Natal dos simples
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
(José Afonso)
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Agradecimentos
Aos blogs Reino das Bananas e Pula Pula Pulga, respectivamente, pela distinção e pelo destaque a uma entrada do AdP: muito obrigada!
Cepticismo
Em locais em que não há logística para enterrar cadáveres que são potenciais focos de epidemias, como há quem conte tantos milhares de corpos, se nem alinhados estão?
Não interessará a alguns países inflaccionar os números, para rentabilizarem a piedade do mundo e conseguir mais apoio de emergência? Às televisões interessa, com certeza, o aumento galopante do número de mortos referido.
Não interessará a alguns países inflaccionar os números, para rentabilizarem a piedade do mundo e conseguir mais apoio de emergência? Às televisões interessa, com certeza, o aumento galopante do número de mortos referido.
Nas fronteiras do horror
Em tempos, aprendia-se com a televisão. Hoje em dia, isso é muito mais raro e acontece mais nos canais de cabo, para quem os tenha. Mesmo assim, a televisão continua a ser uma "janela para o mundo" privilegiada. Por exemplo, de que outra forma poderíamos entender a força do maremoto de domingo sem as poderosas imagens transmitidas?
A televisão mostra não só a destruição da natureza, mas também os extremos de crueldade humana. Ontem assisti a um novo limite. Um programa sobre crianças-soldados mostrou como estas podem ser armas terríveis, porque não têm noção das monstruosidades que cometem. Vi e ouvi crianças com ar inocente e doce explicar como tiravam o coração e o fígado dos que matavam, como lhes punham "sal e pimenta", e os cozinhavam para comer ou para dar de comer aos seus chefes. Como cortavam mãos com machados. Como apostavam, ao encontrar uma mulher grávida, se tinha um menino ou uma menina na barriga, e lha abriam para descobrir.
A Unicef tem um programa para prevenir o recrutamento e conseguir a desmobilização de crianças-soldados. As crianças são (podem ser, devem ser) o melhor do mundo, certo? O futuro é das crianças, não é? Então, em nome da nossa sobrevivência como espécie e da sanidade mental colectiva, por favor, não se esqueçam de apoiar a Unicef!
A televisão mostra não só a destruição da natureza, mas também os extremos de crueldade humana. Ontem assisti a um novo limite. Um programa sobre crianças-soldados mostrou como estas podem ser armas terríveis, porque não têm noção das monstruosidades que cometem. Vi e ouvi crianças com ar inocente e doce explicar como tiravam o coração e o fígado dos que matavam, como lhes punham "sal e pimenta", e os cozinhavam para comer ou para dar de comer aos seus chefes. Como cortavam mãos com machados. Como apostavam, ao encontrar uma mulher grávida, se tinha um menino ou uma menina na barriga, e lha abriam para descobrir.
A Unicef tem um programa para prevenir o recrutamento e conseguir a desmobilização de crianças-soldados. As crianças são (podem ser, devem ser) o melhor do mundo, certo? O futuro é das crianças, não é? Então, em nome da nossa sobrevivência como espécie e da sanidade mental colectiva, por favor, não se esqueçam de apoiar a Unicef!
Orkut, ou uma entrada de outro mundo
1. Hoje, depois de longo desinteresse, fui espreitar a conta de um alter-ego de Laurindinha no Orkut. Pelo que é indicado, o sistema já tem 3314973 utilizadores.
O Orkut é uma "comunidade" associada ao Google em que se entra por "convite" de um membro, e que serve, supostamente, para conhecer outras pessoas, nomeadamente os amigos dos amigos, ou pessoas com interesses comuns. (Pergunto-me se o sistema de entrada por convite não teria sido um ensaio para o GMail.)
2. Não o escrevi no campo indicado, mas o meu interesse pelo Orkut, que me levou a aceitar um "convite" que recebi não foram os "amigos", nem os "colegas", nem as "redes comerciais" nem os "dates", mas a curiosidade em perceber como o sistema funcionava e quais as suas potencialidades.
3. A primeira surpresa são os formulários do perfil. Perguntam-nos quase tudo o que imaginar se possa. Por exemplo, o grupo étnico (os identificados pela cultura americana), a religião, a posição política, o tipo de sentido de humor, o estilo do vestuário, se se fuma e como, se se bebe e como.
Algumas das respostas possíveis são inesperadas. Por exemplo, quanto à orientação sexual, entre outras, pode ser-se bissexual, mas também bi-curioso...
Sobre animais de estimação, pode escolher-se "adoro os meus animais de estimação", "gosto deles nos jardins zoológicos", "gosto de animais domésticos" e "não gosto de animais domésticos". Esta era mesmo difícil... Felizmente, havia a hipótese de não responder.
4. Para a informação mais sensível, há a possibilidade de escolher partilhá-la com todos, com os amigos e amigos dos amigos, só com os amigos, ou com ninguém.
5. Aquela ideia de que se pode criar uma rede de todas as pessoas do planeta sendo a distância entre cada duas inferior a um número inteiro relativamente baixo está sempre presente. E, de facto, não é preciso passar de amigo a amigo muitas vezes para se chegar a uma figura pública ou a alguém que se conhece de algum lado.
6. Uma das coisas mais curiosas do Orkut é a distribuição por países dos seus utilizadores: o Brasil tem uma fatia de 62%, deixando os Estados Unidos em segundo lugar apenas com 11% (em terceiro lugar aparece o Irão com 8%)! Deve ser moda no Brasil ter e fazer amigos no Orkut. Só posso dizer que, definitivamente, não entendo estes brasileiros...
