segunda-feira, fevereiro 28, 2005


(Auguste Rodin)

(will you teach a... (12)

(will you teach a
wretch to live
straighter than a needle)

ask
     her
         ask
             when
                 (ask and
                 ask
                 and ask
again and)ask a
brittle little
person fiddling
in
the
rain

(did you kiss
a girl with nipples
like pink thimbles)

ask
     him
         ask
             who
                (ask and
                ask
                and ask
ago and)ask a
simple
crazy
thing
singing
in the snow

(e. e. cummings)

Peter Benenson



Morreu na sexta-feira passada Peter Benenson, o criador de uma das melhores ideias do século XX. Infelizmente, ainda actual. Ainda não é possível brindar à liberdade em muitos lugares do mundo. Ainda há corredores da morte, desaparecimentos, julgamentos extra-judiciais, tortura, tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Ainda há muito a fazer.

domingo, fevereiro 27, 2005

Angelus


(Jean-François Millet)

*

Angelus: orações ditas de manhã (6h00), a meio do dia (12h00) e ao fim da tarde (18h00) na Igreja Católica Romana, durante todo o ano excepto no Tempo Pascal, em que se recita a Regina Caeli em sua substituição. É por vezes acompanhado com o tocar do sino.


"Angelus" ou "O Anjo do Senhor" ou "Ave Marias" ou "Trindades"

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria:
R. E Ela concebeu do Espirito Santo. Ave Maria...

V. Eis a escrava do Senhor:
R. Faça-se em mim segundo a vossa palavra. Ave Maria...

V. E o Verbo Divino se fez homem:
R. E Habitou entre nós. Ave Maria...

V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Ave Maria...

Oremos. Infundi, Senhor, nós Vos pedimos, a Vossa graça nas nossas almas, para que nós, que pela anunciação do anjo, conhecemos a Encarnação de Vosso Filho, assim pela Sua Paixão e morte na Cruz, e com a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, alcancemos a glória da ressurreição. Pelo mesmo Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amen.

Glória ao Pai... (três vezes)



"Regina caeli" ou "Rainha do céu"
(no Tempo Pascal, do domingo de Páscoa até o domingo de Pentecostes)

V. Rainha do Céu, alegrai-Vos, Aleluia!
R. Porque Aquele que merecestes trazer em Vosso ventre, Aleluia!

V. Ressuscitou como disse, Aleluia!
R. Rogai por nós a Deus, Aleluia!

V. Alegrai-Vos e exultai, ó Virgem Maria, Aleluia!
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!

Oremos. Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, concedei-nos, Vos suplicamos, a graça de alcançarmos pela protecção da Virgem Maria, Sua Mãe, a glória da vida eterna. Pelo mesmo Cristo Nosso Senhor. Amen.


*

"Até alguns anos atrás era normal entre nós, tocarem-se as “ave-marias”. Em alguns lugares, como na Sé de Angra, ainda se mantém esse costume. Trata-se de tocar os sinos três vezes por dia: ao amanhecer, ao meio-dia e ao anoitecer. Em certos lugares chamava-se “Trindades”. À noite havia uma “norma”: Trindades batidas, meninas recolhidas.

Os toques variavam de três a cinco badaladas. Nalguns lugares havia mais. Eram costumes significativos de ambiente de oração. Estivessem onde estivessem, as pessoas rezavam, ao menos três “ave-marias”. Daí o nome de “ave-marias”.

Oficialmente chama-se-lhe o “ANGELUS”. Este nome veio-lhe do primeiro de três versículos que se intercalam às ave-marias. São versículos muito profundos que lembram, honram e “anunciam” o mistério da Encarnação: o Filho de Deus fez-se Homem. Os dois primeiros são tirados do Evangelho de S. Lucas e o terceiro do de S. João.

- O anjo do Senhor anunciou a Maria; e ela concebeu pelo Espírito Santo (ave-maria).
- Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (ave-maria).
- E o verbo fez-se Carne. E habitou entre nós (ave-maria).

São expressões que vêm dos Evangelhos e que nos recordam o início dos mistérios da Salvação. Elas tornam o mistério de Cristo presente nas almas.

Hoje ainda se reza o “Angelus”. Os últimos Papas lançaram o costume de o rezar em conjunto com os peregrinos em Roma. Nas ordens religiosas ele reza-se três vezes ao dia. E há cristãos que o fazem também. Alguns rezam-no quando se levantam e quando se deitam.

Em algumas catequeses ensinam as crianças a rezá-lo."

(Caetano Tomás)

No silêncio

Onde estaria agora a sua adolescência? Onde estaria a alma que se afastara outrora do seu destino para examinar, sozinha, a vergonha das suas chagas e para, no seu asilo de sordidez e de subterfúgios, se revestir realmente com velhas colgaduras desbotadas, com grinaldas que murchavam ao menor contacto? Ou, onde estava ele?

Estava só. Estava esquecido de todos, feliz, rente ao coração selvagem da vida. Estava só e jovem, cheio de vontade, e selvagem, só num deserto de ar livre, de águas salgadas, entre a colheita marinha de conchas e de algas, entre a claridade opaca do sol velado, entre as silhuetas alegres e claras de crianças e de raparigas, entre as vozes infantis e virginais que enchiam o ar.

Uma rapariga apareceu diante dele, de pé no meio da corrente - sozinha e tranquila, contemplando o largo. Era como se magicamente tivesse sido transformada numa ave marinha, estranha e bela. As suas pernas nuas, longas e esguias, eram delicadas como as de uma grua, e imaculadas, excepto no lugar onde uma fita de alga cor de esmeralda se incrustara como se fosse um sinal sobre a carne. As suas coxas, mais cheias, de uma coloração suave como a do marfim, estavam cobertas quase até às ancas, onde as alvas franjas das calças eram como a penugem de uma plumagem alva e macia. A sua saia azul-ardósia, arrojadamente arregaçada até à cintura, caía atrás como cauda de pombo; o peito era semelhante ao de um pássaro, macio e leve, leve e macio como o pescoço de uma rola de plumagem escura; mas os seus longos cabelos loiros eram de menina, e virginal, tocada pelo deslumbramento de uma beleza mortal, era a sua face.

