terça-feira, novembro 30, 2004

18:46

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

(Luís Vaz de Camões)

Noites

1. Voo

Ela desce, atabalhoadamente, de um salto de um décimo andar. A roupa não ondula, nem há nenhuma “echarpe” flutuante, como nos filmes e nos sonhos, mas não há tempo para reparar nisso. Estes breves instantes condensam a satisfação de ter tido a coragem de tomar o seu destino completamente nas suas mãos – o acto de mais completo uso da sua liberdade – e do alívio que sentirá daqui a poucos segundos, porque todo o insuportável sofrimento que monopolizou a sua vida terá, em breve, um fim.

O sangue parece subir-lhe à cabeça, e os nervos estão incrivelmente tensos. No último instante, lembra-se de alguém e invoca o seu nome, como prometera a si própria fazer, há muitos anos. Alguém que não podia deixar de estar presente neste momento decisivo.

Toda a vida passa, então, num segundo, pela sua mente. Não se pode dizer que não viveu, que não viajou – pelo mundo, pelas emoções, pelas sensações, pelas ideias. Não procurou o limite dessas coisas, mas saboreou tudo o que teve, saboreou muito. Foi um patinho feio que nunca se transformou em cisne. Catrapum!


2. Mergulho

Ela desce no azul líquido e baço, o corpo e os cabelos ondulam, e as últimas bolhas de ar abandonam o seu corpo. Viveu encarcerada na sua solidão. Há uma corda atada a uma pedra que ela atou a um tornozelo. Não vai ser um truque de Houdini. A aflição é enorme; ela debate-se e, depois, chora porque sabe que é assim que tem de ser, que somos todos apenas formigas efémeras no formigueiro, que não vale a pena lutar por mais. As formigas não têm o direito de olhar para as estrelas, caro Oscar Wilde... Só de transformar-se em húmus.

domingo, novembro 28, 2004

Observação com espírito aberto

As moles de caras anónimas dos transportes públicos sempre me fascinaram. Não apenas aqueles rostos de adolescentes de beleza resplandecente, não apenas a fealdade cansada da maioria que trabalha e sobrevive, mas, por baixo da superfície, a unicidade de cada ser humano, a sua história de sonhos e conquistas de todos desconhecida, mas nem por isso menos preciosa.

“Cada ser humano é um mundo.” Não interessam as rugas, as olheiras, os papos, todas as imperfeições. Cada ser humano poderia, em princípio, ser meu amigo. Por que não?

sexta-feira, novembro 26, 2004

Os impuros

Javé disse a Moisés e Aarão: «Quando alguém tiver na pele uma inflamação, um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra, será levado diante do sacerdote Aarão ou de um dos seus filhos sacerdotes. O sacerdote examinará a parte afectada. Se no lugar doente o pêlo se tornou branco e a doença ficou mais profunda na pele, é caso de lepra. Depois de o examinar, o sacerdote declará-lo-á impuro. Mas se há sobre a pele uma mancha branca, sem depressão visível da pele, e o pêlo não se tornou branco, o sacerdote isolará o doente durante sete dias. No sétimo dia examinará de novo o doente: se observar que a doença permanece sem se espalhar pela pele, tornará a isolá-lo por mais sete dias; no sétimo dia, examiná-lo-á novamente. Se então verificar que a mancha não ficou mais branca e não se espalhou pela pele, o sacerdote declarará puro o homem, pois trata-se de um furúnculo. A pessoa lavará a sua roupa e ficarará pura. Mas se o furúnculo se alastrar sobre a pele depois de o enfermo ter sido examinado pelo sacerdote e declarado puro, ele deverá apresentar-se de novo ao sacerdote. O sacerdote examiná-lo-á; se observar que o furúnculo se alastrou sobre a pele, o sacerdote declará-lo-á impuro: trata-se de lepra.»

(Levítico, 13:1-8)

Prémio Raoul Follereau do AdP

Direitinho para António Baeta Oliveira, que livrou este blog da lepra anunciada...

quinta-feira, novembro 25, 2004

quarta-feira, novembro 24, 2004

Rui Gomes da Silva passa a ministro-adjunto do primeiro-ministro

Alguém me explica que país é este? Não é contraditório de mais? Será que alguém acha que esta criatura precisa de salários de ministro por mais uns meses para pagar as dívidas ao fisco? Serão todos membros de uma sociedade secreta? De desavergonhados?

terça-feira, novembro 23, 2004

Biberão de consumismo

A lei da oferta e da procura tem efeitos positivos conhecidos na razão qualidade-preço dos produtos e serviços. No entanto, a publicidade altera as regras deste jogo, criando necessidades de consumo completamente artificiais. A manipulação é particularmente evidente quando os seus alvos são os mais jovens.

Como seria útil que houvesse uma limitação a uma frequência razoável da difusão dos habituais anúncios sobre brinquedos de Natal... Como não há, vamos ter que assistir até à náusea, por mais um ano, à exploração descarada da fragilidade das crianças.

"Os Poemas da Minha Vida"

Edição do Público, terá antologias de Mário Soares, Miguel Veiga, Freitas do Amaral, Urbano Tavares Rodrigues, Nuno Grande, Ramalho Eanes, Vasco Gonçalves e Marcelo Rebelo de Sousa.