quarta-feira, novembro 03, 2004

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Paz


(Paul Gauguin)

Pó de Simpatia (III)

Igby pôs Roberto ao corrente do seu segredo. A orbe, ou esfera do ar, está cheia de luz, e a luz é uma substância material e corpórea; noção que Roberto recebeu de bom grado pois no salão Dupuy já ouvira dizer que até a luz não era mais que poeira finíssima de átomos.

- É evidente que a luz - disse Igby -, saindo incessantemente do Sol, e lançando-se a grande velocidade para todos os lados em linhas rectas, onde encontra algum obstáculo no seu caminho pela oposição de corpos sólidos e opacos, se reflecte ad angulos aequales, e retoma outro percurso, até que se desvia para um lado pelo encontro com outro corpo sólido, e assim continua até quando se apaga. Tal como no jogo da bola à corda, onde a bola impelida contra uma parede faz ricochete desta para a parede defronte, e muitas vezes realiza um inteiro circuito, tornando ao ponto de onde havia partido. Ora o que acontece quando a luz cai sobre um corpo? Os raios fazem nele ricochete caindo átomos, pequenas partículas, como a bola poderá levar consigo parte do estuque fresco da parede. E como estes átomos são formados pelos quatro Elementos, a luz com o seu calor incorpora as partes viscosas, e transporta-as para longe. Prova disto é que se tentardes secar um pano húmido ao fogo vereis que os raios que o pano reflete trazem consigo uma espécie de névoa aquosa. Estes átomos errantes são como cavaleiros em corcéis alados que vão pelo espaço até que o Sol no ocaso lhes retira os seus Pégasos e os deixa sem cavalgadura. E então eles tornam a precipitar-se em massa para a terra de que provêm. Todavia estes fenómenos não se dão só com a luz, mas também por exemplo com o vento, o qual não é senão um grande rio de átomos semelhantes, atraídos pelos corpos sólidos terrestres...

- E o fumo - sugeriu Roberto.

- Claro. Em Londres obtêm o fumo do carvão de terra que vem da Escócia, que contém uma grande quantidade de sal volátil muito acre; este sal transportado pelo fumo disperde-se no ar, arruinando as paredes, os leitos e os móveis de cor clara. Quando se tem fechada uma câmara por alguns meses, depois encontra-se nela uma poeira negra que cobre tudo, como se vê uma branca nos moinhos e nas padarias. E na Primavera todas as flores parecem sujas de gordura.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

terça-feira, novembro 02, 2004

Sobre a abstenção

Será por ingenuidade ou por insatisfação minhas que não me passa nunca pela cabeça deixar de votar quando há eleições?

Faço sempre o passeio até à "assembleia de voto" com um sorriso nos lábios mal disfarçado e com a solenidade dos dias especiais. Penso nas moles de gente que nas décadas, séculos, milénios anteriores não tiveram oportunidade de votar. Penso nas moles de gente que na actualidade não têm ainda oportunidade de votar. Nesses dias, conto tanto como outros que tiveram mais oportunidades do que eu. Por tudo isso, digo presente. Assumo a minha quota parte de responsabilidade pelo futuro da sociedade em que vivo. E, admito, reprovo quem não assume essa responsabilidade.

Pelo que se tem sabido, espera-se que as eleições presidenciais de hoje nos Estados Unidos tenham um nível de participação "elevado", há muito não visto. O que significa uma abstenção de cerca de 40% dos eleitores...

Alguns dizem que isto acontece porque nos Estados Unidos o estado tem um papel muito menos importante do que, por exemplo, na Europa. Como se o liberalismo económico implicasse alienação da política.

Outros dizem que é por a democracia já estar muito consolidada e as necessidades básicas estarem essencialmente resolvidas que há menos participação. Como se essas coisas estivessem automaticamente garantidas para todo o sempre.

Hoje, deixo um cumprimento especial para quem, como eu, vota.

Forças da natureza


Paul Gauguin, "Fatata Te Moua" ("No sopé de uma montanha"), 1892

Reflexividade

No filme "The Five Obstructions", de Jørgen Leth e Lars von Trier (apresentado no DocLisboa 2004), há uma frase solta mais ou menos assim: "o bloco de notas é o aperfeiçoamento da vida do homem." (E os blogs são os blocos de notas modernos, não é?) O que acham disto?

[Esta entrada é escrita lembrando um teste que esteve na moda há uns meses, com o título "Does Your Blog Own You?"]