Estava sozinha e tranquila, contemplando o mar; e, quando lhe sentiu a presença e o olhar maravilhado, volveu até ele os olhos numa calma aceitação, sem pejo nem luxúria. Muito, muito tempo sustentou ela aquela contemplação e depois, calma, virou-os para a corrente, enrugando a água para cá e para lá, graciosamente, com a ponta do pé. O primeiro rumor leve da água assim agitada rompeu o silêncio, suave e leve, e sussurrante, leve como os sinos do sono; para cá e para lá, para lá e para cá; um leve rubor tremulava na face da rapariga.

- Deus do Céu! - exclamou a alma de Stephen numa explosão de alegria profana.

Afastou-se bruscamente e começou a correr através da praia. O seu rosto estava afogueado; o seu corpo era um braseiro, tremiam-lhe os membros. Caminhou, caminhou, a passos largos, para lá das dunas, cantando um hino selvagem ao mar, gritando para saudar o advento da vida cujo apelo acabara de o atingir.

A imagem da rapariga entrara na sua alma para sempre, e contudo palavra alguma quebrara o silêncio sagrado do seu arroubo. Os olhos dela tinham-no chamado e a sua alma saltara a tal apelo. Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida com a vida! Um anjo selvagem lhe aparecera, anjo da mocidade e da beleza mortal, mensageiro das cortes esplêndidas da vida, escancarando diante dele, num instante de êxtase, os portões de todos os caminhos do erro e da glória. Seguir, seguir, sempre para diante! Para diante!

Parou de repente e ouviu o coração bater no silêncio. Até onde se aventurara? Que horas seriam?

(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)

sábado, fevereiro 26, 2005

Maioria absoluta

Um governo com maioria absoluta tem oportunidades únicas e responsabilidade acrescida. Temos agora uma maioria inédita.

Interessa-me, para os tempos que se avizinham, saber o que pode fazer esta oposição e esta sociedade civil. Não me esqueço da frase de John F. Kennedy: "ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country".

O desterrado


(António Soares dos Reis)

E agora?

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

(Carlos Drummond de Andrade)

Agradecimento

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado à entrada "Voto electrónico?" do AdP: obrigada!

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Jovem pastora


(Jean-François Millet)

Nos 150 anos do nascimento de Cesário Verde

Manhãs brumosas

Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época de banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.

E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

(Cesário Verde)

Telescópios e tangências

Quão longe estamos quando estamos perto? Quão perto estamos quando estamos longe?

domingo, fevereiro 20, 2005

Biblioteca


(Maria Helena Vieira da Silva)

Descida da abstenção

Um bom sinal para a democracia.

Voto electrónico?

Dificilmente me convencerão da fiabilidade do voto electrónico num país em que acontece o que aconteceu com o último concurso de professores e com as últimas devoluções de IRC.

Além disso, quem é que não consegue esperar umas horinhas, em que jornalistas, especialistas de sondagens e analistas têm a oportunidade de dar um ar da sua graça?

sábado, fevereiro 19, 2005

«He hum não querer mais que bem querer»

X

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
- Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

(Florbela Espanca)

sexta-feira, fevereiro 18, 2005


(Pablo Picasso)

Pedras basilares

Preâmbulo da Constituição de 21 de Agosto de 1911:

A Assembleia Constituinte, tendo sancionado, por unanimidade, na sessão de 19 de Junho de 1911, a Revolução de 5 de Outubro de 1910, e afirmando a sua confiança inquebrantável nos superiores destinos da Pátria, dentro de um regime de liberdade e justiça, estatui, decreta e promulga, em nome da Nação, a seguinte Constituição da República Portuguesa.

*

Preâmbulo da Constituição de 2 de Abril de 1976:

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.

Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.

A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.

A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.

A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa.



(in "As Constituições Portuguesas", Jorge Miranda, Livraria Petrony, Lisboa, 1976)

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

I hide myself within my flower

I hide myself within my flower,
That wearing on your breast,
You, unsuspecting, wear me too—
And angels know the rest.

I hide myself within my flower,
That, fading from your vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.


(Emily Dickinson)

Miracle and wonder

Há coisas que só são possíveis com a internet. Encontrar a letra de uma canção de que recordamos um verso, por exemplo. Ou as maravilhas do peer to peer.

(Pieter de Hooch)

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Irmã Lúcia e manhãs submersas

O Filipe Alves, do Respública, escreveu numa caixa de comentários do AdP:

Acho que as suposições a respeito do "sequestro" de Lúcia e da sua falta de lucidez não passam disso mesmo, suposições... quem não tem fé não consegue compreender que existe quem queira viver afastado do mundo.

Caro Filipe, pode querer-se viver afastado do mundo por variadíssimas razões, de entre as quais a fé é apenas uma. Não tenho razões para não as respeitar e posso até compreender algumas delas, embora não esqueça que o ser humano é, por natureza, um animal social... O que não é certo é que o "consentimento" da irmã Lúcia tenha sido um "consentimento informado".

Agradecimento

Aos blogs Somatos, Neo-normal e Kitanda, respectivamente, pela dedicatória, pelo destaque e pela confiança: obrigada!

E aos 99 blogs que têm ligações para este Abrigo, muito obrigada também!

Maternidade


(Pablo Picasso)

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a carne lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
...Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

- O meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
- Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-me tudo!
...Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado.
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Adão e Eva se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade,
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
- Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuámos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

(José Régio)

domingo, fevereiro 13, 2005

Mártires da Igreja (V)

"Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Achas que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demónio, e que para as vencerem tiveram de mortificar o corpo pelo jejum e pela oração, há até um caso interessante, um tal John Schorn, que passou tanto tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos, evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo, que fechou o diabo numa bota (...)"

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

Irmã Lúcia

Morreu hoje, com 97 anos, a que foi pastora e viveu depois enclausurada.

