quarta-feira, maio 31, 2006

Beggars and Kings

In the evening
all the hours that weren't used
are emptied out
and the beggars are waiting to gather them up
to open them
to find the sun in each one
and teach it its beggar's name
and sing to it It is well
through the night

but each of us
has his own kingdom of pains
and has not yet found them all
and is sailing in search of them day and night
infallible undisputed unresting
filled with a dumb use
and its time
like a finger in a world without hands


(W. S. Merwin)

domingo, maio 28, 2006

Simples

Hoje acordei a pensar no sabor do caldo de farinha do meu avô, um sabor diferente de todos os outros com o qual, para meu grande espanto, ele se deliciava. Na rede há referências a um "caldo de farinha" que é tradição gastronómica de alguns lugares, mas que é uma outra coisa, com muito mais ingredientes. Na "receita" que conheci, bastava juntar água a ferver a uma tigela com farinha, açúcar e umas pedrinhas de sal, e mexer. (Era o alimento das mães que tinham filhos para amamentar.) Tão simples e, no entanto, muito mais do que o que tantas crianças miseráveis têm, pelo mundo fora. A existência de farinha pressupõe condições de segurança que permitam o comércio ou um sedentarismo torne possível a agricultura. Lembrei-me disto por causa das crianças do Darfur e de outros infernos, que tão facilmente se esquecem. Por que não anda uma fracção dos jornalistas que cobre as notícias da selecção atrás do Eng. Guterres a relatar o que os olhos dele vêem? [editado]

sexta-feira, maio 26, 2006

Mulheres a ler


(Harunobu Suziki)

Timor-Leste: umas perguntinhas

1. O que é que as Nações Unidas e os países cooperantes com Timor-Leste fizeram em assessoria jurídica às Falintil-FDTL para que, numa altura de protesto dos militares (legítimo ou não), um abandono dos quartéis durante semanas tivesse como resposta umas palmadinhas nas costas e a decisão de os manter lá fora? Não existe outra penalização para deserções?

2. Por que é que ainda não houve em Timor-Leste eleições autárquicas normais: livres e democráticas? A pressão internacional poderia ter feito a diferença.

3. O que é que os partidos portugueses fizeram para ajudar a capacitar os partidos da oposição timorenses no sentido de os tornar uma alternativa credível à Fretilin?

domingo, maio 21, 2006

Funcionários públicos



(recuperado de 5/5/06)

Dúvida

Quem conhece o Direito há-de saber o que eu não sei. Que é saber se quem é responsável por uma investigação criminal pode fender uma prova por o excesso não ser necessário. Um exemplo por absurdo: uma fotografia digital sem valor artístico contém a prova de um crime. Mas contém, também, num canto que poderia ser retirado com um programa de edição de imagens, uma qualquer figura pública "impoluta" em avançado estado de embriaguez (deixo a escolha à imaginação de quem lê). Nada de novo: a polícia deve todos os dias obter, por acaso, informações desnecessárias para o seu trabalho, algumas das quais hão-de ser "interessantes". Se a fotografia for usada em julgamento, cairá fatalmente nos jornais. Desnecessariamente, dirão alguns. Pode então o investigador editar o ficheiro, retirando o que não interessa?

Solidarité

Para onde foi este impulso que deu origem à palavra de ordem? Como se pode defender que se quer pagar menos impostos quando há tanta e tanta gente que não se importaria de pagar mais, mesmo muito mais, se tivesse rendimentos que o justificassem? E há médicos, juizes e professores que cheguem?

Fraternité

Sopa de pastora

Cenoura grande, 1
Nabo, 1
Aipo, 3 talos
Alhos-porros, 2
Cebola, 1
Manteiga, 1 c. de sopa
Caldo de carne, 1/2 l
Quadrados de pão frito e sal, q.b.


Cortam-se os legumes em bocadinhos e fritam-se levemente na manteiga. Junta-se um litro e meio de caldo de carne, tempera-se com sal e deixa-se ferver até estar tudo cozido. À hora de ir para a mesa deita-se na sopa uma mancheia de quadrados de pão fritos em óleo.

(O livro de Pantagruel)

terça-feira, maio 16, 2006

E amanhã?

Beijo

      Que só estavas por dentro!

      Quando surgi em teus lábios,
um rubro túnel de sangue
triste e escuro mergulhava
até ao fim da tua alma.

      Quando penetrou meu beijo,
seu calor, sua luz davam
sobressaltos e tremores
à tua carne surpreendida.

      Desde esse instante os caminhos
que levam à tua alma
não queres que estejam desertos.

      Quantas flechas, peixes, pássaros
quantas carícias e beijos!


Manuel Altolaguirre
(tradução de José Bento)

sexta-feira, maio 12, 2006


O direito humano em caso algum pode fundar-se sobre outra coisa que não seja o direito de natureza. E o grande princípio, o princípio universal de um e do outro, é, em todos os pontos da terra: «Não faças o que não quererias que te fizessem». Ora, não se vê como, seguindo este princípio, um homem pode dizer a outro: «Crê naquilo em que eu creio e em que não podes crer, ou morrerás.» É o que se diz em Portugal, em Espanha e em Goa. Outros países há em que presentemente as gentes se contentam em dizer: «Crê ou abominar-te-ei; crê ou far-te-ei todo o mal possível; monstro, não tens a minha religião, não tens, portanto, religião alguma: terás que suscitar o horror dos teus vizinhos, da tua cidade, da tua província.» O direito de intolerância é, pois, absurdo e bárbaro: é o direito dos tigres, e é bem horrível; porque os tigres matam para comer e nós andámos a exterminar-nos por causa de parágrafos.

