terça-feira, novembro 30, 2004

18:46

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

(Luís Vaz de Camões)

Noites

1. Voo

Ela desce, atabalhoadamente, de um salto de um décimo andar. A roupa não ondula, nem há nenhuma “echarpe” flutuante, como nos filmes e nos sonhos, mas não há tempo para reparar nisso. Estes breves instantes condensam a satisfação de ter tido a coragem de tomar o seu destino completamente nas suas mãos – o acto de mais completo uso da sua liberdade – e do alívio que sentirá daqui a poucos segundos, porque todo o insuportável sofrimento que monopolizou a sua vida terá, em breve, um fim.

O sangue parece subir-lhe à cabeça, e os nervos estão incrivelmente tensos. No último instante, lembra-se de alguém e invoca o seu nome, como prometera a si própria fazer, há muitos anos. Alguém que não podia deixar de estar presente neste momento decisivo.

Toda a vida passa, então, num segundo, pela sua mente. Não se pode dizer que não viveu, que não viajou – pelo mundo, pelas emoções, pelas sensações, pelas ideias. Não procurou o limite dessas coisas, mas saboreou tudo o que teve, saboreou muito. Foi um patinho feio que nunca se transformou em cisne. Catrapum!


2. Mergulho

Ela desce no azul líquido e baço, o corpo e os cabelos ondulam, e as últimas bolhas de ar abandonam o seu corpo. Viveu encarcerada na sua solidão. Há uma corda atada a uma pedra que ela atou a um tornozelo. Não vai ser um truque de Houdini. A aflição é enorme; ela debate-se e, depois, chora porque sabe que é assim que tem de ser, que somos todos apenas formigas efémeras no formigueiro, que não vale a pena lutar por mais. As formigas não têm o direito de olhar para as estrelas, caro Oscar Wilde... Só de transformar-se em húmus.

domingo, novembro 28, 2004

Observação com espírito aberto

As moles de caras anónimas dos transportes públicos sempre me fascinaram. Não apenas aqueles rostos de adolescentes de beleza resplandecente, não apenas a fealdade cansada da maioria que trabalha e sobrevive, mas, por baixo da superfície, a unicidade de cada ser humano, a sua história de sonhos e conquistas de todos desconhecida, mas nem por isso menos preciosa.

“Cada ser humano é um mundo.” Não interessam as rugas, as olheiras, os papos, todas as imperfeições. Cada ser humano poderia, em princípio, ser meu amigo. Por que não?

sexta-feira, novembro 26, 2004

Os impuros

Javé disse a Moisés e Aarão: «Quando alguém tiver na pele uma inflamação, um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra, será levado diante do sacerdote Aarão ou de um dos seus filhos sacerdotes. O sacerdote examinará a parte afectada. Se no lugar doente o pêlo se tornou branco e a doença ficou mais profunda na pele, é caso de lepra. Depois de o examinar, o sacerdote declará-lo-á impuro. Mas se há sobre a pele uma mancha branca, sem depressão visível da pele, e o pêlo não se tornou branco, o sacerdote isolará o doente durante sete dias. No sétimo dia examinará de novo o doente: se observar que a doença permanece sem se espalhar pela pele, tornará a isolá-lo por mais sete dias; no sétimo dia, examiná-lo-á novamente. Se então verificar que a mancha não ficou mais branca e não se espalhou pela pele, o sacerdote declarará puro o homem, pois trata-se de um furúnculo. A pessoa lavará a sua roupa e ficarará pura. Mas se o furúnculo se alastrar sobre a pele depois de o enfermo ter sido examinado pelo sacerdote e declarado puro, ele deverá apresentar-se de novo ao sacerdote. O sacerdote examiná-lo-á; se observar que o furúnculo se alastrou sobre a pele, o sacerdote declará-lo-á impuro: trata-se de lepra.»

