domingo, dezembro 26, 2004

Mais agradecimentos

Aos blogs Luminiscências, Portugalidades e As Musas Esqueléticas, pelas visitas e pela leitura: obrigada!

Bendito seja o mesmo sol



Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural - mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...

(Alberto Caeiro)

Agradecimento

Muito obrigada a'O Observador pela preferência. Esta pastora corou ao ver-se em tão distinta companhia.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Fogo



É "desenvolvimento simultâneo de calor e luz produzido pela combustão de certos corpos". Pode ser instrumento de guerra ou centro de círculo para negociar e saborear a paz.

Quando está frio, há neste abrigo uma simples fogueira. O fogo, sempre igual, tem coreografias sempre diferentes. O crepitar da madeira recorda permanentemente a sua presença. Ocasionalmente, haverá broa e queijo fresco. E cantigas, e histórias, e risos. E esperança e fraternidade, se isso ainda existe.

Aconcheguem-se.

Agradecimentos

Muito obrigada pelas palavras excessivamente amáveis com que os blogs Nas Fronteiras da Dúvida e Touch of Evil se referem ao AdP!

Ode a Eros

Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...

Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?

Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!

Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?

Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa
Em que se bebe sempre a mesma sede,
Se come
A mesma fome?

Divindade nocturna
Que te cinges de rosas,
Suprema fúria mascarada
Que a porta abres do céu... escancarada
Sobre o negro vazio duma furna,
Que a urna de cristal nas mãos formosas
Vens ofertar às bocas sequiosas
E escorres sangue do cristal da urna,
Que tens tu afinal, ao fundo da caverna
Sempre aos mortais vedada:
A eterna morte... o nada,
Ou a vida eterna?


(José Régio)

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Nos 35 anos da morte de José Régio



Epitáfio para um poeta

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Nao vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

(José Régio)

terça-feira, dezembro 21, 2004

Pastora e rebanho ao pôr-do-sol


(Jean-François Millet)

Abelardo e Heloísa: uma dor tão grande

"Tanto me encorajava a certas coisas como fazia precisamente o contrário e vendo que não podia demover-me dos meus propósitos nem provocar a minha cólera, entre lágrimas e suspiros disse: «Por último, resta-nos saber o seguinte: ao perdermo-nos assim, nós dois encontraremos uma dor tão grande quanto o nosso amor.» O mundo inteiro reconheceu, no futuro, o espírito da profecia contida nestas palavras."

(in "As Cartas de Abelardo e Heloísa", Guimarães Editores)

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Livros sobre livros e sobre a escrita



Não os procuro, surgem-me nas mãos:

- "História do Cerco de Lisboa" (José Saramago) - a importância de um revisor e de uma palavra;

- "O Caderno Dourado" (Doris Lessing) - uma matrioska de cadernos;

- "Se Numa Noite de Inverno um Viajante" (Italo Calvino) - versões, falsificações, cumplicidade entre um leitor e uma leitora;

- "Correspondente de Guerra" (John Steinbeck) - o "esforço de guerra" como auto-censura;

- vários, de Jorge Luís Borges - por exemplo, a história do homem a quem é concedido um lapso de tempo antes de morrer, em que exteriormente fica imóvel e interiormente podo completar a sua obra-prima, desfrutada apenas por si.

E, ainda, um filme: "Fahrenheit 451", de François Truffaut, baseado no livro homónimo de Ray Bradbury.

Adenda: o livro de Melquíades, sobre o futuro que se faz presente, em "Cem anos de solidão" (Gabriel García Márquez).

Livro de Horas

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


(Miguel Torga)

Fogo


A wounded deer leaps highest

A wounded deer leaps highest,
I've heard the hunter tell;
'Tis but the ecstasy of death,
And then the brake is still.

The smitten rock that gushes,
The trampled steel that springs:
A cheek is always redder
Just where the hectic stings!

Mirth is mail of anguish,
In which its cautious arm
Lest anybody spy the blood
And, "you're hurt" exclaim


(Emily Dickinson)