(creativemoments)

Mártires da Igreja (IV)

"(...) continua, e Deus continuou, Sabiano de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, Sebastião, flechas, Sagismundo, rei dos Burgúndios, atirado a um poço, Segundo de Asti, decapitado, Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, Sidwel de Exeter, decapitado, Sinforiano de Autun, idem, Sisto, idem, Tarcísio, lapidado, Tecla de Icónio, amputada e queimada, Teodoro, fogueira, Tibúrcio, decapitado, Timóteo de Éfeso, lapidado, Tirso, serrado, Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, Tropez de Pisa, decapitado, Urbano, idem, Valéria de Limoges, idem, Valeriano, idem, Venâncio de Camerino, degolado, Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, Vital de Ravena, lança, Vítor, decapitado, Vítor de Marselha, degolado, Vitória de Roma, morta depois de ter a língua arrancada, Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, virgem, barbuda, crucificada, e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta."

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

Mártires da Igreja (III)

"Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, Donato de Arezzo, decapitado, Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, Emérita, queimada, Emílio de Trevi, decapitado, Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, Engrácia de Saragoça, decapitada, Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabestrante, Escubículo, decapitado, Ésquilo da Suécia, lapidado, Estêvão, lapidado, Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, Eulália de Mérida, decapitada, Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, Fabião, espada e cardas de ferro, Fé de Agen, degolada, Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, Félix e o seu irmão Adaucto, idem, Ferreolo de Besançon, decapitado, Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, Filomena, flechas e âncora, Firmim de Pamplona, decapitado, Flávia Domitília, idem, Fortunato de Évora, talvez idem, Frutuoso de Tarragona, queimado, Gaudêncio de França, decapitado, Gelásio, idem mais cardas de ferro, Gengoulph de Borgonha, corno, assassinado pelo amante da mulher, Gerardo Sagredo de Budapeste, lança, Gereão de Colónia, decapitado, Gervásio e Protásio, gémeos, idem, Godeliva de Ghistelles, estrangulada, Goretti Maria, idem, Grato de Aosta, decapitado, Hermenegildo, machado, Hierão, espada, Hipólito, arrastado por um cavalo, Inácio de Azevedo, morto pelos calvinistas, estes não são católicos, Inês de Roma, esventrada, Januário de Nápoles, decapitado depois de ter sido lançado às feras e atirado para dentro de um forno, Joana d'Arc, queimada viva, João de Brito, degolado, João Fisher, decapitado, João Nepomuceno de Praga, afogado, Juan de Prado, apunhalado na cabeça, Júlia de Córsega, cortaram-lhe os seios e depois crucificaram-na, Juliana de Nicomedia, decapitada, Justa e Rufina de Sevilha, uma na roda, outra estrangulada, Justina de Antioquia, queimada com pez a ferver e decapitada, Justo e Pastor, mas não este que aqui temos, de Alcalá de Henares, decapitado, Killian de Würzburg, decapitado, Léger d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua, Leocádia de Toledo, fraguada do alto de um rochedo, Liévin de Gand, arrancaram-lhe a língua e decapitaram-no, Longuinhos, decapitado, Lourenço, queimado numa grelha, Ludmila de Praga, estrangulada, Luzia de Siracusa, degolada depois de lhe arrancarem os olhos, Magino de Tarragona, decapitado com uma foice serrilhada, Mamede de Capadócia, estripado, Manuel, Sabel e Ismael, o Manuel com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, todos degolados, Margarida de Antioquia, tocha e pente de ferro, Mário da Pérsia, espada, amputação das mãos, Martinha de Roma, decapitada, os mártires de Marrocos, Bernardo de Cobio, Pedro de Germianino, Otão, Adjuto e Acúrsio, degolados, os do Japão, vinte e seis crucificados, alanceados e queimados, Maurício de Agaune, espada, Meinard de Einsiedeln, maça, Menas de Alexandria, espada, Mercúrio da Capadócia, decapitado, Moro Tomás, idem, Nicásio de Reims, idem, Odília de Huy, flechas, Pafnúcio, crucificado, Paio, esquartejado, Pancrácio, decapitado, Pantaleão de Nicomedia, idem, Pátrocles de Troyes e de Soest, idem, Paulo de Tarso, a quem deverás a tua primeira Igreja, idem, Pedro de Rates, espada, Pedro de Verona, cutelo na cabeça e punhal no peito, Perpétua e Felicidade de Cartago, a Felicidade era escrava da Perpétua, escorneadas por uma vaca furiosa, Piat de Tournai, cortaram-lhe o crânio, Policarpo, apunhalado e queimado, Prisca de Roma, comida pelos leões, Processo e Martiniano, a mesma sorte, julgo eu, Quintino, pregos na cabeça e outras partes, Quirino de Ruão, crânio cortado em cima, Quitéria de Coimbra, decapitada pelo próprio pai, um horror, Renaud de Dortmund, maço de pedreiro, Reine de Alise, gládio, Restituta de Nápoles, fogueira, Rolando, espada, Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, ainda não estás farto, perguntou Deus a Jesus, e Jesus respondeu, Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio, (...)"

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

Mártires da Igreja (II)

"Deus suspirou e, no tom monocórdico de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por ordem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto por um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morto na fogueira, Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, Apolinário de Ravena, morto a golpes de maça, Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, Augusta de Treviso, morta por decapitação e queimada, Aura de Óstia, morta por afogamento com uma mó ao pescoço, Áurea de Síria, morta por dessangramento, sentada numa cadeira forrada de cravos, Auta, morta à frechada, Balilas de Antioquia, morto por decapitação, Bárbara de Nicodemia, morta por decapitação, Barnabé de Chipre, morto por delapidação e queimado, Beatriz de Roma, morta por estrangulamento, Benigno de Dijon, morto à lançada, Blandina de Lião, morta a cornadas de um touro bravo, Brás de Sebaste, morto por cardas de ferro, Calisto, morto com uma mó ao pescoço, Cassiano de Ímola, morto pelos seus alunos com um estilete, Castulo, morto por enterramento em vida, Catarina de Alexandria, morta por decapitação, Cecília de Roma, morta por degolamento, Cipriano de Cartago, morto por decapitação, Ciro de Tarso, morto, ainda criança, por um juiz que lhe bateu com a cabeça nas escadas do tribunal, Claro de Nantes, morto por decapitação, Clemente, morto por afogamento com uma âncora ao pescoço, Crispim e Crispiano de Soissons, mortos por decapitação, Cristina de Bolsano, morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes, flechas e serpentes, Cucufate de Barcelona, morto por esventramento, chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, já são poucas as variações possíveis, excepto as de pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui, (...)"