(Levítico, 13:1-8)

Prémio Raoul Follereau do AdP

Direitinho para António Baeta Oliveira, que livrou este blog da lepra anunciada...

quinta-feira, novembro 25, 2004

Lepra de blog

Algumas entradas deste blog que não têm comentários poderão desaparecer nos próximos dias.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Rui Gomes da Silva passa a ministro-adjunto do primeiro-ministro

Alguém me explica que país é este? Não é contraditório de mais? Será que alguém acha que esta criatura precisa de salários de ministro por mais uns meses para pagar as dívidas ao fisco? Serão todos membros de uma sociedade secreta? De desavergonhados?

terça-feira, novembro 23, 2004

Biberão de consumismo

A lei da oferta e da procura tem efeitos positivos conhecidos na razão qualidade-preço dos produtos e serviços. No entanto, a publicidade altera as regras deste jogo, criando necessidades de consumo completamente artificiais. A manipulação é particularmente evidente quando os seus alvos são os mais jovens.

Como seria útil que houvesse uma limitação a uma frequência razoável da difusão dos habituais anúncios sobre brinquedos de Natal... Como não há, vamos ter que assistir até à náusea, por mais um ano, à exploração descarada da fragilidade das crianças.

"Os Poemas da Minha Vida"

Edição do Público, terá antologias de Mário Soares, Miguel Veiga, Freitas do Amaral, Urbano Tavares Rodrigues, Nuno Grande, Ramalho Eanes, Vasco Gonçalves e Marcelo Rebelo de Sousa.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Forças da natureza


Paul Gauguin, "Te Aa No Areois" ("A semente dos Areois"), 1892

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

A arte de contar contos

Há quem diga que o conto é uma das forma literárias mais difíceis. Talvez por isso os 6 Gigabytes de "webmail" no GMail não estejam a ser suficientemente apelativos e o concursozinho aqui lançado não tenha tido ainda nenhum participante...

Entrada anti-diários

Fiquei contente quando soube que o Círculo de Leitores tinha editado a poesia completa de Miguel Torga.

domingo, novembro 21, 2004

Cotovia


Cortesia de Carlos Pinheiro e Braganç@Net

Não interessam os modelos de topo de gama de marcas conceituadas de automóveis, nem carros de colecção, nem férias milionárias em ilhas paradisíacas do Pacífico.

Quem nunca acordou ao som do canto da cotovia ainda não sabe tudo sobre qualidade de vida.

Aves de Portugal



O desenho científico é difícil, mas os resultados podem ser obras de arte. Diz quem sabe que pode ser mais útil que a fotografia.

Há tesouros naturais portugueses que deviam ser desenhados exaustivamente e mostrados ao grande público. O livro "Guia das Aves Comuns de Portugal" (de vários autores, e edição da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) é um exemplo a seguir.

Há frases lapidares

"No entanto, antes de chegar ao verso final, já tinha percebido que não sairia nunca desse quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no momento em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra."

(in "Cem anos de solidão", Gabriel García Marquéz)

Livros e mais livros

No Parque das Nações, começou ontem uma feira do livro na FIL e termina hoje outra na Gare do Oriente.

Boas prendas de Natal...

O sabor da cereja


(Cortesia SCNAL)

Há ideias que atravessam culturas. E isso é bom.

sábado, novembro 20, 2004

Diálogo de surdos

Nos anos oitenta, em plena guerra fria e sob a ameaça da guerra nuclear, Sting cantava "I hope the Russians love their children too". Agora, ao saber dos raptos, assassinatos e atentados suicidas quotidianos no Iraque, pergunto-me se não haverá por lá gente que também ame os seus filhos, que tenha algum respeito pela vida humana. Pergunto-me como poderemos comunicar com aquele povo. Pergunto muitas vezes: como poderemos comunicar?

Arte de amar

Se vais para o amor como quem vai
pela primeira vez ao fogo das pelejas,
trata de procurar, antes de mais,
aquela a quem desejas.
Trata depois, então,
de conquistar o coração
da jovem que elegeste entre as demais mulheres.
E trata finalmente, em último lugar,
de esse amor prolongar
o mais que tu puderes.
Aqui tens o plano, nas suas grandes linhas.
Este vai ser de nosso carro o curso;
esta, a meta - que há-de ser atingida
no termo do percurso.

