"Considerai, finalmente, que o tormento dessa prisão infernal é acrescido pela companhia dos próprios condenados. Na terra, uma má companhia é tão nociva que as plantas, como que por instinto, se apartam de qualquer coisa que lhes seja mortal ou funesta. No Inferno, todas as leis estão dissolvidas, não há questões de família ou pátria, de alianças ou de parentesco. Os danados urram ou vociferam uns contra os outros, porque a sua tortura e a sua raiva aumentam em presença de seres torturados e enfurecidos como eles. Todo o sentimento de humanidade é esquecido. Os gritos de dor enchem os mais recuados cantos do vasto abismo. As bocas dos danados estão plenas de blasfémias contra Deus, de ódio contra os seus companheiros de sofrimento, de maldições contra aqueles que foram seus cúmplices no pecado. Outrora, para punir o parricídio, o homem que levantara a mão assassina contra seu pai era precipitado nas profundezas do mar dentro de um saco onde se encontravam um galo, um macaco e uma serpente. A intenção dos legisladores, que parece cruel na nossa época, era punir o criminoso com a companhia destes animais hostis e furiosos. Mas o que é a fúria destas bestas mudas, comparada com a fúria odiosa que rompe dos lábios ressequidos, das gargantas inflamadas dos danados do Inferno, contemplando entre os seus companheiros de miséria aqueles mesmos que os ajudaram e incitaram no pecado, aqueles cujas palavras semearam no seu coração as primeiras sementes de maus pensamentos e más acções, aqueles cujas sugestões insensatas os conduziram ao pecado, aqueles cujos olhares os tentaram e desviaram do caminho da virtude? Voltam-se contra tais cúmplices com censuras e maldições. Mas não lhes resta nem socorro nem esperança: é demasiado tarde para o arrependimento.
"Finalmente, considerai a espantosa tortura que representa para estas almas danadas, as que corromperam e as que foram corrompidas, a companhia dos demónios. Estes demónios atormentam os danados de duas maneiras: com a sua presença e com as suas censuras. Santa Catarina de Siena viu uma vez um demónio e escreveu que preferia caminhar até ao fim da sua vida por um caminho de carvões em brasa do que voltar a ver um único instante tão horroroso monstro. Estes diabos, que foram outrora formosos anjos, tornaram-se tão repelentes e feios quanto antes tinham sido belos. Escarnecem e riem das almas perdidas que arrastaram para a ruína. São eles, estes diabos abjectos, que representam no Inferno a voz da consciência. Porque pecaste? Porque deste ouvidos aos propósitos tentadores dos amigos? Porque abandonaste as tuas práticas piedosas e as tuas boas acções? Porque não evitaste as ocasiões de pecado? Porque não deixaste aquele mau companheiro? Porque não renunciaste a tal hábito impudico, a tal hábito impuro? Porque não ouviste os conselhos do teu confessor? Porque, mesmo depois de teres pecado a primeira, a segunda, a terceira, a quarta ou a centésima vez, não te arrependeste da tua má conduta e não regressaste a Deus, que esperava apenas o teu arrependimento para te absolver? Agora o tempo do arrependimento já passou. O tempo é, o tempo foi, mas o tempo não existirá mais! Houve um tempo para pecar às escondidas, para te comprazeres na preguiça e no orgulho, para ambicionar o ilícito, para ceder às investigações da tua baixa natureza, para viver como as bestas dos campos, ou ainda pior do que as bestas, porque elas, ao menos, não passam de brutos que não possuem uma razão que os guie. O tempo foi, mas o tempo não existirá mais. Deus falou-te por intermédio de tantas vozes diversas, mas não quiseste ouvir. Não quiseste esmagar esse orgulho e esse rancor no teu coração, mas não quiseste restituir esse bem mal adquirido, não quiseste obedecer aos preceitos da tua Santa Igreja nem observar os teus deveres religiosos, não quiseste abandonar aqueles maus companheiros, não quiseste evitar aquelas perigosas tentações. Tal é a linguagem desses demoníacos carrascos, linguagem plena de sarcasmo e de reprovação. Sim, de reprovação! Porque mesmo eles, os próprios demónios, quando pecaram, cometeram o único pecado compatível com a sua angélica natureza: a rebelião do espírito; e mesmo eles, mesmo os diabos abjectos, têm de se afastar, revoltados e enojados com os espectáculos daqueles pecados inomináveis com os quais o homem caído ultraja e macula o templo do Espírito Santo, ultrajando-se e aviltando-se a si próprio."