O Orkut é uma "comunidade" associada ao Google em que se entra por "convite" de um membro, e que serve, supostamente, para conhecer outras pessoas, nomeadamente os amigos dos amigos, ou pessoas com interesses comuns. (Pergunto-me se o sistema de entrada por convite não teria sido um ensaio para o GMail.)
2. Não o escrevi no campo indicado, mas o meu interesse pelo Orkut, que me levou a aceitar um "convite" que recebi não foram os "amigos", nem os "colegas", nem as "redes comerciais" nem os "dates", mas a curiosidade em perceber como o sistema funcionava e quais as suas potencialidades.
3. A primeira surpresa são os formulários do perfil. Perguntam-nos quase tudo o que imaginar se possa. Por exemplo, o grupo étnico (os identificados pela cultura americana), a religião, a posição política, o tipo de sentido de humor, o estilo do vestuário, se se fuma e como, se se bebe e como.
Algumas das respostas possíveis são inesperadas. Por exemplo, quanto à orientação sexual, entre outras, pode ser-se bissexual, mas também bi-curioso...
Sobre animais de estimação, pode escolher-se "adoro os meus animais de estimação", "gosto deles nos jardins zoológicos", "gosto de animais domésticos" e "não gosto de animais domésticos". Esta era mesmo difícil... Felizmente, havia a hipótese de não responder.
4. Para a informação mais sensível, há a possibilidade de escolher partilhá-la com todos, com os amigos e amigos dos amigos, só com os amigos, ou com ninguém.
5. Aquela ideia de que se pode criar uma rede de todas as pessoas do planeta sendo a distância entre cada duas inferior a um número inteiro relativamente baixo está sempre presente. E, de facto, não é preciso passar de amigo a amigo muitas vezes para se chegar a uma figura pública ou a alguém que se conhece de algum lado.
6. Uma das coisas mais curiosas do Orkut é a distribuição por países dos seus utilizadores: o Brasil tem uma fatia de 62%, deixando os Estados Unidos em segundo lugar apenas com 11% (em terceiro lugar aparece o Irão com 8%)! Deve ser moda no Brasil ter e fazer amigos no Orkut. Só posso dizer que, definitivamente, não entendo estes brasileiros...
terça-feira, dezembro 28, 2004
segunda-feira, dezembro 27, 2004
Vaza-me os olhos
Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te,
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.
(Reiner Maria Rilke)
tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te,
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.
(Reiner Maria Rilke)
Os publicitários e o português
Ser publicitário e poeta não é coisa inédita. Mas há liberdades que arrepiam.
Em cartazes de Lisboa pode ler-se:
amoreiras.
o natal que
eu gosto.
Estão aqui alguns dos erros de publicitários de que eu não gosto.
Em cartazes de Lisboa pode ler-se:
amoreiras.
o natal que
eu gosto.
Estão aqui alguns dos erros de publicitários de que eu não gosto.
Quando?
Quando é que alguma coisa acontece? Quando é que a lei das rendas tem efeitos? Quando é que adoptamos o novo acordo ortográfico? Quando é que pomos em causa o pacto de estabilidade e crescimento? Quando é que voltamos a discutir política? Quando é que voltamos a acreditar em nós? E, já agora, mais simples, quando é que os partidos terão programas eleitorais e os disponibilizarão na internet, para pôr ali ao lado?
Flora domesticada ou a simplicidade das aldeias
Como em faixas de uma "primavera dos cereais", há aqui: céu - pinheiros - feno de aveia e trigo - laranjeira - videiras - oliveira - couves - canteiro com sementeira desconhecida.
Poesia de Pedro Magalhães Mexia
Em húngaro:
A jelentések
Nem tudom, hogy jött mindez: felteszem,
hogy volt előbb egy alakzat, mely aztán
forgáccsá hullt, hogy puzzle váljék belőle.
De ha az összes darab egyesül,
nem ölt semmilyen formát néha, s akkor
mily szeplőtlen kezdetből származott ez,
mi később széttört? Nem lehet csinálni
forgácsot forgácsból elsődleges
összefüggés nélkül, mely most hiányzik.
Ha minden darab kapcsolódik, egy
nagyobb darab alakjává fogunk még
redukálódni, vagy ez az alak
pragmatikus, instrumentális ábránd,
mely jelenteni enged valamit?
Ó, jelentések, nyitottam tinektek
Egy füzetet gyerekkoromban.
Em português:
Os significados
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.
Cortesia Fora do Mundo e lyrikline.org
A jelentések
Nem tudom, hogy jött mindez: felteszem,
hogy volt előbb egy alakzat, mely aztán
forgáccsá hullt, hogy puzzle váljék belőle.
De ha az összes darab egyesül,
nem ölt semmilyen formát néha, s akkor
mily szeplőtlen kezdetből származott ez,
mi később széttört? Nem lehet csinálni
forgácsot forgácsból elsődleges
összefüggés nélkül, mely most hiányzik.
Ha minden darab kapcsolódik, egy
nagyobb darab alakjává fogunk még
redukálódni, vagy ez az alak
pragmatikus, instrumentális ábránd,
mely jelenteni enged valamit?
Ó, jelentések, nyitottam tinektek
Egy füzetet gyerekkoromban.
Em português:
Os significados
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.
Cortesia Fora do Mundo e lyrikline.org
Subscrever:
Mensagens (Atom)