(Ovídio)

sexta-feira, novembro 19, 2004

Alerta

Um leitor diz num comentário que muita introspecção pode afastar as ovelhas. Pois bem. Foi colocada na coluna da direita uma ligação para o texto da constituição europeia, que é o que vai ser referendado. Isso e, como bem lembra Jorge Miranda, a supremacia deste texto sobre a constituição portuguesa.

Fim do SMO

Pronto. Agora já só somos defendidos por mercenários.

Lobo


Fonte: MEC, Espanha

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

(Alexandre O'Neill)

quinta-feira, novembro 18, 2004

Mulher lendo uma carta


(Pieter de Hooch)

Pedido de ajuda

Desculpem, talvez comece a abusar da solicitude que vós, leitores do AdP, têm tido a cada pedido de socorro da pastora... (Agradeço de novo!)

Procuro um esclarecimento. Como se faz um blog no blogger que tenha uma cópia sincronizada de outro?

Obrigada.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Lenço


Fonte: Lenços dos Namorados (excelente!)

Amoras


(Cortesia SCNAL)

As amoras

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

(Eugénio de Andrade)

sábado, novembro 13, 2004

Interpretations

A poet sits in a coffee shop, writing:
the old lady
thinks he is writing a letter to his mother,
the young woman
thinks he is writing a letter to his girlfriend,
the child
thinks he is drawing,
the businessman
thinks he is considering a deal,
the tourist
thinks he is writing a postcard,
the employee
thinks he is calculating his debts,
the secret policeman
walks slowly, towards him.

(Mourid Barghouti)

Direito de estimação

Artigo 21.º
(Direito de resistência)

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

(in Constituição da República Portuguesa, VI Revisão Constitucional, 2004)

quinta-feira, novembro 11, 2004

Como a comida quer o sal

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas, por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:

– Quero mais a meu pai do que à luz do Sol.

Respondeu a do meio:

– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.

A mais moça respondeu:

– Quero-lhe tanto como a comida quer o sal.



(Continua aqui.)

Como ganhar até 6 contas do GMail

Até ao dia 30 de Novembro, está aberto um concurso de contos e desenhos subordinados a um dos seguintes temas:

1) desenvolvimento da história contada na entrada "Como contar uma história?";
2) São Martinho;
3) Abrigo de Pastora.

Regras:

1. As participações deverão ser enviadas até ao dia 30 de Novembro para abrigodepastora[arroba]gmail[ponto]com (substituir a arroba e o ponto).
2. Há um mínimo de 3 e um máximo de 6 contas do GMail para distribuir.
3. Os vencedores serão conhecidos com a máxima brevidade possível.
4. As participações vencedoras serão publicadas no Abrigo de Pastora.
5. As restantes participações poderão ser ou não publicadas.

Participem e divulguem!

quarta-feira, novembro 10, 2004

GMail

Quem ainda não tem um endereço do GMail está disposto a esforçar-se para tê-lo? Quem quer propor uma forma de esta pastora decidir quem mais merece um convite?

História de estimação

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness." (Declaração de Independência dos E.U.A., 1776)

"All human beings are born free and equal in dignity and rights. They are endowed with reason and conscience and should act towards one another in a spirit of brotherhood." (Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948)

terça-feira, novembro 09, 2004

Sagrada Sabedoria


Hagia Sophia de Constantinopla

Há 15 anos, caiu o muro da vergonha. Se isso foi possível, ainda há algumas coisas possíveis. A convivência das tradições do cristianismo e do islamismo, na Turquia, é um exemplo. Demonstrado neste grande santuário.

domingo, novembro 07, 2004

Narcisos


(Fotografia de Christine Skelmersdale)

Jogo das cinco pedrinhas

Jogo praticado quase exclusivamente por raparigas, utilizando cinco pequenas pedrinhas arredondadas como material.