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
terça-feira, outubro 26, 2004
segunda-feira, outubro 25, 2004
Inferno (III)
"Por outro lado, o nosso fogo terrestre, por mais furioso ou vasto que possa ser, é sempre uma extensão limitada; mas o lago de fogo do Inferno é ilimitado, não tendo margens nem fundo. E diz-se que o próprio Diabo, interrogado acerca deste ponto por um soldado, foi obrigado a confessar que uma montanha lançada no oceano ardente seria consumida num instante como um pedaço de cera. E esse fogo terrível não se contentará em atingir os corpos dos danados exteriormente, mas toda a alma perdida será ela mesmo um inferno, as chamas desencadeadas enraivecendo-se até às suas vísceras. Oh! Quão terrível é a sorte desses desgraçados! O sangue ferve e cachoa nas suas veias; o cérebro ferve no crânio; o coração no peito flameja e arde; as entranhas não passam de uma massa vermelha de polpa que se consome; os olhos delicados flamejam como globos em fusão.
"Todavia, tudo o que acabo de vos dizer referente à força, à qualidade e à extensão deste fogo não é nada quando comparado com a sua intensidade, intensidade que é justamente considerada como sendo o instrumento escolhido pela vontade divina para punição da alma e do corpo ao mesmo tempo. Trata-se de um fogo que procede directamente da ira de Deus, e que se manifesta não pela própria actividade, mas como um instrumento da vingança divina. Assim como as águas baptismais purificam a alma com o corpo, também o fogo da punição tortura o espírito com a carne. Todos os sentidos da carne são torturados e o mesmo sucede com todas as faculdades da alma: os olhos com as trevas absolutas e impenetráveis; o nariz com fétidos nauseantes; os ouvidos com berros, uivos e imprecações; o paladar com a matéria imunda, a lepra e a podridão, a imundície inominável e sufocante; o tacto com aguilhões e pregos em brasa e cruéis línguas de fogo. Assim, por meio dos vários tormentos dos sentidos, a alma imortal é eternamente torturada na sua essência mesma, no meio de léguas e léguas de ardentes fogos acesos nos abismos pela majestade ofendida de Deus Omnipotente, e soprados numa perene e sempre crescente fúria pelo sopro raivoso do Todo-Poderoso."
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
"Todavia, tudo o que acabo de vos dizer referente à força, à qualidade e à extensão deste fogo não é nada quando comparado com a sua intensidade, intensidade que é justamente considerada como sendo o instrumento escolhido pela vontade divina para punição da alma e do corpo ao mesmo tempo. Trata-se de um fogo que procede directamente da ira de Deus, e que se manifesta não pela própria actividade, mas como um instrumento da vingança divina. Assim como as águas baptismais purificam a alma com o corpo, também o fogo da punição tortura o espírito com a carne. Todos os sentidos da carne são torturados e o mesmo sucede com todas as faculdades da alma: os olhos com as trevas absolutas e impenetráveis; o nariz com fétidos nauseantes; os ouvidos com berros, uivos e imprecações; o paladar com a matéria imunda, a lepra e a podridão, a imundície inominável e sufocante; o tacto com aguilhões e pregos em brasa e cruéis línguas de fogo. Assim, por meio dos vários tormentos dos sentidos, a alma imortal é eternamente torturada na sua essência mesma, no meio de léguas e léguas de ardentes fogos acesos nos abismos pela majestade ofendida de Deus Omnipotente, e soprados numa perene e sempre crescente fúria pelo sopro raivoso do Todo-Poderoso."