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

(Jean-François Millet)

Mártires da Igreja (I)

A propósito do último estádio do desenvolvimento moral de Kohlberg, lembro-me sempre dos santos e, em especial, dos mártires. Não sei se conseguem ler a lista conhecendo os nomes da nossa memória colectiva, ditos todos de enfiada, sem se comoverem. Eu não consigo.

"Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, Insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas, Finalmente, estás a ser claro e directo, continua, Para começar por quem tu conheces e amas, o pescador Simão, a quem chamarás Pedro, será, como tu, crucificado, mas de cabeça para baixo, crucificado também há-de ser André, numa cruz em forma de X, ao filho de Zebedeu, aquele que se chama Tiago, degolá-lo-ão, E João, e Maria de Magdala, Esses morrerão de sua natural morte, quando se lhes acabarem os dias naturais, mas outros amigos virás a ter, discípulos e apóstolos como os outros, que não escaparão aos suplícios, é o caso de um Filipe, amarrado à cruz e apedrejado até se lhe acabar a vida, um Bartolomeu, que será esfolado vivo, um Tomé, que matarão à lançada, um Mateus, que não me lembro agora de como morrerá, um outro Simão, serrado ao meio, um Judas, a golpes de maça, outro Tiago, lapidado, um Matias, degolado com acha-de-armas, e também Judas de Escariote, mas desse virás tu a saber melhor do que eu, salvo a morte, por suas próprias mãos enforcado numa figueira, Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já to disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas, Conta, quero saber tudo."

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

sábado, fevereiro 12, 2005

Agradecimento

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado à entrada "Cocktail sobre masculinidade nos dias de hoje": muito obrigada!

Rapariga a ler


(Jean-Honoré Fragonard)

Onde é que já vi esta rapariga antes?

Registo

Jerónimo critica estalinismo

"Não copiamos nem temos saudades do modelo." O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, criticou, anteontem, os "desvios" verificados na União Soviética nos tempos da liderança de José Estaline. Em entrevista à TVI, o líder político reconheceu a existência de duas fases da experiência comunista na Rússia, sendo a última de "perda, de adulteração dos objectivos" iniciais da Revolução de Outubro. "Antes da 'Perestroika' já havia sinais de desvio", afirmou depois de questionado sobre o Estalinismo. "Foi a destruição de um processo pioneiro em termos de construção humana", tendo acrescentado que esse projecto foi "derrotado com consequências dramáticas para os povos daqueles países e até para os trabalhadores dos outros países".

(Público de hoje)

Delta



"O rio bifurca-se sucessivamente no delta. Assim são também os pensamentos. Queria, com um sorriso, construir um mais perfeito delta de sinapses no teu cérebro."

Marca

Que marca poderemos deixar no mundo? Teremos um simples grão de areia para atirar para o Grande Mecanismo?

Sabedoria

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

(José Régio)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Pintassilgo


(Frances Le Marchant)

A Regra de Ouro

"Não faças aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti."

Aceite por diferentes culturas e religiões. Uma base para o entendimento entre seres humanos.

(Mais versões da "ética da reciprocidade" aqui.)

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Liberdade e igualdade

Aprecio a clareza com que neoliberais como o autor d'O Observador defendem os seus pontos de vista. No entanto, gostaria de ter alguma base de consenso para, a partir daí, ser possível o diálogo. Mas não sei qual possa ser. Porque me parece que ele não concorda com este texto:

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."

(Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. 1.º).


Nem com este:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

(Constituição da República Portuguesa, Art. 13.º - Princípio da igualdade).


Tenho quase a impressão de que, em nome do princípio da liberdade, AAA venderia a própria mãe...

Cocktail sobre masculinidade nos dias de hoje

1. Livro "Y: A Descendência do Homem", de Steve Jones (Gradiva).

2. Opiniões masculinas favoráveis ao filme "Lost in translation", para lá das opiniões favoráveis a Scarlett Johansson.

3. Anúncio a internet wireless em que o marido duvida imediatamente da lealdade da mulher que chegou tarde a casa.

Shake over ice.

Dentes-de-leão


(Jean-François Millet)

The passionate shepherd to his love

Come live with me and be my love,
And we will all the pleasures prove
That valleys, groves, hills, and fields,
Woods or steepy mountain yields.

And we will sit upon the rocks,
Seeing the shepherds feed their flocks,
By shallow rivers to whose falls
Melodious birds sing madrigals.

And I will make thee beds of roses
And a thousand fragrant posies,
A cap of flowers, and a kirtle
Embroidered all with leaves of myrtle;

A gown made of the finest wool
Which from our pretty lambs we pull;
Fair lined slippers for the cold,
With buckles of the purest gold;

A belt of straw and ivy buds,
With coral clasps and amber studs:
And if these pleasures may thee move,
Come live with me and be my love.

The shepherds' swains shall dance and sing
For thy delight each May morning:
If these delights thy mind may move,
Then live with me and be my love.


(Christopher Marlowe)

Agradecimentos

Aos blogs H Gasolim Ultramarino, pelas palavras simpáticas; A Caminho, pela recomendação; e Por Tu Graal, Luis Moutinho e Boticário de Província, pela atenção: obrigada!