Conforme podemos observar na recolha elaborada pela Escola de S. Mamede em Évora, este jogo, desenvolve-se da seguinte forma:

Escolhe-se o local do jogo, que pode ser ao nível do chão, num degrau de escada, ou na soleira da porta. Depois de estabelecida a ordem de saída, com os jogadores dispostos em círculo inicia-se o jogo; as cinco pedrinhas são lançadas ao chão de forma a ficarem o mais juntas possível. O jogador agarra uma pedrinha, lança-a ao ar e apanha-a sem a deixar cair. Entretanto teve que tirar do conjunto que está no chão uma pedra e apanhar, com a mesma mão, a que está em queda. Junta novamente as cinco pedrinhas e lança-as de novo ao chão.

Repete a operação anterior, só que, quando lança a pedrinha ao ar, em vez de apanhar uma pedra terá de apanhar duas.

Prossegue, até às cinco, caso consiga desenvolver as acções com êxito. Se falhar dá a vez a outro jogador. Quando voltar a jogar, recomeça na situação que tinha falhado.

Após terminado o último lançamento, terá que pegar nas cinco pedras, lançá-las ao ar e tentar apanhá-las nas costas da mão.

Ganhará quem conseguir ficar com o maior número de pedras nas costas da mão.

(C.M. Borba)

Judeus com Arafat


Foto do dia da Lusa (7/Nov/2004)

Explicação

Como quem usa o Blogger deve ter reparado, o tempo dos blogs é falsificável. Esta entrada, escrita e publicada em 1 de Novembro, é um exemplo disso. Os leitores atentos à blogosfera podem também já ter deparado com entradas que têm fotografias de acontecimentos que só sucederam na hora seguinte à que é indicada ou entradas com datas do dia seguinte ao da leitura, pelo que não estou a ser especialmente original.

Resolvi usar este recurso e brincadeira para deixar um delicioso excerto de Umberto Eco, um dos meus preferidos dele. Como é um pouco extenso, e para não enfastiar ninguém, digo já ao que venho, e sugiro a quem se interessar que leia um pedacinho em cada dia, para não cansar muito os olhos...

Entretanto, poderão surgir mais entradas, nos vários dias da semana, que serão inseridas entre as transcrições.

sábado, novembro 06, 2004

Pó de Simpatia (VI)

- E isso explica também os desejos das crianças: a mãe deseja fortemente uma coisa e...

- Sobre isso eu teria mais cautela. Às vezes fenómenos análogos têm causas diferentes e o homem de ciência não deve dar fé a qualquer superstição. Mas voltemos ao meu pó. O que aconteceu quando submeti por uns dias à acção do Pó o pano sujo do sangue do nosso amigo? Em primeiro lugar, o Sol e a Lua atraíram de grande distância os espíritos do sangue que se encontravam no pano, graças ao calor do ambiente, e os espíritos do vitríolo que estavam no sangue não puderam escapar a fazer o mesmo percurso. Por outro lado a ferida continuava a expulsar uma grande abundância de espíritos quentes e ígneos, atraindo assim o ar circundante. Este ar atraía outro ar e este outro ar ainda e os espíritos do sangue e do vitríolo, dispersos a grande distância, enfim, reuniam-se àquele ar, que trazia consigo outros átomos do mesmo sangue. Ora, como os átomos do sangue, os provenientes do pano e os provenientes da chaga, se encontravam, expelindo o ar como um inútil companheiro de viagem, e eram por sua vez atraídos à sua sede maior, unidos a eles os espíritos do vitríolo penetravam na carne.

- Mas não poderíeis pôr directamente o vitríolo na chaga?

