domingo, novembro 07, 2004

Jogo das cinco pedrinhas

Jogo praticado quase exclusivamente por raparigas, utilizando cinco pequenas pedrinhas arredondadas como material.

Conforme podemos observar na recolha elaborada pela Escola de S. Mamede em Évora, este jogo, desenvolve-se da seguinte forma:

Escolhe-se o local do jogo, que pode ser ao nível do chão, num degrau de escada, ou na soleira da porta. Depois de estabelecida a ordem de saída, com os jogadores dispostos em círculo inicia-se o jogo; as cinco pedrinhas são lançadas ao chão de forma a ficarem o mais juntas possível. O jogador agarra uma pedrinha, lança-a ao ar e apanha-a sem a deixar cair. Entretanto teve que tirar do conjunto que está no chão uma pedra e apanhar, com a mesma mão, a que está em queda. Junta novamente as cinco pedrinhas e lança-as de novo ao chão.

Repete a operação anterior, só que, quando lança a pedrinha ao ar, em vez de apanhar uma pedra terá de apanhar duas.

Prossegue, até às cinco, caso consiga desenvolver as acções com êxito. Se falhar dá a vez a outro jogador. Quando voltar a jogar, recomeça na situação que tinha falhado.

Após terminado o último lançamento, terá que pegar nas cinco pedras, lançá-las ao ar e tentar apanhá-las nas costas da mão.

Ganhará quem conseguir ficar com o maior número de pedras nas costas da mão.

(C.M. Borba)

Judeus com Arafat


Foto do dia da Lusa (7/Nov/2004)

Explicação

Como quem usa o Blogger deve ter reparado, o tempo dos blogs é falsificável. Esta entrada, escrita e publicada em 1 de Novembro, é um exemplo disso. Os leitores atentos à blogosfera podem também já ter deparado com entradas que têm fotografias de acontecimentos que só sucederam na hora seguinte à que é indicada ou entradas com datas do dia seguinte ao da leitura, pelo que não estou a ser especialmente original.

Resolvi usar este recurso e brincadeira para deixar um delicioso excerto de Umberto Eco, um dos meus preferidos dele. Como é um pouco extenso, e para não enfastiar ninguém, digo já ao que venho, e sugiro a quem se interessar que leia um pedacinho em cada dia, para não cansar muito os olhos...

Entretanto, poderão surgir mais entradas, nos vários dias da semana, que serão inseridas entre as transcrições.

sábado, novembro 06, 2004

Pó de Simpatia (VI)

- E isso explica também os desejos das crianças: a mãe deseja fortemente uma coisa e...

- Sobre isso eu teria mais cautela. Às vezes fenómenos análogos têm causas diferentes e o homem de ciência não deve dar fé a qualquer superstição. Mas voltemos ao meu pó. O que aconteceu quando submeti por uns dias à acção do Pó o pano sujo do sangue do nosso amigo? Em primeiro lugar, o Sol e a Lua atraíram de grande distância os espíritos do sangue que se encontravam no pano, graças ao calor do ambiente, e os espíritos do vitríolo que estavam no sangue não puderam escapar a fazer o mesmo percurso. Por outro lado a ferida continuava a expulsar uma grande abundância de espíritos quentes e ígneos, atraindo assim o ar circundante. Este ar atraía outro ar e este outro ar ainda e os espíritos do sangue e do vitríolo, dispersos a grande distância, enfim, reuniam-se àquele ar, que trazia consigo outros átomos do mesmo sangue. Ora, como os átomos do sangue, os provenientes do pano e os provenientes da chaga, se encontravam, expelindo o ar como um inútil companheiro de viagem, e eram por sua vez atraídos à sua sede maior, unidos a eles os espíritos do vitríolo penetravam na carne.

- Mas não poderíeis pôr directamente o vitríolo na chaga?

- Poderia, tendo o ferido à minha frente. Mas se o ferido estivesse longe? Acrescente-se que se houvesse posto directamente o vitríolo na chaga a sua força corrosiva a irritaria ainda mais, enquanto levado pelo ar só dá a sua parte doce e balsâmica, capaz de estancar o sangue, e que é usada também nos colírios para os olhos - e Roberto pôs os ouvidos à escuta, fazendo depois no futuro tesouro daqueles conselhos, o que certamente explicava o agravar-se do seu mal. - Por outro lado - acrescentou Igby -, é claro que não se deve usar o vitríolo normal, como se usava outrora, fazendo mais mal que bem. Eu arranjo vitríolo de Chipre, e antes calcino-o ao sol: a calcinação tira-lhe a humidade supérflua, e é como se dele se fizesse um caldo consistente; e depois a calcinação torna os espíritos desta substância capazes de ser transportados pelo ar. Finalmente, acrescento-lhe goma adraganta, que delimita mais rapidamente a ferida.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Do desejo

V

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

(Hilda Hilst)

sexta-feira, novembro 05, 2004

Kefiah


(Alba Savoi, 1995)

Uma biografia do homem no limbo, aqui.

Pó de Simpatia (V)

- Mas então se tudo atrai tudo, por qual motivo os elementos e os corpos permanecem divididos e não se tem a colisão de qualquer força com outra?

- Pergunta aguda. Mas como os corpos que têm igual peso se unem mais facilmente, e o azeite se une mais facilmente com o azeite do que com a água, temos de concluir que o que mantém consolidados os átomos de uma mesma natureza é a sua raridade ou densidade, como também poderiam dizer-vos os filósofos que frequentais.

