sábado, outubro 16, 2004
Orion
Comecei por conhecer esta constelação no livro "Um Pouco Mais de Azul", de Hubert Reeves. Reconheci-a depois no céu, num dia especial. Mais recentemente, o Hubble revelou com nitidez que, no punhal do caçador, nascem estrelas a partir de poeira...
Quando olho para o céu e vejo as Três Marias do cinturão de Orion, lembro-me especialmente de uma história antiga que ouvi: a história de um casal separado por milhares de quilómetros (ela em Portugal, ele em Moçambique, se bem me lembro) que combinaram olhar para Orion todos os dias a uma mesma hora, e pensarem, nesse instante, um no outro.
As estrelas, verdadeiras anciãs, são testemunhas dos nossos pequenos (grandes) nadas...
sexta-feira, outubro 15, 2004
A Charm Invests A Face
A charm invests a face
Imperfectly beheld.
The lady dare not lift her veil
For fear it be dispelled.
But peers beyond her mesh,
And wishes, and denies,
'Lest interview annul a want
That image satisfies.
(Emily Dickinson)
Imperfectly beheld.
The lady dare not lift her veil
For fear it be dispelled.
But peers beyond her mesh,
And wishes, and denies,
'Lest interview annul a want
That image satisfies.
(Emily Dickinson)
quinta-feira, outubro 14, 2004
Pedido de ajuda
Procuro o título de um livro de Ilse Losa. É a história, na primeira "pessoa", de um cão (seria Faísca?) que vivia no campo e tinha um dono menino: o Manuel. Era então um cão livre e feliz.
Depois, a família do Manuel teve dificuldades financeiras e resolveu vender o cão a uma menina da cidade. Na cidade, o herói canino era muito bem tratado, mas não podia correr, porque quando o levavam a passear prendiam-no sempre por uma trela.
Em suma, é uma extraordinária e comovente alegoria sobre a liberdade. Conheci-a porque uma professora de Português de uma escola preparatória usava os últimos dez minutos de cada aula para deixar os alunos de olhos marejados de lágrimas e com o veneno da Literatura no sangue.
Quem conhece este livro?
Depois, a família do Manuel teve dificuldades financeiras e resolveu vender o cão a uma menina da cidade. Na cidade, o herói canino era muito bem tratado, mas não podia correr, porque quando o levavam a passear prendiam-no sempre por uma trela.
Em suma, é uma extraordinária e comovente alegoria sobre a liberdade. Conheci-a porque uma professora de Português de uma escola preparatória usava os últimos dez minutos de cada aula para deixar os alunos de olhos marejados de lágrimas e com o veneno da Literatura no sangue.
Quem conhece este livro?
terça-feira, outubro 12, 2004
Christopher Reeve (1952-2004)
Morreu um ícone. Vou lembrar-me dele em "Deathtrap", de Sidney Lumet. Há dez anos, um cavalo estúpido impediu que moças de vista fraca pudessem voltar a ser salvas pelos seus braços. Continuou, com a super-dignidade de quem não se rende à tragédia. Terminou agora o seu e o nosso sofrimento.
A sabedoria popular
"Quem espera sempre alcança"
mas
"quem espera... desespera"
e, no entanto,
"enquanto há vida, há esperança".
É assim a sabedoria do povo: contraditória. Como qualquer ser humano.
mas
"quem espera... desespera"
e, no entanto,
"enquanto há vida, há esperança".
É assim a sabedoria do povo: contraditória. Como qualquer ser humano.
domingo, outubro 10, 2004
Ácidos e óxidos
É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que as outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras, não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão no meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu dia de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão mesmo é uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, o sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de paúis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
(Ruy Belo)
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que as outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras, não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão no meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu dia de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão mesmo é uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, o sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de paúis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
(Ruy Belo)
sábado, outubro 09, 2004
Le népenthès et la bonne ciguë
PIÈCES CONDAMNÉES TIRÉES DES "FLEURS DU MAL"
III
LE LÉTHÉ
Viens sur mon coeur, âme cruelle et sourde,
Tigre adoré, monstre aux airs indolents;
Je veux longtemps plonger mes doigts tremblants
Dans l'épaisseur de ta crinière lourde;
Dans tes jupons remplis de ton parfum
Ensevelir ma tête endolorie,
Et respirer, comme une fleur flétrie,
Le doux relent de mon amour défunt.
Je veux dormir! dormir plutôt que vivre!
Dans un sommeil aussi doux que la mort,
J'étalerai mes baisers sans remord
Sur ton beau corps poli comme le cuivre.
Pour engloutir mes sanglots apaisés
Rien ne me vaut l'abîme de ta couche;
L'oubli puissant habite sur ta bouche,
Et le Léthé coule dans tes baisers.
A mon destin, désormais mon délice,
J'obéirai comme un prédestiné;
Martyr docile, innocent condamné,
Dont la ferveur attise le supplice,
Je sucerai, pour noyer ma rancoeur,
Le népenthès et la bonne ciguë
Aux bouts charmants de cette gorge aiguë,
Qui n'a jamais emprisonné de coeur.
(Charles Baudelaire)
III
LE LÉTHÉ
Viens sur mon coeur, âme cruelle et sourde,
Tigre adoré, monstre aux airs indolents;
Je veux longtemps plonger mes doigts tremblants
Dans l'épaisseur de ta crinière lourde;
Dans tes jupons remplis de ton parfum
Ensevelir ma tête endolorie,
Et respirer, comme une fleur flétrie,
Le doux relent de mon amour défunt.
Je veux dormir! dormir plutôt que vivre!
Dans un sommeil aussi doux que la mort,
J'étalerai mes baisers sans remord
Sur ton beau corps poli comme le cuivre.
Pour engloutir mes sanglots apaisés
Rien ne me vaut l'abîme de ta couche;
L'oubli puissant habite sur ta bouche,
Et le Léthé coule dans tes baisers.
A mon destin, désormais mon délice,
J'obéirai comme un prédestiné;
Martyr docile, innocent condamné,
Dont la ferveur attise le supplice,
Je sucerai, pour noyer ma rancoeur,
Le népenthès et la bonne ciguë
Aux bouts charmants de cette gorge aiguë,
Qui n'a jamais emprisonné de coeur.
(Charles Baudelaire)
Literatura e Alephs
No tempo em que era muito ingénua, ou, pelo menos, muito mais ingénua do que agora, acreditava na superioridade da ficção sobre a realidade.
Por exemplo, como apreciar o melhor de um lugar desconhecido quando se tem apenas o olhar do turista? - pensava eu.
A "Fábula de Veneza", de Hugo Pratt, seria um exemplo perfeito para o meu ponto. Hugo Pratt investigou, viajou pelo mundo, mas Veneza era a sua cidade natal, e mostrou-a aos seus leitores com todos os seus segredos, os seus recantos, as suas personagens misteriosas.
Nesse livro, até a Lua em crescente é especial.
sexta-feira, outubro 08, 2004
O poder é perverso
"O professor afirmava que o poder é perverso e que quem o detinha era a escória da sociedade, porque na disputa social só triunfavam os mais violentos e sanguinários. Era necessário, por isso mesmo, combater qualquer forma de governo e deixar os homens livres num sistema igualitário."
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
(in "De Amor e de Sombra", Isabel Allende, Difel)
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