- Poderia, tendo o ferido à minha frente. Mas se o ferido estivesse longe? Acrescente-se que se houvesse posto directamente o vitríolo na chaga a sua força corrosiva a irritaria ainda mais, enquanto levado pelo ar só dá a sua parte doce e balsâmica, capaz de estancar o sangue, e que é usada também nos colírios para os olhos - e Roberto pôs os ouvidos à escuta, fazendo depois no futuro tesouro daqueles conselhos, o que certamente explicava o agravar-se do seu mal. - Por outro lado - acrescentou Igby -, é claro que não se deve usar o vitríolo normal, como se usava outrora, fazendo mais mal que bem. Eu arranjo vitríolo de Chipre, e antes calcino-o ao sol: a calcinação tira-lhe a humidade supérflua, e é como se dele se fizesse um caldo consistente; e depois a calcinação torna os espíritos desta substância capazes de ser transportados pelo ar. Finalmente, acrescento-lhe goma adraganta, que delimita mais rapidamente a ferida.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Do desejo

V

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

(Hilda Hilst)

sexta-feira, novembro 05, 2004

Kefiah


(Alba Savoi, 1995)

Uma biografia do homem no limbo, aqui.

Pó de Simpatia (V)

- Mas então se tudo atrai tudo, por qual motivo os elementos e os corpos permanecem divididos e não se tem a colisão de qualquer força com outra?

- Pergunta aguda. Mas como os corpos que têm igual peso se unem mais facilmente, e o azeite se une mais facilmente com o azeite do que com a água, temos de concluir que o que mantém consolidados os átomos de uma mesma natureza é a sua raridade ou densidade, como também poderiam dizer-vos os filósofos que frequentais.

- E disseram-mo, provando-mo com as diversas espécies de sal: que sejam moídos ou coagulados de que maneira for, retomam sempre a sua forma natural, e o sal comum apresenta-se sempre em cubos de faces quadradas, o sal nitro em colunas de seis faces, e o sal amoníaco em hexágonos de seis pontas, como a neve.

- E o sal da urina forma-se em pentágonos, donde o senhor Davidson explica a forma de cada uma das oitenta pedras retiradas da bexiga do senhor Pelletier. Mas se os corpos de forma análoga se misturam com mais afinidade, com maior razão se atrairão com mais força que os outros. Por isso se queimardes uma mão obtereis refrigério do sofrimento mantendo-a por um pouco junto do fogo.

- O meu preceptor, uma vez que um camponês foi mordido por uma víbora, pôs em cima da ferida a cabeça da víbora...

- Certo. O veneno, que estava a infiltrar-se para o coração, retornava à sua fonte principal onde existia em maior quantidade. Se em tempos de peste meterdes numa caixa pó de sapos, ou até um sapo e uma aranha vivos, ou mesmo arsénico, esta substância venenosa atrairá a si a infecção do ar. E as cebolas secas fermentam no celeiro quando as da horta começam a despontar.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

quinta-feira, novembro 04, 2004

Segredo

Sei um ninho
e o ninho tem um ovo;
e o ovo, redondinho,
tem lá dentro um passarinho novo.

Mas escusas de me tentar:
nem o tiro nem o ensino;
quero ser um bom menino,
e guardar
este segredo comigo,
e ter depois um amigo
que faça o pino
a voar.

(Miguel Torga)

Os porquês de Laurindinha

1) Por não o ser.

2) Por me dizer alguma coisa (mas nada a ver com a Laurinda mais conhecida).

Rapariga com brinco de pérola


(Jan Vermeer)

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

(Fernando Pessoa)

Pó de Simpatia (IV)

- Mas como é possível que tantos corpúsculos se dispersem no ar, e o corpo que os emana não sofra nenhuma diminuição?