- E disseram-mo, provando-mo com as diversas espécies de sal: que sejam moídos ou coagulados de que maneira for, retomam sempre a sua forma natural, e o sal comum apresenta-se sempre em cubos de faces quadradas, o sal nitro em colunas de seis faces, e o sal amoníaco em hexágonos de seis pontas, como a neve.

- E o sal da urina forma-se em pentágonos, donde o senhor Davidson explica a forma de cada uma das oitenta pedras retiradas da bexiga do senhor Pelletier. Mas se os corpos de forma análoga se misturam com mais afinidade, com maior razão se atrairão com mais força que os outros. Por isso se queimardes uma mão obtereis refrigério do sofrimento mantendo-a por um pouco junto do fogo.

- O meu preceptor, uma vez que um camponês foi mordido por uma víbora, pôs em cima da ferida a cabeça da víbora...

- Certo. O veneno, que estava a infiltrar-se para o coração, retornava à sua fonte principal onde existia em maior quantidade. Se em tempos de peste meterdes numa caixa pó de sapos, ou até um sapo e uma aranha vivos, ou mesmo arsénico, esta substância venenosa atrairá a si a infecção do ar. E as cebolas secas fermentam no celeiro quando as da horta começam a despontar.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

quinta-feira, novembro 04, 2004

Segredo

Sei um ninho
e o ninho tem um ovo;
e o ovo, redondinho,
tem lá dentro um passarinho novo.

Mas escusas de me tentar:
nem o tiro nem o ensino;
quero ser um bom menino,
e guardar
este segredo comigo,
e ter depois um amigo
que faça o pino
a voar.

(Miguel Torga)

Os porquês de Laurindinha

1) Por não o ser.

2) Por me dizer alguma coisa (mas nada a ver com a Laurinda mais conhecida).

Rapariga com brinco de pérola


(Jan Vermeer)

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

(Fernando Pessoa)

Pó de Simpatia (IV)

- Mas como é possível que tantos corpúsculos se dispersem no ar, e o corpo que os emana não sofra nenhuma diminuição?

- Talvez haja diminuição, e dareis por isso quando fizerdes evaporar a água, mas para os corpos sólidos não o notamos, tal como não o notamos com o musgo ou com outras substâncias fragrantes. Qualquer corpo, por menor que seja, pode sempre dividir-se em novas partes, sem nunca chegar ao fim da sua divisão. Considerai a fineza dos corpúsculos que se libertam de um corpo vivo, graças aos quais os nossos cães ingleses, guiados pelo olfacto, são capazes de seguir a pista de um animal. Será que a raposa, no fim da sua corrida, nos parece mais pequena? Ora, é justamente em virtude de tais corpúsculos que se verificam os fenómenos de atracção que alguns celebram como Acção à Distância, que a distância não é, e assim não é magia, mas se dá pelo contínuo comércio de átomos. E assim se verifica com a atracção por sucção, como a da água ou do vinho por meio de um sifão, com a atracção do íman sobre o ferro, ou a atracção por filtração, como quando pondes uma tira de algodão num recipiente cheio de água, deixando pender para fora do recipiente boa parte da tira, e vedes a água subir para além do bordo e pingar no chão. E a última atracção é a que tem lugar por meio do fogo, que atrai o ar circundante com todos os corpúsculos que nele vorticam: o fogo, actuando de acordo com a sua própria natureza, traz consigo o ar que está em seu redor como a água de um rio arrasta a terra do seu leito. E como o ar é húmido e o fogo seco, eis que se agarram um ao outro. Portanto, para ocupar o lugar do que foi levado pelo fogo, é necessário que venha outro ar das vizinhanças, senão criar-se-ia o vácuo.

- Então negais o vácuo?

- De modo nenhum. Digo que, assim que o encontra, a natureza procura enchê-lo de átomos, numa luta para conquistar todas as suas regiões. E se assim não fosse, o meu Pó de Simpatia não poderia agir, como afinal vos mostrou a experiência. O fogo provoca com a sua acção um constante afluxo de ar e o divino Hipócrates purificou da peste uma província inteira mandando acender por toda a parte grandes fogueiras. Sempre em tempo de peste matam-se gatos e pombos e outros animais quentes que exsudam espíritos de contínuo, para que a alma tome o lugar dos espíritos libertados no decorrer dessa evaporação, fazendo que os átomos impestados se agarrem às penas e ao pêlo desses animais, como o pão tirado do forno atrai a si a espuma dos tonéis e altera o vinho se o meterem sobre a tampa do tonel. Como acontece de resto se expuserdes ao ar uma libra de sal de tártaro calcinado e ateado como deve ser, que dará dez libras de bom óleo de tártaro. O médico do Papa Urbano VIII contou-me a história de uma freira romana a quem pelos demasiados jejuns e orações, se aqueceu tanto o corpo que os ossos ficaram todos exsicados. Esse calor interno, com efeito, atraía o ar que se corporizava nos ossos como faz no sal de tártaro, e saía no ponto onde reside a descarga da serosidade, e portanto pela bexiga, de modo que a pobre santa dava mais de duzentas libras de urina em vinte e quatro horas, milagre que todos assumiam como prova da sua santidade.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Caixinha de surpresas

É o que é a blogosfera. Nomeadamente as referências a alguns blogs que nos surgem nos contadores de visitas. Deve ser por causa do botão "next blog" do Blogger...

O que é certo é que já descobri assim um blog de poesia escrito em caligrafia tamil e outro com um título parecido (não me lembro exactamente) a "the space between my fingers was made for you to fill in".