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
Reencontro de Dante e Beatriz
(Iluminura da Escola Veneziana do séc. XIV. Libreria Marciana, Veneza. Fotografia de Erich Lessing.)
domingo, outubro 24, 2004
Inferno (II)
"O horror desta prisão estreita e sombria é aumentado pelo seu espantoso cheiro. Todas as imundícies do mundo, todos os monturos e escórias do mundo, dizem-nos, correrão para lá como uma vasta e fumegante cloaca, quando a terrível conflagração do último dia tiver purgado o mundo. Por outro lado, o enxofre que ali arde em tão prodigiosa quantidade enche todo o Inferno com o seu intolerável fedor; e os corpos dos danados, eles próprios, exalam um cheiro tão pestilencial que, como diz S. Boaventura, só um deles bastaria para infectar o mundo inteiro. O próprio ar deste mundo, esse elemento puro, torna-se fétido e irrespirável, quando fica fechado muito tempo. Considerai, então, como deve ser fétido o ar do Inferno. Imaginai um cadáver imundo e pútrido, apodrecido, decomposto no fundo de uma sepultura, uma matéria gelatinosa de corrupção liquificada. Imaginai tal carácter presa das chamas, devorado pelo fogo do enxofre ardente, emitindo os densos e horrendos fumos da decomposição repugnante e nauseabunda. E a seguir imaginai esse fedor malsão multiplicado milhões e milhões de vezes pelo número de milhões e milhões de carcaças fétidas comprimidas nas trevas fumarentas, esta enorme fogueira de podridão humana. Imaginai tudo isso, e tereis uma ideia do horrível cheiro do Inferno.
"Mas esse fedor, por mais horrível que seja, não é o maior tormento físico que sofrem os danados. O tormento do fogo é o maior que um tirano jamais infligiu aos seus semelhantes. Colocai por um momento o vosso dedo na chama de uma vela e sentireis a dor causada pelo fogo. Mas o nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha da vida, para o ajudar nos trabalhos úteis, enquanto o fogo do Inferno é de uma outra qualidade: foi criado por Deus para torturar e castigar o pecador impenitente. Além disso, o nosso fogo terrestre consome mais ou menos rapidamente, conforme o objecto atacado é mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter mesmo inventado preparações químicas para impedir ou embaraçar a sua acção. Mas o sulfuroso breu que arde no Inferno é uma substância especialmente criada para arder eternamente com uma indizível fúria. Finalmente, o nosso fogo terrestre destrói à medida que arde, de modo que quanto mais intenso for mais curta será a sua duração; mas o fogo do Inferno possui a propriedade de conservar aquilo que queima e, embora se enfureça com uma incrível ferocidade, essa fúria não tem fim."
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
"Mas esse fedor, por mais horrível que seja, não é o maior tormento físico que sofrem os danados. O tormento do fogo é o maior que um tirano jamais infligiu aos seus semelhantes. Colocai por um momento o vosso dedo na chama de uma vela e sentireis a dor causada pelo fogo. Mas o nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha da vida, para o ajudar nos trabalhos úteis, enquanto o fogo do Inferno é de uma outra qualidade: foi criado por Deus para torturar e castigar o pecador impenitente. Além disso, o nosso fogo terrestre consome mais ou menos rapidamente, conforme o objecto atacado é mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter mesmo inventado preparações químicas para impedir ou embaraçar a sua acção. Mas o sulfuroso breu que arde no Inferno é uma substância especialmente criada para arder eternamente com uma indizível fúria. Finalmente, o nosso fogo terrestre destrói à medida que arde, de modo que quanto mais intenso for mais curta será a sua duração; mas o fogo do Inferno possui a propriedade de conservar aquilo que queima e, embora se enfureça com uma incrível ferocidade, essa fúria não tem fim."
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
sábado, outubro 23, 2004
Inferno (I)
"- Tentemos agora, por um momento, compreender na medida do possível a natureza dessa morada dos danados que a justiça de um Deus ofendido criou para o castigo eterno dos pecadores. O Inferno é uma prisão estreita, sóbria e sórdida, um habitáculo de demónios e de almas perdidas, cheio de fogo e de fumo. A exiguidade dessa prisão é especialmente designada por Deus para punir aqueles que recusaram manter-se nos limites das Suas leis. Nas prisões terrenas o pobre cativo tem pelo menos uma certa liberdade de movimento, seja apenas entre as quatro paredes da sua cela ou no sinistro pátio da sua prisão. Não acontece assim no Inferno. Lá, devido ao grande número de danados, os prisioneiros estão empilhados uns sobre os outros na sua terrível prisão, cujas paredes, diz-se, têm quatro mil milhas de espessura; e os condenados estão tão completamente imobilizados, tão desamparados, que, como um bem-aventurado santo, Santo Anselmo, escreve no seu Livro das Similitudes, nem sequer têm a possibilidade de tirar do olho o verme que os atormente.