- Talvez haja diminuição, e dareis por isso quando fizerdes evaporar a água, mas para os corpos sólidos não o notamos, tal como não o notamos com o musgo ou com outras substâncias fragrantes. Qualquer corpo, por menor que seja, pode sempre dividir-se em novas partes, sem nunca chegar ao fim da sua divisão. Considerai a fineza dos corpúsculos que se libertam de um corpo vivo, graças aos quais os nossos cães ingleses, guiados pelo olfacto, são capazes de seguir a pista de um animal. Será que a raposa, no fim da sua corrida, nos parece mais pequena? Ora, é justamente em virtude de tais corpúsculos que se verificam os fenómenos de atracção que alguns celebram como Acção à Distância, que a distância não é, e assim não é magia, mas se dá pelo contínuo comércio de átomos. E assim se verifica com a atracção por sucção, como a da água ou do vinho por meio de um sifão, com a atracção do íman sobre o ferro, ou a atracção por filtração, como quando pondes uma tira de algodão num recipiente cheio de água, deixando pender para fora do recipiente boa parte da tira, e vedes a água subir para além do bordo e pingar no chão. E a última atracção é a que tem lugar por meio do fogo, que atrai o ar circundante com todos os corpúsculos que nele vorticam: o fogo, actuando de acordo com a sua própria natureza, traz consigo o ar que está em seu redor como a água de um rio arrasta a terra do seu leito. E como o ar é húmido e o fogo seco, eis que se agarram um ao outro. Portanto, para ocupar o lugar do que foi levado pelo fogo, é necessário que venha outro ar das vizinhanças, senão criar-se-ia o vácuo.

- Então negais o vácuo?

- De modo nenhum. Digo que, assim que o encontra, a natureza procura enchê-lo de átomos, numa luta para conquistar todas as suas regiões. E se assim não fosse, o meu Pó de Simpatia não poderia agir, como afinal vos mostrou a experiência. O fogo provoca com a sua acção um constante afluxo de ar e o divino Hipócrates purificou da peste uma província inteira mandando acender por toda a parte grandes fogueiras. Sempre em tempo de peste matam-se gatos e pombos e outros animais quentes que exsudam espíritos de contínuo, para que a alma tome o lugar dos espíritos libertados no decorrer dessa evaporação, fazendo que os átomos impestados se agarrem às penas e ao pêlo desses animais, como o pão tirado do forno atrai a si a espuma dos tonéis e altera o vinho se o meterem sobre a tampa do tonel. Como acontece de resto se expuserdes ao ar uma libra de sal de tártaro calcinado e ateado como deve ser, que dará dez libras de bom óleo de tártaro. O médico do Papa Urbano VIII contou-me a história de uma freira romana a quem pelos demasiados jejuns e orações, se aqueceu tanto o corpo que os ossos ficaram todos exsicados. Esse calor interno, com efeito, atraía o ar que se corporizava nos ossos como faz no sal de tártaro, e saía no ponto onde reside a descarga da serosidade, e portanto pela bexiga, de modo que a pobre santa dava mais de duzentas libras de urina em vinte e quatro horas, milagre que todos assumiam como prova da sua santidade.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Caixinha de surpresas

É o que é a blogosfera. Nomeadamente as referências a alguns blogs que nos surgem nos contadores de visitas. Deve ser por causa do botão "next blog" do Blogger...

O que é certo é que já descobri assim um blog de poesia escrito em caligrafia tamil e outro com um título parecido (não me lembro exactamente) a "the space between my fingers was made for you to fill in".

quarta-feira, novembro 03, 2004

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Paz


(Paul Gauguin)

Pó de Simpatia (III)

Igby pôs Roberto ao corrente do seu segredo. A orbe, ou esfera do ar, está cheia de luz, e a luz é uma substância material e corpórea; noção que Roberto recebeu de bom grado pois no salão Dupuy já ouvira dizer que até a luz não era mais que poeira finíssima de átomos.