Mulher a ler

Laurindinha põe a máscara de gente de carne e osso e vai à feira do livro de Lisboa de 2004, que está no seu segundo dia. Faz a melhor colheita do ano: três livros que são três clássicos do século XX e que, por uma razão ou por outra, só muito recentemente foram editados ou reeditados. Um já foi lido, emprestado, em edição esgotadíssima. Está um tempo morno, mas com uma brisa agradável, daquelas que uma primavera em Lisboa nos oferece. Vai até à esplanada panorâmica e pede uma água fresca. Senta-se e contempla o casario de Lisboa, o castelo e o Tejo. Ouve ao lado que, lá longe, é o castelo de Palmela. Abre os sacos, cheira os livros e folheia-os com curiosidade. Por detrás da máscara, Laurindinha sorri.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Máscaras


(Jeff Booth)

“A mask tells us more than a face”
(Oscar Wilde)

Arquivos da internet

O acidente do Local & Blogal (um clique em "Delete this blog"?) levou-me a concluir que o projecto archive.org ficou muito aquém do prometido. Estará aqui uma oportunidade de negócio?

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

S.O.S.

O António Baeta Oliveira, leitor honorário deste blog por em tempos ter salvo umas quantas entradas de serem apagadas, teve um terrível acidente com o seu singular Local & Blogal. A cache do Google não parece ser, neste caso, de grande utilidade.

Se alguém que por aqui passar souber como pode ajudá-lo...

O sentido

"Lembras-te da injecção de adrenalina no coração, no 'Pulp Fiction'? Às vezes, acho que precisava de uma injecção assim, mas para me restituir o sentido da vida."

Mais livre

Há, pelo menos, uma situação em que me sinto mais livre do que os outros. É quando me falam sobre o ritual de assistir a uma qualquer série de televisão, que até reconheço ser inteligente, mas que dispenso.

Folhas


2 little whos

2 little whos
(he and she)
under are this
wonderful tree

smiling stand
(all realms of where
and when beyond)
now and here

(far from a grown
-up i&you-
ful world of known)
who and who

(2 little ams
and over them this
aflame with dreams
incredible is)

e.e. cummings

S.f.f.

Estou a ficar com síndrome de abstinência da versão em linha da edição impressa do Público. Não há quem dê umas palmadinhas no servidor?

Adenda: Obrigada!

Fractura



Um dia, há alguns anos, pensei que tinha acordado num país civilizado. A discussão no parlamento, no dia anterior, tinha-se prolongado até tarde, pelo que só de manhã, quando liguei o rádio, é que soube que tinha sido aprovada a despenalização do aborto. Fiquei radiante! Quando, uns minutos mais tarde, me encontrei com uma amiga, só faltou beliscarmo-nos uma à outra. Depois, vieram a astúcia do Professor Marcelo e o catolicismo do Engenheiro Guterres e voltámos a ser o país do costume.

domingo, fevereiro 06, 2005

Preciosismos

O site Público.pt oferece-nos serviços de inquestionável valor. Por isso, o meu agradecimento. Mas já alguma vez repararam que a edição impressa não é colocada em linha às 5h00, como é indicado? E que as edições dos Domingos parecem sempre ter sido feitas por um demiurgo trapalhão? Um demiurgo que, hoje, adormeceu...

Pequenos mistérios no processo de fabricação de blogs

1. Por que será que os números do Technorati para cada blog variam constantemente, no tempo e também da página de cada blog para as página de outros blogs?

2. Por que será que o Blogger deixou de contar o número de entradas de cada utilizador?

3. Por que é que, no Blogger, o ícone para edição de entradas "expresso" só aparece de tempos a tempos?

4. Por que é que o relógio do Blogger que insere a hora em que uma entrada é enviada anda sempre trocado?

5. E, finalmente, por que é que algumas entradas aparecem com a indicação de que não têm comentários do Haloscan quando, na realidade, os têm?

Mulher a ler no jardim


(Mary Cassatt)

Dear Connie

The Grange Farm Old Heanor 29 September

I got on here with a bit of contriving, because I knew Richards, the company engineer, in the army. It is a farm belonging to Butler and Smitham Colliery Company, they use it for raising hay and oats for the pit-ponies; not a private concern. But they've got cows and pigs and all the rest of it, and I get thirty shillings a week as labourer. Rowley, the farmer, puts me on to as many jobs as he can, so that I can learn as much as possible between now and next Easter. I've not heard a thing about Bertha. I've no idea why she didn't show up at the divorce, nor where she is nor what she's up to. But if I keep quiet till March I suppose I shall be free. And don't you bother about Sir Clifford. He'll want to get rid of you one of these days. If he leaves you alone, it's a lot.

I've got lodging in a bit of an old cottage in Engine Row very decent. The man is engine-driver at High Park, tall, with a beard, and very chapel. The woman is a birdy bit of a thing who loves anything superior.

King's English and allow-me! all the time. But they lost their only son in the war, and it's sort of knocked a hole in them. There's a long gawky lass of a daughter training for a school-teacher, and I help her with her lessons sometimes, so we're quite the family. But they're very decent people, and only too kind to me. I expect I'm more coddled than you are.

I like farming all right. It's not inspiring, but then I don't ask to be inspired. I'm used to horses, and cows, though they are very female, have a soothing effect on me. When I sit with my head in her side, milking, I feel very solaced. They have six rather fine Herefords. Oat-harvest is just over and I enjoyed it, in spite of sore hands and a lot of rain. I don't take much notice of people, but get on with them all right. Most things one just ignores.

The pits are working badly; this is a colliery district like Tevershall. only prettier. I sometimes sit in the Wellington and talk to the men. They grumble a lot, but they're not going to alter anything. As everybody says, the Notts-Derby miners have got their hearts in the right place. But the rest of their anatomy must be in the wrong place, in a world that has no use for them. I like them, but they don't cheer me much: not enough of the old fighting-cock in them. They talk a lot about nationalization, nationalization of royalties, nationalization of the whole industry. But you can't nationalize coal and leave all the other industries as they are. They talk about putting coal to new uses, like Sir Clifford is trying to do. It may work here and there, but not as a general thing. I doubt. Whatever you make you've got to sell it. The men are very apathetic. They feel the whole damned thing is doomed, and I believe it is. And they are doomed along with it. Some of the young ones spout about a Soviet, but there's not much conviction in them. There's no sort of conviction about anything, except that it's all a muddle and a hole. Even under a Soviet you've still got to sell coal: and that's the difficulty.