Voltaire, Tratado sobre a tolerância (Antígona, 1999)

Agradecimento

Ao blog Blasfémias, pelo destaque ao Abrigo de Pastora: muito obrigada!

quinta-feira, maio 11, 2006

Mulher a ler


(Gwen John, Precious Moment With A Book)

Detrás de uma pedra da parede do abrigo, um papel amarelecido pelo tempo

II. A cúpula

Há um príncipe na cidade. Anda disfarçado de gente vulgar e, por isso, ninguém o reconhece no meio da multidão. Mas é ele, sim, é ele que ali vai. Sei o seu segredo porque ele próprio mo revelou.

Contou-me que era descendente de uma dinastia antiga, que perdera o seu reino por uma traição, mas que insistia em sobreviver para preservar a sua nobreza. Contou-me também que ele, tal como os seus antepassados, tinha sido educado numa ilha distante, por uma confraria secreta que vivia à espera de uma Utopia. Aí, ensinaram-lhe a coragem para vencer batalhas, a sensibilidade para estimar a arte, a sabedoria para distinguir as causas justas, a compaixão para amparar os miseráveis, o respeito pela diferença. Tudo isto ele aprendeu e guardou no seu coração.

segunda-feira, maio 08, 2006

Hanoin Timor oan sira

Com "h" aspirado, "ha-nó-in". Em tétum, significa "pensar", mas também "ter saudades", "estar preocupado" e "ter pena". Que estranha combinação.

O que tratá o futuro?

(Claude Monet)

domingo, maio 07, 2006

Receita

A propósito de uma receita do Livro de Pantagruel, alguém comentou que "alguns livros de culinária parecem livros de instruções para jagunços". Não é bem o caso do Pantagruel... De qualquer modo, aqui fica outro estilo de apresentação de receitas, do livro "Afrodite", de Isabel Allende. É um livro bastante original, muito bem-humorado, de que retive especialmente as histórias "Uma Noite no Egipto" e "Colomba na Natureza".

Esta não é, definitivamente, a versão "mais simples" da mousse de chocolate, nem a menos calórica... Mas o que é que isso interessa aqui?


Mousse de chocolate


É a sobremesa afrodisíaca por excelência, obrigatória nos bons restaurantes e um convite formal ao amor. Existem muitas versões desta sobremesa; aqui vamos dar a mais simples. Se se estragar, finja que ficou exactamente como pretendia e sirva-a em taças. Se mesmo assim não ficar apresentável, utilize-a como loção para massagens sensuais.

Ingredientes

170 g de chocolate negro
3 colheres de sopa de café forte
2 ovos, gemas e claras batidas em castelo separadamente
1/2 chávena de natas espessas
1 colher de sopa de licor de laranja
Umas gotas de baunilha

Preparação
Dissolva o chocolate em lume brando no café. Deite as gemas, mexa e cozinhe durante 2 minutos. Retire, deixe arrefecer e junte as claras, as natas, a baunilha e o licor. Ponha no frigorífico em taças que pode enfeitar a seu gosto.


Bon appetit!

quarta-feira, maio 03, 2006

Em tempos em que a reforma passa a ser indexada à esperança média de vida

"Esperança média de vida" porquê? Se é para sermos realistas, por que não "esperança individual de vida"? Por que não pedir um relatório de um check up completo ao atribuir um valor para uma pensão? ("Tem sessenta e cinco anos e uma saúde de ferro? Azar! Vai ter de se contentar com uma reforma miserável por mês...") Afinal, não é assim que as seguradoras funcionam? E não é para os seus métodos que se tende?

Em tempos de uso incorrecto da palavra "construtivismo"

Da Wikipédia:

Constructivist theory

Formalization of the theory of constructivism is generally attributed to Jean Piaget, who articulated mechanisms by which knowledge is internalized by learners. He suggested that through processes of accommodation and assimilation, individuals construct new knowledge from their experiences. Assimilation occurs when individuals' experiences are aligned with their internal representation of the world. They assimilate the new experience into an already existing framework. Accommodation is the process of reframing one's mental representation of the external world to fit new experiences. Accommodation can be understood as the mechanism by which failure leads to learning. When we act on the expectation that the world operates in one way and it violates our expectations, we often fail. By accommodating this new experience and reframing our model of the way the world works, we learn from the experience of failure.

It is important to note that constructivism itself does not suggest one particular pedagogy. In fact, constructivism describes how learning happens, regardless of whether the learner is leveraging their experiences to understand a lecture or attempting to design a model airplane. In both cases, the theory of constructivism suggests that learners construct knowledge. Constructivism as a description of human cognition is often confused with pedagogic approaches that promote learning by doing.

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Failure to distinguish between a constructivist approach and maturationist views

Constructivist views are commonly mistaken with the views of maturationist. "The romantic maturationist stream is based on the idea that the student's naturally occurring development should be allowed to flower without adult interventions in a permissive environment" (DeVries et al., 2002). Whereas, the constructivist stream (or the cognitive-developmental stream) "is based on the idea that the dialectic or interactionist process of development and learning through the student's active construction should be facilitated and promoted by adults" (DeVries et al., 2002).

segunda-feira, maio 01, 2006


(Claude Monet)
Humanity i love you
because you would rather black the boots of
success than enquire whose soul dangles from his
watch-chain which would be embarrassing for both

parties and because you
unflinchingly applaud all
songs containing the words country home and
mother when sung at the old howard

Humanity i love you because
when you're hard up you pawn your
intelligence to buy a drink and when
you're flush pride keeps

you from the pawn shops and
because you are continually committing
nuisances but more
especially in your own house

Humanity i love you because you
are perpetually putting the secret of
life in your pants and forgetting
it's there and sitting down

on it
and because you are
forever making poems in the lap
of death Humanity

i hate you

(e.e. cummings)