- É evidente que a luz - disse Igby -, saindo incessantemente do Sol, e lançando-se a grande velocidade para todos os lados em linhas rectas, onde encontra algum obstáculo no seu caminho pela oposição de corpos sólidos e opacos, se reflecte ad angulos aequales, e retoma outro percurso, até que se desvia para um lado pelo encontro com outro corpo sólido, e assim continua até quando se apaga. Tal como no jogo da bola à corda, onde a bola impelida contra uma parede faz ricochete desta para a parede defronte, e muitas vezes realiza um inteiro circuito, tornando ao ponto de onde havia partido. Ora o que acontece quando a luz cai sobre um corpo? Os raios fazem nele ricochete caindo átomos, pequenas partículas, como a bola poderá levar consigo parte do estuque fresco da parede. E como estes átomos são formados pelos quatro Elementos, a luz com o seu calor incorpora as partes viscosas, e transporta-as para longe. Prova disto é que se tentardes secar um pano húmido ao fogo vereis que os raios que o pano reflete trazem consigo uma espécie de névoa aquosa. Estes átomos errantes são como cavaleiros em corcéis alados que vão pelo espaço até que o Sol no ocaso lhes retira os seus Pégasos e os deixa sem cavalgadura. E então eles tornam a precipitar-se em massa para a terra de que provêm. Todavia estes fenómenos não se dão só com a luz, mas também por exemplo com o vento, o qual não é senão um grande rio de átomos semelhantes, atraídos pelos corpos sólidos terrestres...

- E o fumo - sugeriu Roberto.

- Claro. Em Londres obtêm o fumo do carvão de terra que vem da Escócia, que contém uma grande quantidade de sal volátil muito acre; este sal transportado pelo fumo disperde-se no ar, arruinando as paredes, os leitos e os móveis de cor clara. Quando se tem fechada uma câmara por alguns meses, depois encontra-se nela uma poeira negra que cobre tudo, como se vê uma branca nos moinhos e nas padarias. E na Primavera todas as flores parecem sujas de gordura.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

terça-feira, novembro 02, 2004

Sobre a abstenção

Será por ingenuidade ou por insatisfação minhas que não me passa nunca pela cabeça deixar de votar quando há eleições?

Faço sempre o passeio até à "assembleia de voto" com um sorriso nos lábios mal disfarçado e com a solenidade dos dias especiais. Penso nas moles de gente que nas décadas, séculos, milénios anteriores não tiveram oportunidade de votar. Penso nas moles de gente que na actualidade não têm ainda oportunidade de votar. Nesses dias, conto tanto como outros que tiveram mais oportunidades do que eu. Por tudo isso, digo presente. Assumo a minha quota parte de responsabilidade pelo futuro da sociedade em que vivo. E, admito, reprovo quem não assume essa responsabilidade.

Pelo que se tem sabido, espera-se que as eleições presidenciais de hoje nos Estados Unidos tenham um nível de participação "elevado", há muito não visto. O que significa uma abstenção de cerca de 40% dos eleitores...

Alguns dizem que isto acontece porque nos Estados Unidos o estado tem um papel muito menos importante do que, por exemplo, na Europa. Como se o liberalismo económico implicasse alienação da política.

Outros dizem que é por a democracia já estar muito consolidada e as necessidades básicas estarem essencialmente resolvidas que há menos participação. Como se essas coisas estivessem automaticamente garantidas para todo o sempre.

Hoje, deixo um cumprimento especial para quem, como eu, vota.

Forças da natureza


Paul Gauguin, "Fatata Te Moua" ("No sopé de uma montanha"), 1892

Reflexividade

No filme "The Five Obstructions", de Jørgen Leth e Lars von Trier (apresentado no DocLisboa 2004), há uma frase solta mais ou menos assim: "o bloco de notas é o aperfeiçoamento da vida do homem." (E os blogs são os blocos de notas modernos, não é?) O que acham disto?

[Esta entrada é escrita lembrando um teste que esteve na moda há uns meses, com o título "Does Your Blog Own You?"]

Pó de Simpatia (II)

Creio que, numa época em que as desinfecções eram sumárias, só o facto de lavar diariamente a ferida já era uma causa suficiente de cura, mas não se pode censurar Roberto se passou os dias seguintes a interrogar o amigo sobre aquele tratamento, que além do mais lhe recordava a empresa do carmelita a que assistira na sua infância. Salvo que o carmelita aplicara o pó na arma que havia provocado o dano.