We've got this great industrial population, and they've got to be fed, so the damn show has to be kept going somehow. The women talk a lot more than the men, nowadays, and they are a sight more cock- sure. The men are limp, they feel a doom somewhere, and they go about as if there was nothing to be done. Anyhow, nobody knows what should be done in spite of all the talk, the young ones get mad because they've no money to spend. Their whole life depends on spending money, and now they've got none to spend. That's our civilization and our education: bring up the masses to depend entirely on spending money, and then the money gives out. The pits are working two days, two and a half days a week, and there's no sign of betterment even for the winter. It means a man bringing up a family on twenty-five and thirty shillings. The women are the maddest of all. But then they're the maddest for spending, nowadays.

If you could only tell them that living and spending isn't the same thing! But it's no good. If only they were educated to live instead of earn and spend, they could manage very happily on twenty-five shillings. If the men wore scarlet trousers as I said, they wouldn't think so much of money: if they could dance and hop and skip, and sing and swagger and be handsome, they could do with very little cash. And amuse the women themselves, and be amused by the women. They ought to learn to be naked and handsome, and to sing in a mass and dance the old group dances, and carve the stools they sit on, and embroider their own emblems. Then they wouldn't need money. And that's the only way to solve the industrial problem: train the people to be able to live and live in handsomeness, without needing to spend. But you can't do it. They're all one-track minds nowadays. Whereas the mass of people oughtn't even to try to think, because they can't. They should be alive and frisky, and acknowledge the great god Pan. He's the only god for the masses, forever. The few can go in for higher cults if they like. But let the mass be forever pagan.

But the colliers aren't pagan, far from it. They're a sad lot, a deadened lot of men: dead to their women, dead to life. The young ones scoot about on motor-bikes with girls, and jazz when they get a chance, But they're very dead. And it needs money. Money poisons you when you've got it, and starves you when you haven't.

I'm sure you're sick of all this. But I don't want to harp on myself, and I've nothing happening to me. I don't like to think too much about you, in my head, that only makes a mess of us both. But, of course, what I live for now is for you and me to live together. I'm frightened, really. I feel the devil in the air, and he'll try to get us. Or not the devil, Mammon: which I think, after all, is only the mass-will of people, wanting money and hating life. Anyhow, I feel great grasping white hands in the air, wanting to get hold of the throat of anybody who tries to live, to live beyond money, and squeeze the life out. There's a bad time coming. There's a bad time coming, boys, there's a bad time coming! If things go on as they are, there's nothing lies in the future but death and destruction, for these industrial masses. I feel my inside turn to water sometimes, and there you are, going to have a child by me. But never mind. All the bad times that ever have been, haven't been able to blow the crocus out: not even the love of women. So they won't be able to blow out my wanting you, nor the little glow there is between you and me. We'll be together next year. And though I'm frightened, I believe in your being with me. A man has to fend and fettle for the best, and then trust in something beyond himself. You can't insure against the future, except by really believing in the best bit of you, and in the power beyond it. So I believe in the little flame between us. For me now, it's the only thing in the world. I've got no friends, not inward friends. Only you. And now the little flame is all I care about in my life. There's the baby, but that is a side issue. It's my Pentecost, the forked flame between me and you. The old Pentecost isn't quite right. Me and God is a bit uppish, somehow. But the little forked flame between me and you: there you are! That's what I abide by, and will abide by, Cliffords and Berthas, colliery companies and governments and the money- mass of people all notwithstanding.

That's why I don't like to start thinking about you actually. It only tortures me, and does you no good. I don't want you to be away from me. But if I start fretting it wastes something. Patience, always patience. This is my fortieth winter. And I can't help all the winters that have been. But this winter I'll stick to my little Pentecost flame, and have some peace. And I won't let the breath of people blow it out. I believe in a higher mystery, that doesn't let even the crocus be blown out. And if you're in Scotland and I'm in the Midlands, and I can't put my arms round you, and wrap my legs round you, yet I've got something of you. My soul softly Naps in the little Pentecost flame with you, like the peace of fucking. We fucked a flame into being. Even the flowers are fucked into being between the sun and the earth. But it's a delicate thing, and takes patience and the long pause.

So I love chastity now, because it is the peace that comes of fucking. I love being chaste now. I love it as snowdrops love the snow. I love this chastity, which is the pause of peace of our fucking, between us now like a snowdrop of forked white fire. And when the real spring comes, when the drawing together comes, then we can fuck the little flame brilliant and yellow, brilliant. But not now, not yet! Now is the time to be chaste, it is so good to be chaste, like a river of cool water in my soul. I love the chastity now that it flows between us. It is like fresh water and rain. How can men want wearisomely to philander. What a misery to be like Don Juan, and impotent ever to fuck oneself into peace, and the little flame alight, impotent and unable to be chaste in the cool between-whiles, as by a river.

Well, so many words, because I can't touch you. If I could sleep with my arms round you, the ink could stay in the bottle. We could be chaste together just as we can fuck together. But we have to be separate for a while, and I suppose it is really the wiser way. If only one were sure.

Never mind, never mind, we won't get worked up. We really trust in the little flame, and in the unnamed god that shields it from being blown out. There's so much of you here with me, really, that it's a pity you aren't all here.

Never mind about Sir Clifford. If you don't hear anything from him, never mind. He can't really do anything to you. Wait, he will want to get rid of you at last, to cast you out. And if he doesn't, we'll manage to keep clear of him. But he will. In the end he will want to spew you out as the abominable thing.

Now I can't even leave off writing to you.

