tempos idos, sinto-me como a Mariza depois de um concerto, "muito velha... como se tivesse cem anos".

Rapariga lendo um jornal


(Louis Anquetin)

Os nossos deputados

O Pula Pula Pulga fez nos últimos dias uma selecção de deputados da Assembleia da República, tendo escolhido alguns com fotografias e textos de currículos que não lhes são especialmente favoráveis.

Com base nestes dados, sugere-se que esses deputados seriam os que, nos partidos, arranjam os dinheirinhos ou os que distribuem os aventais nas feiras. Conclusão: não deviam estar na Assembleia. (Nem é preciso saber que actividade parlamentar é que estas pessoas tiveram. E se for boa?)

Há duas possíveis consequências da conclusão da Pulga:

a) Diminuir o número de deputados.

b) Alterar de fora a forma de funcionamento dos partidos.

A primeira implicaria uma diminuição da proporcionalidade entre votos e eleitos, excluindo os pequenos partidos irremediavelmente do parlamento. Haveria também menos disponibilidade de deputados para trabalhar nas comissões. Seria, ainda, mais difícil haver em cada grupo parlamentar especialistas em diferentes áreas e pessoas com experiências pessoais diversas.

A segunda dificilmente seria aceite, já que seria apontada como anti-democrática.

Se não é possível a exclusão, falemos de inclusão. Por que é que não há pessoas de mais valia nas listas para a Assembleia da República? Porque:

1. Entre os melhores técnicos, o ordenado é mais importante do que o serviço da causa pública. (E ser deputado parece já não valorizar os currículos.)

2. Num dos maiores partidos da democracia portuguesa, deixou de haver a massa crítica para uma intervenção ditada pelos interesses do país.

Como se combate este estado de coisas? Parece-me que uma das formas incontornáveis é o voto.

Agradecimentos

Ao blog A Razão das Coisas pelo prémio, seguramente imerecido; e ao Pula Pula Pulga, pelo destaque a uma entrada do AdP.