- Com efeito - respondeu Igby -, a disputa sobre o unguentum armarium dura há muito tempo, e o primeiro a falar dele foi o grande Paracelso. Muitos usam uma pasta gordurosa, e consideram que a sua acção se exerce melhor sobre a arma. Mas como vós compreendeis, arma que fere ou pano que enfaixa são a mesma coisa, porque o preparado se deve aplicar onde há sinais de sangue do ferido. Muitos, vendo tratar a arma para tratar os efeitos do golpe, pensam numa operação de magia, enquanto o meu Pó de Simpatia tem os seus fundamentos nas operações da Natureza!

- Porquê Pó de Simpatia?

- O nome aqui também poderá levar ao engano. Muitos têm falado de uma conformidade ou simpatia que ligaria entre si as coisas. Agrippa diz que para suscitar o poder de uma estrela será preciso fazer referência às coisas que lhe são semelhantes e portanto recebem a sua influência. E chama simpatia a esta atracção mútua das coisas entre si. Como sucede com o pez, com o enxofre e com o óleo se prepara a madeira para receber a chama, assim empregando coisas conformes à operação e à estrela, reverbera-se um benefício particular sobre a matéria justamente disposta por meio da alma do mundo. Para influir sobre o sol dever-se-ia assim agir sobre o ouro, solar por natureza, e sobre as plantas que se viram para o sol, ou que se vergam ou fecham as folhas ao pôr do Sol para as reabrir ao seu nascimento, como o lótus, a peónia ou a quelidónia. Mas estas são lendas, não basta uma analogia deste género para explicar as operações da Natureza.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

segunda-feira, novembro 01, 2004

"Abruptozinho"?!

Esta pastora corou.

Tim Sebastian


"Hard Talk with Tim Sebastian", BBC World

Serei só eu a gostar das entrevistas "duras" deste Senhor?

Samovar


Cortesia Russian Tea Time

Com a mente a divagar pelos caminhos da ciência e da ilusão em cenários longínquos, lembrei-me de partilhar uma coisa que aprendi com a internet (graças a São Google), depois de tantas vezes lido em autores russos: o aspecto de um samovar!

Pastorícia


Paul Gauguin, "Tarari Maruru" ("Paisagem com duas cabras"), 1897

Pó de Simpatia (I)

Logo o senhor de Igby o enfaixou com uma das suas jarreteiras, para fechar as veias, mas no decorrer de poucos dias a ferida ameaçava transformar-se em gangrena, e o cirurgião disse que era necessário amputar o braço.

Foi nessa altura que Igby ofereceu os seus préstimos, advertindo porém que poderiam considerá-lo um mistificador, e pedindo a todos que nele confiassem. O mosqueteiro, que agora já não sabia para que santo voltar-se, respondeu com um provérbio espanhol: Hágase el milagro, y hágalo Mahoma.

Igby pediu-lhe então um pedaço de pano onde houvesse sangue da ferida, e o mosqueteiro deu-lhe uma peça que o protegera até ao dia antes. Igby mandou trazer uma celha de água e deitou-lhe dentro pó de vitríolo, derretendo-o rapidademente. Depois pôs a peça na bacia. Improvisadamente o mosqueteiro, que entretanto se distraíra, estremeceu agarrando-se ao braço ferido; e disse que de repente lhe cessara o ardor, e até tinha uma sensação de frescura na chaga.

- Bem - disse Igby -, agora só tendes de manter a ferida limpa lavando-a todos os dias com água e sal, de modo que possa receber o justo influxo. E eu irei expor esta celha, de dia à janela, e de noite ao canto da chaminé, de modo a conservá-la sempre a uma temperatura moderada.

Como Roberto atribuiu a repentina melhoria a qualquer outra causa, Igby, com um sorriso de cumplicidade pegou na peça de roupa e secou-a à chaminé, e logo o mosqueteiro começou a queixar-se, pelo que foi necessário molhar de novo o pano na solução.

A ferida do mosqueteiro curou-se no prazo de uma semana.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

Mais agradecimentos

Muito obrigada aos blogs Touch of Evil (muito paciente...) e Reino das Bananas pelos quadros, e ao O Palácio do Desejo pelas palavras simpáticas.