But a great deal of us is together, and we can but abide by it, and steer our courses to meet soon. John Thomas says good-night to Lady Jane, a little droopingly, but with a hopeful heart.


(in "Lady Chatterley's Lover", D.H. Lawrence)

sábado, fevereiro 05, 2005

D. Sebastião, rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

Fogo


(Giuseppe Arcimboldo)

Conversa de gin tónico

Caro JVC,

Obrigada pelo convite para o gin tónico!

O JVC concorda com o direito ao casamento de casais homossexuais, mas tem dúvidas sobre o direito à adopção por parte destes casais.

Sobre este assunto, sobre o qual também tenho dúvidas, chamou-me a atenção um artigo do Diário de Notícias de 3 de Outubro de 2004, a propósito da discussão sobre este tema que então ocorreu em Espanha (a catolicíssima Espanha), onde acabou por ser aprovado o direito à adopção por casais homossexuais. Nesse artigo é referido que
Dois estudos de 2002, um da Academia Americana de Pediatria e outro do Colégio Oficial de Psicólogos de Madrid pronunciaram-se a favor.
e ainda
«O importante de um lugar não é a sua forma exterior, se está construído em pedra ou em madeira. O mais importante, realmente, é que sirva para as funções de protecção que deve exercer», conclui o estudo do Colégio de Psicólogos. Neste, os peritos analisaram as dinâmicas familiares de 28 famílias «homoparentais» e encontraram «níveis elevados de afecto e comunicação e níveis geralmente baixos de conflito».

Há ainda outro argumento a favor do direito à adopção, mas é mais polémico: se a homossexualidade não é uma doença e também é dado aos pais o direito de educar os seus filhos na sua religião (e é assim que a religião se torna "hereditária"), porque não admitir que uma criança educada por pais homossexuais possa ter maior abertura para com a homossexualidade?

A mesma notícia refere ainda que
As vozes contra não põem em causa o amor e carinho com que os homossexuais podem educar uma criança. Mas defendem: «Para a identificação e maturação da sua personalidade precisam de um modelo feminino e masculino, diferenciado anatómica e psiquicamente.».
Mas é ao Estado que compete encontrar os modelos ideiais de pais (tipo Barbie e Ken?), ou este deve simplesmente dar o apoio necessário a pais solteiros, divorciados ou viúvos, ou aos que dele precisem? Note-se que o Estado já permite a adopção a pessoas "singulares", caso em que não estão presentes os tais modelos masculino e feminino, o que indica que este factor não foi considerado assim tão decisivo.

Em conclusão, neste momento sinto-me inclinada a pensar que os espanhóis fizeram uma escolha acertada.


Nota: o artigo do DN já tinha sido referido aqui no dia da sua publicação. Na altura chamou-me a atenção especialmente por entre os opositores da adopção não serem citados nomes ou instituições, ao contrário do que acontecia com as associações de psicólogos que se pronunciaram a favor da adopção.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Agradecimento

Muito obrigada ao Bomba Inteligente pelo destaque dado a este Abrigo!

Rêvé pour l'hiver

L'hiver, nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.

Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée...
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras : "Cherche!" en inclinant la tête,
- Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
- Qui voyage beaucoup...


(Arthur Rimbaud)

(Harmenszoon van Rijn Rembrandt)

Elderly power

Tinha pensado interrogar-me aqui sobre o que acontecerá quando o envelhecimento da população for tal que a maioria da população tenha mais de sessenta e cinco anos. Mas o processo já começou. É só uma questão de extrapolar as tendências actuais.

Quererão as pessoas com mais de sessenta e cinco anos e menos de setenta reformar-se o mais depressa possível? Deve haver os dois tipos de pessoas, os que sim e os que não, embora a reforma tenha surgido e sido conquistada como corolário de um percurso de trabalho não necessariamente gratificante e como um período de descanso e de disponibilidade para fazer o que antes não era possível: viajar, ler mais, fazer jardinajem, etc. De que forma poderão os partidos, na definição das suas políticas, ir ao encontro destes anseios?

Há ainda que ter em consideração que os mais idosos que se mantiverem activos vão ser menos produtivos, porque as suas capacidades físicas e intelectuais vão diminuindo naturalmente. Além disso, no mercado de trabalho, a experiência é cada vez menos valorizada relativamente à capacidade de adaptação a novas situações, que surgem a uma velocidade cada vez maior. Quer sejam desenvolvimentos tecnológicos ou alterações de paradigmas de gestão, tudo muda, constantemente. Espera-se que os trabalhadores percorram muitos empregos, uma vez que as empresas poderão muito mais facilmente abrir e fechar portas e fazer reestruturações. Agora pergunto: como é que uma pessoa com mais de sessenta e cinco anos pode acompanhar este ritmo? Dos sessenta e cinco aos sessenta e oito, com subsídios de desemprego. E depois? Com formação profissional? Vão aprender Power Point? Ou turismo?

Por outro lado, conta-se com a mão de obra dos imigrantes para suportar as reformas. Com filhos que exigirão aulas suplementares de português. Os de leste mais do que os dos PALOP, mas para estes últimos foram sempre muito insuficientes, ou mesmo inexistentes. Se o ensino se liberalizar da forma que agora alguns defendem, se a escola pública se tornar num pequenino gueto, se em tudo ficarmos iguais, na educação, aos Estados Unidos, isso será bom?

Os idosos quererão centros de dia, cuidados domésticos periódicos, eventualmente diários, locais em que se prestem cuidados paliativos em condições dignas. Nem todos terão a possibilidade de comprar uma velhice dourada, em condomínio de reformados...

Poderá manter-se o paternalismo e a demagogia com que os políticos tratam os mais velhos? Por quanto tempo?

Ucranianas

Ontem contaram-me que há mulheres ucranianas a trabalhar em Portugal como empregadas domésticas e a ganhar um euro e meio por hora. Um euro e meio! Se fizerem as contas, percebem que não chega ao salário mínimo. Provavelmente, estão ilegais, pelo que não terão direito a segurança social ou a um seguro de trabalho. E não serão descobertas por nenhuma inspecção...