"Jazem nas trevas exteriores. Porque, lembrai-vos disto: as chamas do Inferno não emitem qualquer luz. Assim como, pela ordem de Deus, o fogo da fornalha de Babilónia perdeu o seu calor, mas não a sua luz, assim, pela ordem de Deus, o fogo do Inferno, conquanto retenha a intensidade do seu calor, arde eternamente nas trevas. É uma incessante tempestade de trevas, de negras chamas e de negra fumarada de enxofre a arder, no meio das quais os corpos estão amontoados uns sobre os outros, sem uma nesga de ar. De todas as pragas com que a terra dos faraós foi flagelada, uma só, a praga das trevas, foi classificada de horrível. Que qualificativo daremos então às trevas do Inferno, que hão-de durar não três dias apenas, mas toda a eternidade?"
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
"Jazem nas trevas exteriores. Porque, lembrai-vos disto: as chamas do Inferno não emitem qualquer luz. Assim como, pela ordem de Deus, o fogo da fornalha de Babilónia perdeu o seu calor, mas não a sua luz, assim, pela ordem de Deus, o fogo do Inferno, conquanto retenha a intensidade do seu calor, arde eternamente nas trevas. É uma incessante tempestade de trevas, de negras chamas e de negra fumarada de enxofre a arder, no meio das quais os corpos estão amontoados uns sobre os outros, sem uma nesga de ar. De todas as pragas com que a terra dos faraós foi flagelada, uma só, a praga das trevas, foi classificada de horrível. Que qualificativo daremos então às trevas do Inferno, que hão-de durar não três dias apenas, mas toda a eternidade?"
(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)
sexta-feira, outubro 22, 2004
Rajada
"Trinta horas depois da morte do sargento Faustino Rivera, Irene foi baleada à porta da editora. Saía do trabalho, já tarde, quando um automóvel estacionado no passeio em frente pôs o motor em marcha, acelerou e passou a seu lado como um vento fatídico, disparando uma rajada de metralhadora antes de se perder no trânsito. Irene sentiu um golpe terrível no coração e não percebeu o que tinha acontecido. Desmaiou sem um grito. Toda a sua alma ficou como que vazia e a dor paralizou-a. Teve um instante de lucidez, durante o qual conseguiu sentir o sangue crescendo à sua volta, num charco incontrolável, e logo de seguida mergulhou no sono.
"O porteiro e outras testemunhas do facto também foram apanhados desprevenidos. Ouviram os disparos e não souberam identificá-los, pensaram numa explosão de motor ou na passagem de um avião, mas quando a viram cair correram para socorrê-la. Dez minutos mais tarde, Irene era levada numa ambulância com as sirenes ligadas e as luzes acesas. Tinha inúmeras perfurações de bala no ventre, por onde lhe fugia a vida aos borbotões."
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
"O porteiro e outras testemunhas do facto também foram apanhados desprevenidos. Ouviram os disparos e não souberam identificá-los, pensaram numa explosão de motor ou na passagem de um avião, mas quando a viram cair correram para socorrê-la. Dez minutos mais tarde, Irene era levada numa ambulância com as sirenes ligadas e as luzes acesas. Tinha inúmeras perfurações de bala no ventre, por onde lhe fugia a vida aos borbotões."
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
quinta-feira, outubro 21, 2004
Fascinação
"Nessa noite, à mesa, o professor estava em completa euforia. A presença de Irene Beltrán estimulava a sua eloquência. A jovem ouvia-o falar sobre a solidariedade com a fascinação de um menino perante um teatro de marionetas, porque aqueles discursos exaltados estavam muito distantes do seu mundo. Enquanto ele apostava nos melhores valores da humanidade, ignorando milhares de anos de história que demonstram o contrário, certo de que basta uma geração para criar uma consciência superior e uma sociedade melhor desde que se criem as condições indispensáveis, ela, extasiada, deixava esfriar a comida no prato."
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
Xisto
O xisto perturba-me pela facilidade com que se desintegra nas minhas mãos. Bastam simples gestos distraídos para que pedras milenares se tornem lascas. É muito frágil, este nosso mundo. E o nosso poder de destruição é imenso.
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