Pó de Simpatia (II)

Creio que, numa época em que as desinfecções eram sumárias, só o facto de lavar diariamente a ferida já era uma causa suficiente de cura, mas não se pode censurar Roberto se passou os dias seguintes a interrogar o amigo sobre aquele tratamento, que além do mais lhe recordava a empresa do carmelita a que assistira na sua infância. Salvo que o carmelita aplicara o pó na arma que havia provocado o dano.

- Com efeito - respondeu Igby -, a disputa sobre o unguentum armarium dura há muito tempo, e o primeiro a falar dele foi o grande Paracelso. Muitos usam uma pasta gordurosa, e consideram que a sua acção se exerce melhor sobre a arma. Mas como vós compreendeis, arma que fere ou pano que enfaixa são a mesma coisa, porque o preparado se deve aplicar onde há sinais de sangue do ferido. Muitos, vendo tratar a arma para tratar os efeitos do golpe, pensam numa operação de magia, enquanto o meu Pó de Simpatia tem os seus fundamentos nas operações da Natureza!

- Porquê Pó de Simpatia?

- O nome aqui também poderá levar ao engano. Muitos têm falado de uma conformidade ou simpatia que ligaria entre si as coisas. Agrippa diz que para suscitar o poder de uma estrela será preciso fazer referência às coisas que lhe são semelhantes e portanto recebem a sua influência. E chama simpatia a esta atracção mútua das coisas entre si. Como sucede com o pez, com o enxofre e com o óleo se prepara a madeira para receber a chama, assim empregando coisas conformes à operação e à estrela, reverbera-se um benefício particular sobre a matéria justamente disposta por meio da alma do mundo. Para influir sobre o sol dever-se-ia assim agir sobre o ouro, solar por natureza, e sobre as plantas que se viram para o sol, ou que se vergam ou fecham as folhas ao pôr do Sol para as reabrir ao seu nascimento, como o lótus, a peónia ou a quelidónia. Mas estas são lendas, não basta uma analogia deste género para explicar as operações da Natureza.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

segunda-feira, novembro 01, 2004

"Abruptozinho"?!

Esta pastora corou.

Tim Sebastian


"Hard Talk with Tim Sebastian", BBC World

Serei só eu a gostar das entrevistas "duras" deste Senhor?

Samovar


Cortesia Russian Tea Time

Com a mente a divagar pelos caminhos da ciência e da ilusão em cenários longínquos, lembrei-me de partilhar uma coisa que aprendi com a internet (graças a São Google), depois de tantas vezes lido em autores russos: o aspecto de um samovar!

Pastorícia


Paul Gauguin, "Tarari Maruru" ("Paisagem com duas cabras"), 1897

Pó de Simpatia (I)

Logo o senhor de Igby o enfaixou com uma das suas jarreteiras, para fechar as veias, mas no decorrer de poucos dias a ferida ameaçava transformar-se em gangrena, e o cirurgião disse que era necessário amputar o braço.

Foi nessa altura que Igby ofereceu os seus préstimos, advertindo porém que poderiam considerá-lo um mistificador, e pedindo a todos que nele confiassem. O mosqueteiro, que agora já não sabia para que santo voltar-se, respondeu com um provérbio espanhol: Hágase el milagro, y hágalo Mahoma.

Igby pediu-lhe então um pedaço de pano onde houvesse sangue da ferida, e o mosqueteiro deu-lhe uma peça que o protegera até ao dia antes. Igby mandou trazer uma celha de água e deitou-lhe dentro pó de vitríolo, derretendo-o rapidademente. Depois pôs a peça na bacia. Improvisadamente o mosqueteiro, que entretanto se distraíra, estremeceu agarrando-se ao braço ferido; e disse que de repente lhe cessara o ardor, e até tinha uma sensação de frescura na chaga.

- Bem - disse Igby -, agora só tendes de manter a ferida limpa lavando-a todos os dias com água e sal, de modo que possa receber o justo influxo. E eu irei expor esta celha, de dia à janela, e de noite ao canto da chaminé, de modo a conservá-la sempre a uma temperatura moderada.

Como Roberto atribuiu a repentina melhoria a qualquer outra causa, Igby, com um sorriso de cumplicidade pegou na peça de roupa e secou-a à chaminé, e logo o mosqueteiro começou a queixar-se, pelo que foi necessário molhar de novo o pano na solução.

A ferida do mosqueteiro curou-se no prazo de uma semana.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Mais agradecimentos

Muito obrigada aos blogs Touch of Evil (muito paciente...) e Reino das Bananas pelos quadros, e ao O Palácio do Desejo pelas palavras simpáticas.