Como é que há pessoas capazes de sujeitar-se a um salário assim? Como é que há quem lhes pague tão pouco?

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Lendo as notícias


(James Jacques Joseph Tissot)

The soul selects her own society

The soul selects her own society,
Then shuts the Door;
On her divine Majority
Obtrude no more.

Unmoved, she notes the Chariots pausing
At her low Gate;
Unmoved, an Emperor be kneeling
Upon her Mat.

I've known her from an ample nation
Choose one;
Then close the valves of her attention
Like stone.


(Emily Dickinson)

O drama do bebé 81

No Sri Lanka, um bebé sobrevivente do maremoto e uma multidão de mulheres que se dizem suas mães e querem ficar com ele.

Já não há sabedoria salomónica? Nem testes de ADN?

Prémio

Para a pior sinalética que já vi num hospital. Entre idosos atarantados e perdidos. O vencedor é o Hospital Amadora-Sintra.

Totonegócio

Mas alguém ainda jogou no Totobola depois do Totonegócio? Há coisas que não entendo.

Parede de xisto

Gabriel, ou uma história singela

Foi a voz. A barba e o cabelo compridos e muito pretos e todo o figurino de vagabundo não chamaram a atenção dela. Estava encostado a uma caixa de electricidade, dessas que há pelas ruas, pouco menores do que um homem. Perto, havia uma paragem de autocarros, e várias senhoras idosas faziam fila à espera do seu autocarro. Uma meteu-se com ele. Que não devia pedir ali, que se precisava devia ir à igreja ali mesmo ao pé. Ele murmurou qualquer coisa sobre não pertencer àquela paróquia. Ela replicou, mais agressiva. E foi então que a voz se lhe abriu, para dizer: "Vocês não compreendem nada!". Era uma voz clara e doce, muito doce. E ela só ouviu esta voz, que pressentiu poder ser a do seu salvador, porque o autocarro passou naquele momento e porque estava sentada perto da porta, quando esta se abriu.

Dias depois, ela dirigiu-se-lhe, oferecendo-se para lhe pagar um corte de barba e cabelo no barbeiro da rua e um fato novo. Foram os dois até casa dela, onde ele tomou um banho e vestiu o fato, envergonhado. Foi sempre ela que falou, e falou-lhe, a sorrir, na "vidinha de pequena-burguesa" que levava. Ele manteve-se calado. Tomou o pequeno-almoço. Ela quis ir com ele à Segurança Social ou ao Centro de Emprego. Então, ele disse, em voz baixa, que já estava inscrito. Olharam-se nos olhos. Ela ganhou coragem e perguntou-lhe como tinha acabado assim. E ele contou que tinha ficado viúvo e que perdera o interesse pelo trabalho, pelas refeições, pela higiene e, finalmente, pela vida. Perdera o emprego e, pouco a pouco, tudo o resto. Afogou as mágoas em todas as formas de álcool.

Quis morrer. Mas não é fácil, a morte. Podia facilmente comprar uma corda, mas onde é que se encontra onde enlaçá-la? E como chegar lá? Um dia, foi a uma loja de produtos para a agricultura pedir 605 Forte, mas a senhora que o atendeu olhou para ele e, clarividente, mandou-o embora.

Ela propôs-lhe que procurassem um trabalho para ele. Iriam responder a anúncios, percorrer ruas e lojas, inscrever-se em empresas intermediárias, até encontrar alguma coisa. E encontraram. Um trabalho pouco qualificado, mas que lhe permitiu pagar um quarto numa pensão. Seis meses depois, encontrou um emprego melhor.

Nunca mais se viram. Aliás, nem chegaram a saber o nome um do outro.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Optimismo relativo

No ranking dos países relativamente à taxa de mortalidade infantil do The World Factbook, da CIA, actualizado a 27 de Janeiro de 2005, Portugal surge em 201.º lugar, com uma taxa de 5,13 mortes no primeiro ano de vida por mil nados vivos. Melhor do que a média da União Europeia, o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos.

No 1.º lugar do ranking está Angola, com uma taxa de 192,50 por mil, e no 226.º e último lugar está Singapura, com 2,28 mortes por mil nados vivos.

(Hubert Steed)

A abstenção, de novo

A abstenção é um "tema fracturante" entre os leitores do AdP. Dizem os abstinentes (só pelo nome, já deviam ter vergonha!) ou que não há escolha, porque todos os partidos são iguais, ou que são os políticos portugueses que sofrem de uma maleita generalizada que os torna preguiçosos e corruptos.

Posso conceder que, actualmente, não há muito lugar para a imaginação dentro dos partidos e que os políticos que temos são um reflexo da sociedade que somos.

Dito isto, o que pode ser feito? Até me parece bem simples, depois do que escrevi: procurar ter ideias criativas (e os blogs são um bom meio para as divulgar) e procurar ser melhor no dia-a-dia, nomeadamente a nível da participação cívica.

Agora pergunto-me: será que os abstencionistas são pessoas que intervêm de forma activa e original na sua comunidade? Ou será que são os que, quer seja numa aasembleia de meia dúzia de pessoas, quer seja nas eleições a nível nacional, estão só disponíveis para criticar destrutuivamente, e nunca para propor alternativas?

É que me parece que a auto-responsabilização, que é também uma emancipação de um estado de impotência infantil, a nível de participação democrática, começa nas pequenas coisas.


Ver também: "Os políticos profissionais", "Sobre a abstenção", "E se...?", "O azul dos olhos de Salgueiro Maia" e "Curioso".

Nota: há ainda outro motivo, mais prosaico, para se ir votar. Em termos de contagens das percentagens de votos dos partidos, não é a mesma coisa um abstencionista, um voto em branco, um voto num partido sem representação parlamentar e um voto num partido com representação parlamentar.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Sonnets from the Portuguese

XLIII

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.

I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints, - I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! - and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


(Elizabeth Barrett Browning)

Estudo


(Frederic Leighton)